Saturday, May 17, 2008

A curiosa cobertura da imprensa ao claro que é rock

Ontem e hoje, na ressaca pós-show, fui pesquisar notícias e fotos. Tinha um monte de imprensa atrapalhando a visão do palco durante o show todo, então eu supus que tivessem feito uma ampla cobertura.

Fui otimista demais.

O UOL postou notícias sobre o show em São Paulo. Deu destaque para Iggy Pop, os “patetas” e a banda adolescente dos “Charlotes”. Mike Patton foi notícia porque a imprensa sabe quem ele é. Falou-se levemente sobre NIN e sobre o Sonic Youth, mas ao menos colocaram uma pequena galeria de fotos para cada uma das “atrações” do show. Ignoraram completamente o show do Rio.

A cobertura da globopontocom falou sobre o cancelamento do show da Nação no Rio - o Rio sofre sempre com a desorganização - e nem menciona NIN. Cobriram o show de SP: um jornalista postou um comentário sobre o show em seu blog, falando mais sobre drogas que sobre rockn’roll.

O Terra fez uma cobertura burocrática. Tem uma foto de Trent Reznor. Uma foto do Sonic Youth. Algumas dos demais. Só. O Terra ao menos mencionou os dois. Na Globo, tirando o blog do tal jornalista, nem isso.

A MTV brasileira sempre foi apenas a “filial tupiniquim” da toda poderosa MTV americana, odiada por quase todos que fazem música não-comercial no mundo por sua postura caça-níqueis e censora. NIN sempre foi censurado, a MTV se recusa a exibir seus clipes e quando exibe, corta tudo que não gosta: “Closer” foi exibido na década de 90 com uma tela “scene missing” em todas as cenas que a MTV não gostava.

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Just for the records, não foi apenas a MTV que censurou Trent, várias rádios e outros canais de TV pelo mundo fizeram o mesmo. A arte exibida em “Closer” foi, entretanto, reconhecida: o video de Mark Romanek faz parte da coleção permanente do MoMA, junto com “Bedtime Stories”, feito também por ele, para a música de mesmo nome de Madonna. Trent Reznor está muito bem acompanhado na categoria “censurado” por Radiohead, também censurado pela MTV em “Paranoid Android”, exibido com pontos de “blur” e em “Rabbit in your headlights”, que a MTV se recusou a exibir. Pois a platinada MTV tupiniquim nem noticiou o Claro que é rock. Se resumiu a uma nota de blog dizendo que vai colocar imagens no ar na programação do canal hoje, segunda-feira. Pela quantidade de notas de rodapé sobre o Tim Festival presentes na primeira página do site, desconfio que é uma questão de conflito de interesses comerciais.

O campeão da falta de atenção da imprensa, depois do NIN, foi o Sonic Youth. A imprensa brasileira praticamente ignorou a banda ao mesmo tempo que focou todo o interesse nos “lábios flamejantes” - o que era aquilo, por favor? - nos charlotes e em Iggy Pop.

A imprensa brasileira conhece pouco, não pesquisa nada e dá destaque apenas ao que está na moda, ao que toca nas FMs e tem clipes nos programas de “popularidade” da MTV. Ou o óbvio: bandas com mais de 30 anos de história.

Que saudade do Fabio Massari!


Informação adicionada posteriormente, em 29/11:
Mais uma reportagem, dessa vez, um pouco mais consistente (pelo menos comentaram todas as bandas, apesar do festival de clichés usados):

Apocalipse
“O terror eletrônico do NIN (Nine Inch Nails), apesar do horário, também impressionou e obteve resposta efusiva do público. A apresentação de Trent Reznor foi como o anúncio do fim do mundo. Pesado, poderoso, o som do Nine Inch Nails é rápido e violento, com uma massa de guitarras, sintetizadores e bateria casada com melodias por vezes até mesmo doces que faz com que seja impossível assistir parado. Quando se percebe, já se está pulando –ou no mínimo, sacudindo a cabeça. O vocalista disse que era um prazer finalmente ter vindo tocar no Brasil. Que seja a primeira apresentação de várias.”- da Folha online

Comentário curioso que achei em um fórum:
“Eu diria que o Trent Reznor é o Stanley Kubrick da música. Demora muito tempo para lançar algo, mas quando lança, lança uma obra-prima (e perturbadora =D)
Postado por Mahdi”

Jamais poderia ter definido melhor.

E um email de meu amigo Löis Lancaster:
“Realmente, as pessoas têm gostos muito diferentes… eu e a renca de amigos que encontrei lá no Claro nos amarramos no Flaming Lips, no Sonic Youth, mas principalmente no FANTÔMAS! No NIN a galera já tava dormindo, e Iggy Pop foi burocrático… Mas é por isso que o mundo é interessante. E de qualquer forma, Bad Charlotte realmente era uma m****. :)
Bejo do Löis”

Tem uma pessoa tomando chá sozinha... em “A curiosa cobertura da imprensa ao claro que é rock”

  1. Erwin Maack bebe chá e diz:

    E por este motivo que a imprensa passa por uma crise tão grande de credibilidade, e consequentemente de finanças. Morreu ontem um jornalista que dizia ser missão principal da imprensa, mostrar a diferença entre o real e o aparente. Não é sintomático ?

Beba o chá e fale alguma coisa: