Que regra?
Eu sou uma boa jogadora de xadrez. Já fui melhor, ando destreinada, porque há muitos anos eu compreendi que o xadrez é uma metáfora, é um jogo que simula em microcosmo como o mundo funciona.
O ser humano é interessante; ainda estamos aqui simplesmente porque o ser humano se recusa a aceitar as regras de como a vida funciona. A vida, refletida, por exemplo, no ecossistema, ignora a rebeldia humana. O tempo todo a vida demonstra que o poder é dela, ponto final.
O ser humano teima em brigar contra a morte; a vida vai lá e cria vírus cada vez mais poderosos; o ser humano se considera proprietário do planeta, a vida vai lá e causa tsunamis e furacões, esmagando o ser humano em quantidades épicas, para mostrar quem é que está no comando.
Mas o ser humano aprendeu a jogar xadrez. Ao menos, alguns de nós. O xadrez é um jogo belíssimo. Não importa o tamanho ou o poder do seu oponente, importa o quão paciente você é, o quão estrategista você é, o quanto você pensa antes de mover sua peça. É possível ganhar o jogo e aprender muito quando se perde. É possível escolher quais jogos valem a pena ser jogados. É possível saber quando um jogo é muito importante ou quando é apenas um jogo de aprendizagem.
Devo confessar que me canso dos seres humanos que não sabem jogar xadrez - ou pior, não entendem que a vida está jogando xadrez o tempo todo. Vejo essas pessoas fazendo coisas francamente estúpidas, dando tiros nos próprios pés. Elas não compreendem as regras da vida, não as utilizam para seu próprio benefício. É tão simples. Basta jogar xadrez.


February 23rd, 2006 em 8:46 am
Um dia joguei com uma pessoa que - imaginei - jamais seria capaz de me vencer. Isso no íntimo, bem no íntimo. Joguei. Perdi. Foi a melhor lição que aprendi dentre todas as aberturas, visões panorâmicas da partida e leitura de algum grande mestre. De fato xadrez é um grande jogo. Hoje prefiro jogo da velha.
February 23rd, 2006 em 8:58 am
Agora eu fiquei muito, muito curiosa.
Vou contar uma historinha. Quem me ensinou a jogar xadrez foi meu pai. Durante algum tempo, eu ganhava dele. Ele me deixava ganhar. Eu ficava feliz, estimulada e aprendia o jogo. Depois de uma certa idade, acho que uns dez anos de idade, meu pai passou a ganhar todos os jogos. Era um tormento conseguir ganhar dele, exigia muito esforço. Eu mais perdia dele do que ganhava. O tempo passou, eu cresci, meu pai morreu em 1984. Em 2004, 20 anos depois da morte do meu pai, fui ao Rio rever a família dele, seus irmãos, meus tios, e seus sobrinhos, meus primos. Fui ver meu tio Bebeto, o irmão caçula de meu pai, tocar numa imensa loja de instrumentos musicais em Copacabana, um lugar que tem um café e um espaço próprio para jam sessions. Meu tio ficou emocionadíssimo em me ver e me apresentou para seus colegas músicos, dizendo que eu sou filha do irmão dele. Começou a contar coisas sobre meu pai para os músicos e disse “o pai dela tinha um imenso orgulho dela, dizia que ela o arrasava no xadrez, que era uma dureza ganhar dela.”
February 28th, 2006 em 12:49 am
No xadrez da vida tomei um xeque-pastor…
March 1st, 2006 em 12:19 am
Aprendi a jogar xadrez aos 7 anos, com meu pai (acho que isso ainda é uma das coisas que os pais passam para os filhos, assim como a torcida pelo time de futebol). Imagino que nas antigas jogar xadrez fosse não apenas um hobby de poucos, mas parte do cabedal necessário de qualquer pessoa instruída.
Ah, nem sei o que comentar. Seu texto está lindo, amei. Será que é por isso que os comentários vêm aos pouquinhos? Às vezes, quando melhor o texto, menos as pessoas se animam a comentar…