Identificação
Tony me pergunta em um comentário:
“Franz Kafka é um cara meio dificil de interpretar, mas sempre que leio algo dele o que sinto é um pessimismo patológico. Você se identifica com ele?”
O que me levou a uma série de divagações com as quais irei presenteá-los agora e responder adequadamente a pergunta de Tony.
Não, eu não me identifico com Franz Kafka. Não há nenhuma identificação a não ser com o fato de eu gostar de surrealismos e identificar uma aura surreal na própria realidade - Kafka também identificou isso. Eu gosto dos escritos de Kafka, especialmente dos questionamentos dele, mas não me identifico com ele.
Outro dia, jantando com um querido amigo, falamos sobre Kafka. A pauta proposta pelo meu amigo é se Kafka foi um vencedor ou perdedor - apenas para colocar de forma simplificada. Na minha opinião ele perdeu, porque foi devastado em sua vida pela existência de seu pai déspota - e devo dizer que a minha opinião é muito desapegada, porque apesar de eu gostar de Kafka, não é um dos meus dez favoritos, para mim Kafka foi uma leitura adolescente que abriu o caminho para que eu lesse mais escritores surreais e de realismo fantástico, eu sou fã confessa de Garcia Marques, um escritor que considero que lidou com as possibilidades surreais da vida de forma muito mais criativa e interessante que Kafka. E aí talvez pese o fato de que Kafka me parece ser um homem profundamente infeliz e miserável, solapado pela influência de um pai que dominou sua mente a vida toda, mesmo quando não estava por perto. Garcia Marques me parece ser um homem feliz. A felicidade pessoal interfere de forma significativa na visão de mundo de uma pessoa e consequentemente, em seus escritos. Kafka afogou-se em seus pensamentos obcecados pelo pai, em sua necessidade de confrontar o pai. Poderia ter escrito mais. Poderia ter procurado um caminho independente no qual pudesse viver e continuar escrevendo. Desconheço as impossibilidades alheias, conheço apenas as minhas próprias e não julgo, porque não considero possível julgar o outro. Cada pessoa é um pequeno universo. Mas Garcia Marques me parece ser um homem mais livre de pensar e escrever, já viveu mais que Kafka e produziu muito mais.
No domingo eu conversava com meu irmão Urso sobre física quântica. Para mim, existe uma poesia magnífica e imaterial na física quântica. A física quântica cientifica o impossível e o imaginado, prova matematicamente que muitos dos sonhos e devaneios humanos não são apenas sonhos e devaneios imateriais, mas possibilidades. Faço caminhos intrincados de pensamentos apenas para concluir que se o ser humano conscientizasse um pouco mais do que a física quântica descobre ano após ano, poderia caminhar mais em mais em direção à realização dos sonhos mais ousados.
A física quântica deveria ser estudada pelos próprios psicanalistas e psiquiatras, porque me parece que pode explicar as neuroses de forma interessante e até propor idéias interessantes de curas. Se o ser humano acreditar ser possível transformar a realidade, acreditará também na própria cura de seus males. Estará livre de suas obsessões, de suas neuroses e paranóias: o possível é realmente possível, não apenas devaneio. Se o ser humano se libertar de seu próprio auto-determinismo, de sua crença em um destino imutável e de uma realidade não-controlável, grandes transformações podem ser atingidas. A teoria do caos passaria a ser uma variável adicionada ao cotidiano e usada de forma produtiva.
Mas tudo isso são apenas divagações minhas. Eu adoro pensar, divagar. Esse meu hábito pode ser irritante para os outros, eu sei. Outro dia fui acusada por uma pessoa - e não é a primeira vez - de ter insights óbvios e de achar que meus insights são relevantes. Respondi apenas que para mim são relevantes, são moradores da minha cabeça. Confesso que fiquei ofendida com o comentário - será que havia inveja? Pessoas são criaturas invejosas e ciumentas - mas não extendi a conversa. Mudei de local no bar e fui conversar com outra pessoa. Se tem uma coisa que eu aprendi é que ofensas são pequenas coisas que devem ser relevadas e deixadas à míngua para morrer. Ofensas alimentadas aborrecem o ofendido e alimentam os ofendedores a cometer mais ofensas.
Voltemos ao surrealismo. E aos insights.
Postei aqui os aforismos de Kafka porque os considerei curiosos e surreais. Gosto do surrealismo. De resto, me parece que Kafka, infelizmente, não tinha a física quântica a seu serviço na época, não se libertou mentalmente de suas próprias amarras e não voou. É pena.

December 12th, 2005 em 10:35 am
Sabe Dani, é incrível como eu preciso conhecer coisas e livros. Exemplo: Garcia Marques? Nunca tinha ouvido falar. Ainda bem que não sou conformado, vou ler e buscar conhecer mais, rs.
As vezes acho que meu pensamento é tão simplista que algumas idéias não entram. Tipo, olhar pra o que Kafka escreve e não sentir amargura existêncial, falta de sentido em viver e coisas afins.
Ps*Eu, como um apaxonado por Psicanálise, também acho que ela perde muito em não estudar física quântica, mesmo eu mesmo não entendendo lá grandes coisas, rs.
December 13th, 2005 em 7:09 am
A verdade sobre Sancho Pança
Sancho Pança (que, aliás, jamais andou se vangloriando disso) conseguiu , no decorrer dos anos, colecionando uma porção de romances de cavalaria e de bandoleiros, desviar, nas horas noturnas e soturnas, de tal modo de si o seu demônio (ao qual ele mais tarde deu o nome de Dom Quixote), que este passou então a executar desenfreadamente os feitos mais malucos, mas que, por falta de um objeto predeterminado (que era para ser justamente Sancho Pança), não prejudicavam ninguém. Sancho Pança, um homem livre, seguia sereno (talvez por uma certa sensação de irresponsabilidade) ao seu Dom Quixote em suas andanças, mantendo assim uma grande e proveitosa conversação até o fim de seus dias.
Franz Kafka.
December 13th, 2005 em 7:29 am
“A linguagem é como seda furta-cor: tudo depende do ângulo em que é olhada.” John Fowles.
Será que podemos explicar as diversas sensações que um escritor causa por esse motivo?
Creio que é uma das melhores explicações. A escrita é uma das formas de comunicação do ser humano, talvez uma das menos exatas, pelo paradoxo de ser aparentemente explícita e deixar de lado uma amplitude infinita, ao circunscrever. Cada vez que escolhemos palavras, frases deixamos de lados outras incalculáveis possibilidades iguais ou melhores de explicar aquele sentimento, situação, caso.
Nós somos complexos, temos milhares de explicações para tudo, não saberemos jamais qual é a certa. Avançamos rapidamente, principalmente hoje, para conhecermos mais e mais. Tenho a impressão de que não sabemos exatamente o que fazer com esse conhecimento. A dor e a miséria continuam a existir, e existirão sempre. Confesso que dia, após dia, tenho mais convicção de tudo isso provém do nosso espírito.
“54. Não há outro mundo além do espiritual; aquilo a que chamamos mundo sensível é o Mal no mundo espiritual, e aquilo a que chamamos Mal não passa da necessidade de um instante da nossa eterna evolução.” (FK).
Assim sermos pessimistas ou otimistas não servirá de nada. A natureza parece que não dá muita bola pra gente.
Não divagarei mais. Todos devíamos divagar, divagar…. bem devagarzinho. Já cantou o Martinho, aquele lá da Vila.