Elephant (2003)
Tagline: “An ordinary high school day. Except that it’s not.”
“Troubles were like having an elephant in your living room.” - Bernard MacLaverty em Elephant (1989)
O filme de Gus Van Sant está em exibição desde o final de novembro no canal a cabo Cinemax. Eu tinha assistido esse filme apenas uma vez, quando foi lançado, em 2003. Já assisti mais duas vezes desde que começou a passar no Cinemax.
Por que eu gosto de Van Sant? Por Drugstore Cowboy (1989), pelo shakespeariano My Own Private Idaho (1991), Good Will Hunting (1997) e por Finding Forrester (2000). Há quem critique Good Will Hunting e Finding Forrester por serem “cinema comercial” mas não há autor nem diretor de cinema que sobreviva se não revezar filmes autorais - cuja tendência é ganhar muitos prêmios mas realizar baixa bilheteria - com filmes comerciais - que podem não ganhar prêmios, mas com bilheteria bem sucedida, garantem a permanência dos cineastas no mercado para que possam fazer os filmes autorais.
Elephant é um dos filmes mais lindos que eu já assisti. O fato de ser baseado em uma história real violenta poderia ter dado origem a um filme cliché, apelativo, panfletário. Mas não na mão de Gus Van Sant. O que compõe a estranha beleza leve, melancólica e trágica do filme é a fina combinação entre a equilibrada e apurada técnica cinematográfica, a narrativa construída a partir de imensos planos-seqüência, os grandes vazios silenciosos e contemplativos, pausas para o espectador absorver e digerir o complexo filme que está assistindo e a escolha criteriosa do elenco - dizem que com exceção de três atores profissionais, todos no papel de “adultos”, o elenco inteiro é formado por adolescentes da região de Portland que não são atores profissionais. Talvez seja por isso que o filme, apesar de ser uma “ficção baseada em história real” nos passa a impressão de realismo.
Na minha opinião, o realismo começa na própria maneira de ser de Van Sant, seu modo de dirigir os filmes, sua forma de ver o mundo, de analisar o modo de vida e a cultura estadunidenses. Van Sant é um dos poucos diretores estadunidenses que ao invés de se afogar em sua própria cultura pop e extremamente capitalista, consegue mostrá-la de um modo diferenciado, deixando transparecer um imenso amor pelas pessoas e pela cultura, mas apontando as muitas falhas que ele percebe.
Tive o prazer de poder assistir em agosto do ano passado uma palestra do montador Mike Rhuman onde ele analisou Elephant e comentou sobre a maneira especial e peculiar como foi filmado, como foram feitos grandes planos-seqüência que depois foram “desmontados” e “remontados” entre si, compondo uma narrativa temporal não-linear mas perfeitamente compreensível. Foi o próprio Van Sant quem montou seu filme. Talvez Elephant seja seu filme mais autoral.
“So foul and fair a day I have not seen.” - frase dita pelo personagem “Alex” em “Elephant”, citando MacBeth, 1.3.38
O nome do filme - “Elefante” - para mim era um mistério. Segundo as críticas que andei lendo remete ao conto indiano dos cegos, que jamais tinham visto um elefante na vida, tateando o animal e tentando defini-lo, sem sucesso. Essa é a magia do filme de Van Sant? Talvez. Como definir e explicar o que aconteceu naquela escola naquele dia comum, quando não se tem informações completas para definir o que é o “elefante”? Refleti sobre o bizarro nome, que me remeteu a várias outras citações, todas sempre envolvidas com o conceito de um problema que não desaparece facilmente, difícil de resolver: “um elefante incomoda muita gente”, “memória de elefante”, “elefante branco”, “elefante na loja de louça”, “elefante na sala”… É especulação? Não encontrei uma entrevista de Van Sant para conferir.
Para realizar Elephant, Van Sant assistiu as gravações feitas pela câmera de vigilância da escola de Columbine, entrevistou os adolescentes que comporiam seu elenco e propôs a eles que pensassem e opinassem sobre questões relacionadas à vivência em escola e o que aconteceu em Columbine. A maior parte da filmagem foi feita com improvisos, sem texto fixo decorado pelos jovens não-atores. Van Sant colocou sua câmera como o olhar de alguém que segue cada um dos personagens-chave de uma forma quase documental. Há poucas informações sobre quem são os personagens, não há opiniões ou julgamento, não há explicações sobre os motivos das ações, não há especulação. Apenas os fatos, mostrados como aconteceram, com poucas alterações.
Um filme que me intriga, pela estranha beleza ao contar uma história aburdamente violenta. Uma beleza que choca por ser bela em um contexto horrível. “O horror, o horror, o horror”.
monstro: do Lat. monstru; s. m., ser organizado, cuja conformação se afasta mais ou menos da que é natural à sua espécie; animal ou objecto de grandeza extraordinária; ente fantástico das lendas mitológicas; pessoa cruel, desumana, perversa; o que é extremamente feio; assombro, prodígio.
monstruoso: adj., que tem a configuração de um monstro; que é contrário às leis naturais; anormal; disforme; excessivamente feio; horrendo; assombroso; descomunal; desmedido; extraordinário.
“Speak, if you can: what are you?” - MacBeth, 1.3.50
O filme começa mostrando um carro avançando lentamente por uma rua residencial, limpa, organizada, com casas suburbanas, gramados bem cortados e árvores outonais. O ambiente mais normal e “american dream” possível. O carro começa a cambalear de um lado ao outro da rua, como se o motorista estivesse tendo muita dificuldade em manter o rumo. O espectador é convidado a imaginar o que está acontecendo durante longos minutos até que finalmente a situação real é revelada: é o pai de um rapaz, embriagado, que está dirigindo, levando o filho até a escola. O carro pára, o filho retira o pai do volante e assume a direção: o diálogo revela que ele ainda não tem habilitação. Coloca-se o primeiro dilema do filme, com uma metáfora importante: o adolescente sem habilitação deve deixar um adulto embriagado dirigir o carro, correndo o risco de um acidente, ou deve assumir a direção, apesar de ainda não possuir total capacidade e autorização para isso?
O filme continua lentamente, apresentando os personagens um a um até finalmente revelar qual é o assunto principal da história. Os personagens são mostrados em sua simplicidade e banalidade, realizando suas tarefas diárias, os fatos vão sendo apresentados como ocorreram, de forma simples e crua. O verbo “shoot” em inglês tem múltiplos significados, tirar uma foto, lançar uma bola de basquete para a cesta, chutar ou lançar uma bola ou ainda, dar um tiro em alguém. Todos esses significados são explorados nas imagens do filme.
Girl in Cafeteria: What are you writing?
Alex: Uh, this? It’s my plan.
Girl in Cafeteria: For what?
Alex: Oh, you’ll see.
Em meio à “normalidade” cotidiana, surgem os dois meninos, carregando pesadas sacolas, vestidos com roupas estilo exército, camufladas. A reação do personagem “John” quando passa por eles elimina qualquer dúvida sobre o significado da entrada desses dois personagens na trama. Ali estão os dois personagens do horror: são dois garotos jovens, bonitos, de famílias médias e comuns que carregam o horror dentro de si e em suas mochilas.
“Come what come may, Time and the hour runs through the roughest day.” - MacBeth, 1.3.147
O espectador é pego desprevenido ao perceber o que é que realmente vai acontecer; o suspense passa a ser uma longa agonia: quando começa o tiroteio? Quais personagens irão se safar dos garotos armados? Quais estão condenados? Como irá terminar a ação?
O filme vai e volta, vai e volta, nos apresentando personagens e situações cotidianas ao mesmo tempo que mostra os dois garotos, que se prepararam por muito tempo para sua ação destrutiva.
Mais jovens nos são apresentados em situações cotidianas comuns. Professores conversam com seus alunos sobre as atividades diárias, aulas, trabalhos, avaliações.
Assistir a um grupo que debate sobre intolerância, preconceito, liberdade é um tormento, a cena é lenta, a câmera passeia de personagem em personagem, o espectador já sabe que o debate ali é inútil porque o horror já está a caminho. Não há avisos, não há sinais. Cada minuto ali naquela sala é um desperdício.
A seqüência onde os dois garotos se preparam para ir à escola com seu arsenal bélico é longa, bela, melancólica, assustadoramente reveladora. Alex toca Beethoven ao piano - talvez uma referência a “Clockwork Orange” de Kubrick? - Eric joga um videogame onde ele atira com diversas armas de fogo de variados calibres em passantes apáticos em um campo de neve. Um a um os bonecos-humanos caem enquanto ele atira. É uma longa seqüência com possíveis pistas para tentar compreender os dois garotos: desenhos nas paredes, roupas jogadas pelo chão, fotos.
Alex: Most importantly, have fun.
Os meninos se arrumam, recolhem seu arsenal, seguem de carro para a escola. Apenas um dos outros alunos da escola percebe o que irá acontecer: John, o menino que estava no carro no início do filme com seu pai embriagado. Ele dá o aviso aos que passam por ele - “não vá lá, algo terrível vai acontecer” e encontra seu pai, que lhe pede desculpas pela embriaguez.
Os adultos estão embriagados, dormentes, inconscientes. Os sinais de perigo eram visíveis, mas ninguém os percebeu. Na cultura ocidental atual gostar de armas, jogar jogos violentos pode ser ao mesmo tempo um sinal de heroísmo - quantos não aderem ao exército e vão ser heróis nas guerras que os Estados Unidos sempre participa? - ou podem ser sinais de mentes pertubadas com a realidade e a inutilidade do ser humano no mundo atual.
Alex: Eeney… Meeney… Meiny… Moe… Catch a… Tiger… By its… Toe . . .
O suspense termina com os primeiros tiros e explosões. Ali estão os dois, espalhando seu horror. O filme termina um pouco diferente de como a história real terminou: Alex mata Eric repentinamente, antes de encontrar um casal de estudantes escondido no frigorífico da cozinha da escola. Então faz o “meeney-meiny-moe” sob os protestos angustiados dos dois jovens sem saída diante do colega armado. “Pegue o tigre pelo dedo” é o final da quadra infantil.
O filme não nos dá nenhuma informação adicional, não há letreiros explicativos, especulações, nada, apenas um lindo céu cheio de nuvens e os créditos finais passando.
O espectador fica sozinho com o encargo difícil de pensar sobre o que assistiu e formar sua própria opinião.
Elephant ganhou Cannes em 2003. “Tiros em Columbine”, documentário de Michael Moore sobre a mesma história, tinha vencido Cannes no ano anterior.
É interessante observar que o “Elefante” do estadunidense Van Sant tenha vencido a “Vila dos Cães” do europeu Lars von Trier. Entre dois filmes que criticam o modo de vida e a sociedade estadunidense, Cannes preferiu o filme que retrata a realidade do ponto de vista de um diretor estadunidense do que a ficção elaborada de um diretor europeu. Talvez porque a crítica mais ácida e crua seja mais elaborada e real quando feita por quem vive a vida e a cultura que está sendo criticada.

Leia mais:
- Ficha no IMDB
- Site Oficial do Filme
- Columbine Massacre
- Living with an Elephant de CH Smith

January 9th, 2006 em 3:36 pm
Engraçado, eu sempre quis ver esse filme (agora ainda mais), mas ele sempre foge de mim. Eu pego na locadora, e acontecem imprevistos e urgências, e ele acaba sendo devolvido intacto. Ele passa na TV, e ou eu tenho-tenho-mesmo que estar em outro lugar em cinco minutos ou já são duas da manhã e o dia seguinte é de trabalho… acho que desisti, mas só por enquanto. Vou acreditar que ainda não estou pronta pra ele e esperar que ele venha a mim qualquer dia desses, quando eu estiver.
:o)
January 11th, 2006 em 9:57 am
puta vida!
trabalhão, vai dizer?
:>/
gostei do filme não, e achei preconceituosa a cena que sugere ligação homossexual.
como a razão real (não-psicológica) para a agressão não aparece, fica parecendo que fizeram tudo por serem homossexuais. van sant pisou na bola, ele que gosta de filmes de fundo gay.
:>]
leu o livro? porra, lê logo, e me passa um e-mail enoooooorme!
:>*
January 11th, 2006 em 10:09 am
Não gostei do “Elefante”, mas esta é uma opinião meramente pessoal… Enfim, este comentário é só uma forma de dizer que não abandonei este seu site, que sempre estarei aqui (para seu azar…hehehe!) Beijos!
January 11th, 2006 em 10:42 am
“achei preconceituosa a cena que sugere ligação homossexual”
Bia, o filme não sugere ligação homossexual. A sugestão veio na sua cabeça provavelmente porque para você o assunto “homossexualismo” deve ter alguns conceitos pré-estabelecidos, o mais claro deles, visivel no seu comentário, é que “homem que beija homem é gay”. A mim parece que a última preocupação presente na cena do beijo é a orientação sexual das personagens.
O menino se volta para o outro e pergunta se ele algum dia beijou alguém; o outro responde que não e então o beijo acontece. É um beijo entre dois seres humanos que nunca beijaram alguém e não terão mais tempo na vida de beijar ninguém pela primeira vez - esse sim, o conceito mais importante do referido beijo! É o “primeiro e último beijo” - na cultura ocidental o beijo tem sempre aparecido como gesto dedespedida, o último gesto de alguém condenado e muitas vezes, como um gesto de traição - uma espécie de “marca de Caim”. Julieta reclama que os lábios de Romeu não tem veneno, quando o beija, e o acusa de traição, por ter se matado sem lhe deixar como acompanhá-lo. Em Blade Runner, o androide Roy beija o olho de seu criador antes de matá-lo.
São muitas referências. O homossexualismo está nos olhos de quem vê e se isso é um problema, novamente, está na cabeça de quem assistiu.
January 12th, 2006 em 7:54 am
mundus vult decipi, decipiatur ergo
— “o mundo quer ser iludido, logo, que o seja”.
São poucos os que nos avisam do que está acontecendo. E dentre eles gostaria de misturar Kafka, Shopenhauer, Lars Christensen e Gus Van Sant.
Todos mostram que caminhamos para um clima de violência sem precedentes na história.
Todos tentam mostrar o porquê disso tudo, alguns escrevendo como o Kafka, Christensen e Shopenhauer, outros filmando como o Gus.
Alguns dizendo que é a solidão apesar da multidão que nos torna assim, outros que a sociedade nos oprime de uma tal maneira que perdemos totalmente o ponto de referência.
Outro ainda alerta que temos que parar para pensar. Não para pensar como ensinou um ou outro, mas para pensar por nós mesmos.
Todas as teorias foram absolutamente falhas em demonstrar cabalmente qualquer coisa que não tenha sido a sua própria incapacidade, portanto temos que apreciar as coisas de nossa própria maneira, se formos práticos.
Finalmente Gus Van Sant mostrou com um filme, tudo e mais um pouco.
Mostrou cenas de um cotidiano absolutamente corriqueiro, que não espanta em nada, e que dá uma sequência de um filme belíssimo, que chama atenção pela beleza estética, que tanto apreciamos.
E vai formando um quebra cabeças que jamais poderíamos imaginar que terminaria como terminou?
Só soubemos pela imensa gritaria que se formou ao seu redor. Todos nós ficamos postados ao lado do trágico acidente querendo saber quem estava na contra-mão, houve excesso de velocidade, quem foi que morreu ?
Os parentes foram avisados?
Apenas ficamos atraídos pela morbidez do espetáculo digno do mais chulo do circo já imaginado pelo homem.
O que é isso senão um pedido clamoroso para pensarmos no Elefante que temos em nossa sala ? Ou que tocamos diariamente em algo que não sabemos definir, mas que o resultado é esse ?
Que pela rigidez e pela forma, apesar de não o vermos, parece ser um Elefante.
Li sobre a história de um vitralista que trabalhava sem o uso das mãos. ‘Quando era perguntado a respeito do significado de sua obra respondia: “Para quê? As crianças entendem sem fazer perguntas…”.’
Temos que voltar à infância. Acreditar nas coisas simples, senti-las. Voltar à espontaneidade e sensibilidade da criança.
Essa que desenvolvemos não resolveu e não resolverá.
Esse filme nos anuncia com essa mesma simplicidade que a natureza não se culpa por qualquer terremoto, ou qualquer tsunami, ela não se vinga, ela age. Essa também será a nossa natureza ?
January 13th, 2006 em 5:33 am
Concordo inteiramente com você, Dani, a respeito da cena do beijo. Eu a achei bastante verossímil, mas, por outro lado, entendo que possa ser mal-interpretada. Van Sant parece que ficou em dúvida se a colocava ou não, e houve pelo menos uma versão do filme sem ela, pelo que li na época.
Entre os filmes dele que você citou, eu destacaria Good Will Hunting, que tem a moldura de filme comercial mas uma liberdade narrativa e temática que remete ao cinema de autor.
Gostei muito de Elephant, e estou cansado de cineastas que tentam colocar suas idéias sobre a realidade a golpes de martelo em nossa cabeça. Nesse filme, Van Sant dá apenas algumas pistas, deixa que o próprio espectador tire suas conclusões. Talvez a cena com Beethoven seja uma referência a Clockwork Orange. Talvez seja também, sei lá, uma referência ao senso de inadequação de quem tem um pouco mais de horizontes culturais (pois os meninos não eram meros idiotas) e não consegue viver nesse mundo onde estamos. Tudo fica em aberto, e isso é muito bom.
Sim, existe uma cultura de violência que ainda vai produzir muitas tragédias no futuro. Mas a reação daqueles que têm o poder é a pior possível. Imaginar que censurando filmes e jogos de computador vai adiantar alguma coisa é como a história de tirar o sofá da sala.