Saturday, May 17, 2008

O jardineiro fiel

Fui assistir o filme do Fernando na Sessão Especial ABCine, com direito a debate com o fotógrafo do filme César Charlone depois da sessão.

Confesso que não gosto de Ralph Fiennes. Não sei bem explicar a razão. Acho a interpretação dele leguminosa. Ao mesmo tempo, adoro Rachel Weisz. Ela é charmosa, bonita sem parecer uma deusa onírica como as que Hollywood normalmente produz artificialmente. Rachel é uma mulher de carne e osso e isso dá veracidade ao personagem. Soube, inclusive, que o Fernando declinou a leguminosa Nicole Kidman para o papel, mais um ponto para ele, de quem já sou muito fã.

Mas essas minhas preferências são irrelevantes. O importante é o tratamento visual escolhido para o filme, o importante é a direção.

Eu sei, o filme é inglês, com co-produção alemã. Mas o olhar é completamente brasileiro.

Alto-contraste, colorido forte, texturas nas imagens. Panorâmicas aéreas longas, cheias de poesia visual, com pássaros voando em formação contrastando com o escuro dos lagos, planos abertos de uma imensa favela africana de telhados amarelados, close-ups das pessoas, roupas coloridas de azul, tons de vermelho e os tons de terra e pontos verde da paisagem queniana.

Os diálogos acontecem, mas com pausas pensadas. Nada de linguajar de novela, a pior praga do cinema brasileiro.

Charlone diz que trabalhou pensando na finalização. Não ficou tão preocupado com a luz no ambiente de filmagem, porque sabia que teria finalização. Iniciou a concepção fotográfica do filme pelo colorista. Devo confessar que saber disso me deu uma satisfação pessoal muito grande.

Explico.

Originalmente a fotografia sempre dependeu 100% do suporte. Tudo sempre girou em torno da emulsão, a latitude, cálculo da luz, adição de iluminação artificial para compensar uma falta de luminosidade no local, etc. Isso tanto para a fotografia de still quanto para a cinematografia. Não é à toa que os melhores fotógrafos de still do mundo possuem estúdios e equipamentos sofisticados para total controle ambiental e os fotógrafos capazes de tirar um instantâneo perfeito em luz natural sempre foram os mais valorizados.

O problema do filme versus luz sempre foi tão contundente e sério para o cinema que, durante a década de 50, quando imperava a Technicolor, o cinema confinou-se em estúdio, escravo da gigantesca câmera que rodava os 4 filmes simultâneos necessários para a geração da matriz colorida usada pela tecnologia proprietária da Technicolor e da necessidade do controle ambiental. A linguagem fixou-se em uma teatralidade imposta pela tecnologia.

A técnica evoluiu, as câmeras diminuíram de tamanho, os cineastas ganharam mais liberdade de movimento com câmeras menores. Algumas décadas depois os computadores surgiram na finalização mas, durante muito tempo, a tecnologia vem sendo usada muito mais para adicionar elementos visuais que não estão ali - ou seja, complementar a direção de arte - do que para auxiliar o fotógrafo em seu trabalho. E assim temos filmes como a saga de Lucas, que não existiria sem efeitos especiais ou a Saga do Anel ou qualquer outro “filme de efeitos especiais” da imensa lista produzida nas últimas décadas, filmes que do ponto de vista fotográfico utilizam uma receita especialmente preparada em prol dos efeitos especiais. A tecnologia vem para completar um cenário, completar uma cena, não como parceira efetiva da fotografia. A fotografia então é feita para proporcionar melhores imagens para o retoque eletrônico e não para obter melhores efeitos fotográficos.

Voltando ao filme de Fernando.

Charlone nos diz que concebeu a fotografia pensando na finalização. Que a primeira pessoa que quis conhecer foi o colorista que trabalharia no filme (para referência e melhor compreensão dessa questão, sugiro que dêem uma lida nesse resumo da Kodak, Sistema de Cinema Digital Kodak).

Essa forma de trabalhar onde o retoque eletrônico se transforma em ferramenta do fotógrafo modifica a concepção da fotografia completamente. Uma coisa é trabalhar com a expectativa de ter que acertar a luz e a cor na filmagem e outra coisa é trabalhar com a expectativa de poder trabalhar a luz e a cor no processo de finalização. São duas fotografias completamente diferentes e não estamos falando de um filme de efeitos especiais nem de um filme de ficção científica.

Essa mudança de perspectiva modifica completamente a concepção fotográfica do filme. O que se vê em O Jardineiro Fiel é câmera ágil, câmera na mão, ar de documentário. Em pontos importantes do filme, fala mais alto a narrativa da imagem.

Imagino a surpresa dos hollywoodianos e dos europeus ao assistir um filme tão ágil, montado com uma narrativa cheia de indas e vindas onde a África, principal cenário do filme, é mostrada de forma colorida e luminosa e os personagens ingleses são mostrados como imperialistas crus, vestidos em seus ternos mesmo sob calor africano.

Não sei se a história de John Le Carré é boa ou não. Não sei se é verossímil ou pura ficção. A câmera de Charlone dirigida por Fernando mostra a história de forma crua e realista, como se estivesse fazendo um documentário. A impressão que se tem é que estamos assistindo uma história que está acontecendo de verdade. E esse ingrediente diferente do que se produz massivamente em Hollywood é que dá ao Jardineiro Fiel a tônica especial que possui.

Tem uma pessoa tomando chá sozinha... em “O jardineiro fiel”

  1. Erwin Maack bebe chá e diz:

    “E nós julgamos os escritores de ficção não só pela sua habilidade em determinar previamente o resultado da luta (em outras palavras, pela sua habilidade em nos persuadir de que elas não são fraudulentas) quanto pelas qualidades do lutador pelo qual eles torcem; se é bom, mau , trágico, engraçado , e assim por diante.
    Mas o principal argumento em favor das lutas previamente decididas é que permitem ao escritor mostrar aos seus leitores a sua visão do mundo - se ele é otimista, pessimista, etc.” John Fowles.

    Se substituirmos escritores de ficção por diretor de cinema, creio que não se muda nada , pelo contrário se ganhará muito em capacidade de análise.

Beba o chá e fale alguma coisa: