Rock’n roll & lama
Meninos, eu estive lá. Rapaz, que show. Tudo que foi bom, foi ótimo. O que era ruim, era ruim de doer.
O local é legal. Tinha lama, muita lama, porque tinha chovido mais cedo, pela manhã. Perto da área onde se vendia bebida & comida era onde havia mais lama. É curiosa a relação da lama com o rock. Desde o primeiro Woodstock, passando pelo Rock in Rio. Rock & Lama.
Foi interessante perceber como a platéia claramente se dividia em grupos. Enquanto uma garotada acompanhava o show de uma banda estilo “beach rock” da qual eu nunca tinha ouvido falar, no palco Um - nem vou mencionar como a música dos tais “Charlotes” era fraca e ruim de doer, uma pálida cópia dos Beach Boys. Argh! - uma outra galera se reunia para esperar a Nação Zumbi, no palco Dois. Os perfis das pessoas eram claramente diferentes a um mero olhar. Estranhas criaturas “fashion victims”, assexuadas, sem identidade. Fico com a galera do Maracatu, muito mais genuinamente brasileiro, original e de rica sonoridade.
Nação Zumbi tocou “O Cidadão do Mundo”, “Da Lama ao Caos”, “Manguetown”, “Meu Maracatú Pesa Uma Tonelada” e músicas do novo CD. Sempre é um prazer assistir um show da Nação.
Depois da Nação, foi duro esperar NIN. Mas quem esperou por dezesseis anos para ver um show ao vivo de Trent Reznor & sua banda, esperou até o último show da noite - Trent entrou às duas da manhã, depois de muita banda ruim, só o show do Iggy Pop para felicidade de quem gosta de música boa, o resto era no mínimo lamentável.
A primeira vez que vi NIN ao vivo foi na cobertura do Woodstock de 1994, feita pela MTV. Trent era uma criatura selvagem e nervosa, coberta de lama, correndo pelo palco de botas militares e bermudas, jogando o microfone ao chão e quebrando instrumentos. Ao final do show, com um dedo sangrando, deu uma entrevista à repórter-barbie da MTV, num tom sarcástico, muitas vezes fazendo comentários cruéis às perguntas ingênuas e cheias de cliché feitas pela repórter.
Quem quiser conhecer mais sobre essa complexa mente musical, que reage mal ao mundo como ele é, está finalmente livre da heroína e do álcool e coloca tudo isso em suas letras, músicas e performances, leia essa reportagem inteira, que, inclusive, traz o vídeo do show de Woodstock de 1994 feito pela MTV. Leia também a entrevista que ele deu para a Rolling Stone. Vale a pena.
Trent está chegando aos 40. Eu também. Ele tem me feito companhia e tem me feito questionar a mim mesma desde meus 23 anos. Tem feito com que eu sinta que não estou sozinha na minha estranheza com o mundo, na minha hipersensibilidade artística, na minha própria dificuldade de me relacionar com o mundo, com as pessoas, comigo mesma. Adorei a resposta dele quando o repórter da Rolling Stone perguntou sobre como é atingir a idade dos 40 anos: “É apenas um número”.
Ontem, finalmente, eu consegui vê-lo ao vivo.
Depois de horas em pé em meio à lama e ao caos, lá veio ele, com um show de luzes de alta tecnologia, um som de alta qualidade e uma performance incrível, que só fizeram com que eu o respeite ainda mais como músico, engenheiro de som e cantor.
Eu não sabia qual seria a seleção. E foram as minhas favoritas: “Wish”, “Sin”, “The Line Begins to Blur”, “March of Pigs”, “Terrible Lie”, “The Frail/The Wretched”, “Closer”, “Burn”, “With Teeth”, “Only”, “Suck”, “Hurt”, “The Hand That Feeds”, “Starfuckers Inc” e “Head Like a Hole”.
Rapaz, eles tocaram até “Burn”.
Trent quebrou dois microfones, jogou um terceiro para a platéia e ao final da performance, ele e o guitarrista quebraram suas guitarras.
Ontem à noite eu tinha dezesseis anos de novo. E ao mesmo tempo, meus 39. E pela primeira vez desde que eu conscientizei esses 39 anos, eu me senti muito, muito bem. Tem sido uma aventura e tanto. Tem valido a viagem.
Thank you so much for be such a great company, Trent.
Now Listening: Reptile
