Tuesday, January 6, 2009

Recado a um amigo

O problema é quando o casaco velho não é um casaco, um simples casaco pode ser descartado, pode-se comprar um novo, pode-se dar um jeito. Meu problema é que o que é velho em mim é a pele - e essa eu não tenho como trocar.

Eu olho essa minha pele envelhecendo dia após dia diante dos meus olhos - e passei a olhar com inveja a pele fresca das mais jovens. Tenho vontade de devorá-las do mesmo modo que o monstro marinho que assolava as costas da Etiópia. Perseus acabou com a festa, cortou a cabeça da Górgona e usou-a para transformar o monstro em pedra e ficar com a mocinha, já apropriadamente acorrentada para virar refeição do monstro, casou com ela e reinou em Micenas, não se pode mesmo confiar nesses gregos. Atualmente, me identifico mais com a Górgona do que com os heróis, meu olhar transforma os outros em pedra - e para meu espanto, as pessoas dizem gostar de mim, é um mistério, eu sou e sempre serei, como tão bem definiu um antigo ex-affair, uma “monstra de olhos verdes”. Yeah, a cada dia mais monstra com olhos de Górgona.

Sobre os russos nem falo mais nada, você sabe o que penso deles mas confesso recentemente encantada além da conta com os japoneses. Estou lendo literatura japonesa não-convencional, só leio mulheres - porque, óbvio, se eu vou ler alguma coisa tem que ser não-convencional ainda mais que já sou fã de Yukio Mishima há anos, o que já diz muita coisa sobre mim, especialmente quando se recorda de que gosto também de Camus e daquele delicioso depravado André Gide.

Estou mesmo ficando velha, só leio atualmente os depravados, é um claro sintoma de velhice. Você devia tentar, porque você só lê moralistas, meu querido, e de moralismo já bastam esses idiotas que acham que um casaco velho é alguma coisa que defina um ser humano.

Aguardo nosso almoço, que está fazendo falta.

Tem uma pessoa tomando chá sozinha... em “Recado a um amigo”

  1. Djabal bebe chá e diz:

    O símbolo do sobretudo é interessante enquanto uma posse que sendo velha ou nova dá aparência e define uma pessoa. A cada dia que passa somos mais visuais e sem tempo para parar e pensar a respeito do que ele de fato é, apenas no que parece naquele momento. Portanto, nós temos o resto da vida inteira para provar que a primeira impressão foi falha.
    Enquanto posse também. Basta você ter um casaco novo, para alguém vir e tirá-lo de você. Mesmo que ele seja bem fuleiro. Bem fora de moda, mas se pra você é bom, isso é suficiente para que alguém fique tentado a possuí-lo. Assim caminhamos. Querendo ou não, basta termos apego e isso será sacado. Basta aparentarmos um estado diferente dos demais para sermos excluídos. Portanto, a tentativa deve ser de nadar de acordo com o cardume? Creio que não. Ainda não sei a resposta, mas ela está embutida em alguma palavra. Que nós poderemos nomear, e se normearmos clara e corretamente, seremos adorados como tais. Falsamente. Falsamente. A palavra, como o rio e como nós muda sempre. Nunca é a mesma. Sei lá, entende…mil coisas!! Bjs.

Beba o chá e fale alguma coisa: