Rótulos
Como é complicado ser você mesmo. Como as pessoas amam rótulos e tribos. Ainda que importados e alienígenas.
Sou uma grande fã da cultura de massas. E nem poderia ser diferente, se você considerar que as minhas grandes paixões profissionais sempre foram, não necessariamente nessa ordem, o design, o cinema, a fotografia e a arte conceitual.
Acompanho com interesse as maravilhas e os horrores que já foram criados pela cultura de massas, com especial atenção para a pasteurização e homogeneização dos elementos culturais.
O problema não é a diversidade mundial - viva a diversidade! - nem o acesso à informação, facilitado exponencialmente pela internet: o problema é o ponto onde a cultura globalizada nos engole de tal maneira que perdemos a identidade regional, perdemos o parâmetro.
Há algum tempo atrás eu escrevi um artigo curto, que postei aqui no chá, que se chamava “Não podemos perder o Ministro”. Eu nunca fui uma grande fã do Gil, mas em sua carreira de Ministro, tenho me transformado em sua fã. Monsieur Gil vem fazendo declarações - e continua até hoje, o corajoso - defendendo a produção cultural regionalizada e alertando para o perigo da globalização. O Ministro está certo. Precisamos prestar atenção para não perder a nossa cultura, que sempre foi variada, rica e não-homogênea. Nas grandes cidades, já somos todos os mesmos, de uma forma assustadoramente pasteurizada. Precisamos nos preocupar com isso.
Em tempos de internet, cultura de massas é isso: globalização. Vamos todos comer sushi, assistir anime, comer fast-foods, assistir filmes iranianos e bollywoodianos, ouvir música black, comprar roupas com 50% off num shopping. Consumimos tudo que se produz mundo afora sem critério, mesmo que isso nos cause uma indigestão cultural e mesmo que isso nos custe o preço de esquecer o que é originariamente nosso, a feijoada, a moqueca de peixe, a cachaça artesanal, a música caipira, a cerâmica marajoara, o axé, o futebol - ou pior, consumimos tudo que não é nosso até o ponto de achar que tudo que é nosso é muuuuito brega. Para quê cultura brasiliensis? Ser globalizado é muito mais cool e nós, com essa nossa herança cultural de povo eternamente colonizado e escravizado, temos vergonha de assumir que os maiores produtos tipo exportação brasileiros são isso aí, essas coisinhas vergonhosas de gente “sem cultura” que turista adora ver e fotografar.
O ser humano adora ser igual aos seus iguais, ninguém, no fundo, quer ser diferente. Todos queremos aceitação, identificação, pertencer a um grupo. O problema cultural se complica quando uma pessoa considera que o seu grupo, os seus iguais, são um grupo de intelectuais franceses tomando café em Paris, ouvindo Edith Piaf e lendo Jean Paul Sartre, ainda que ele mesmo seja um aborígene australiano vivendo no meio do deserto.

December 13th, 2005 em 9:47 am
Morei no Ceará até os 9 anos, depois mudei-me pra Brasília. Lembro-me do que mais me deixava com vergonha era ter que responder de onde eu era, porque sabia que logo viriam as piadas. Logo que comecei a conhecer mais minha cultura, dançar forró se tornou um orgulho, comer pastel na feira da Ceilândia agora é um passeio de retorno à um lugar de que um dia tive vergonha.
Estou passando esse semestre em Uberlândia e quando me perguntam…”De onde você é? Eu digo: Moro em Brasília, mas sou cearence, com muito orgulho!
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