Saturday, May 17, 2008

A Máquina

Fui assistir “A Máquina” na Cabine do Robocop, cortesia do Julio, meu editor no Digestivo Cultural.

Primeiro, umas explicações: “cabine” é uma sessão privé de cinema, num escritório chique de uma distribuidora de cinema igualmente chique, num prédio ainda mais chique - o Robocop é um edifício ultramoderno megalomaníaco todo prateado, aqui perto, na Nações Unidas. Eu me perdi para chegar lá porque eu não sabia que era no Robocop, eu tinha o endereço mas a Nações Unidas, apesar de ser uma avenida quilométrica, não tem numeração sequencial - provavelmente para as pessoas se perderem mais. Bom, cheguei lá depois de me perder, descobri que era mais perto da minha casa do que eu pensei ao olhar no mapa da cidade, atravessei um hall de mármore e granito, peguei um elevador supersônico e fui para o 12º andar.

Há uns tempos atrás “O Auto da Compadecida” (dois milhões de espectadores) e “Lisbela e o Prisioneiro” (três milhões e meio de espectadores), ambos de Guel Arraes, foram um grande sucesso do cinema nacional. O Auto nasceu como minissérie da TV Globo e depois foi transformado em filme pela Globo Filmes justamente devido ao grande sucesso da minissérie. Guel Arraes é um competente diretor e filho do ex-governador cearense de Pernambuco Miguel Arraes. Foi o criador do sucesso de TV “Armação Ilimitada”.

“A Máquina” é de João Falcão com produção de Diler Trindade (com a primorosa fotografia do diretor pernambucano Walter Carvalho). Conta a história de uma mocinha que quer ir embora da cidade de “Nordestina” e ser atriz e um rapaz que, apaixonado por ela, resolve fazer alguma coisa para “trazer o mundo para Nordestina”. O filme é um encanto, tem um texto saboroso - embora ainda seja numa quantidade pra lá de verborrágica - e um audiovisual lindo. Como se trata de uma adaptação de uma peça teatral, optou-se por fazer todos os sets da cidade de Nordestina em estúdio, com uma linguagem visual teatral. Nordestina é teatro, o mundo exterior é mundo real. “A Máquina” é um lindo filme, com um roteiro redondo que entretém e causa sorrisos de satisfação - eu penso que podia ser um pouco menos arrastado e tem um defeito de roteiro, não conta o que aconteceu com a ambição da personagem feminina em se tornar atriz, mas dá para relevar esses dois problemas diante da qualidade do filme.

Vou colocar no mesmo balaio mais dois filmes que eu assisti, que são belíssimos, redondos e que estão fazendo sucesso de público: “Cinema, Aspirina e Urubus” e “Cidade Baixa”, o primeiro, pernambucano, e o segundo, baiano. Novamente, dois lindos filmes, com fotografia primorosa, bom roteiro, interpretações ótimas. Assim como “A Máquina”, os dois têm colecionado prêmios importantes e agradam ao público.

Muito bem, por que estou escrevendo tudo isso? Porque eu li uma crítica massacrante ao filme “A Máquina” em uma revista de cinema online daquelas que ganhariam o selo “somos uma revista cheia de especialistas doutores que sabemos do que estamos falando embora nunca tenhamos pisado em um set de cinema”. O autor da crítica comparou o filme de João Falcão com os filmes de Guel Arraes, dando mais pontos para Guel Arraes. Um dos argumentos do senhor crítico de cinema é de que esse “formato” já “cansou”.

Cansou quem? Só se for o senhor crítico, porque a platéia não me parece nada cansada.

A mim parece, sinceramente, que existe uma inveja horrível de alguns senhores intelectuais da região Sul-Sudeste com filmes de origem Norte-Nordeste. Senti na tal mencionada crítica um ranso danado de mentalidade colonial anti-cultura nordestina. E daí que “A Máquina” traz uma linguagem teatral nordestina? E daí que os filmes de Guel Arraes assim como os de produção da Diler tem apoio da Globo Filmes? E daí que a estética da luz solar e das cores contrastadas do cinema nordestino fazem sucesso? O que é que incomoda esses senhores intelectuais? Que não tenhamos filmes com cara de Woody Allen filmando em Manhatan? Que os outros filmes que fazem sucesso de público sejam, por exemplo, “Se Eu Fosse Você” do Daniel Filho e “Dois Filhos de Francisco” de Breno Silveira, para os quais os intelectuais torcem o nariz porque o primeiro é subproduto da televisão e o segundo da música sertaneja?

É isso mesmo, senhores intelectuais do Sul-Sudeste, os filmes nordestinos continuam dominando a atenção do público brasileiro. Faz todo sentido cultural e é merecido. Infelizmente para os intelectuais “sulistas” o cinema brasileiro autoral nasceu lá na Bahia e não no eixo Rio-São Paulo. Infelizmente para os intelectuais sulistas, a maioria da população brasileira é de alma nordestina, ainda que more no eixo sul-sudeste e gosta dessas coisas populares que irritam os intelectuais sulistas: cordel, maracatu, axé, farinha d’água, tapioca, açaí, música sertaneja, TV Globo, O Auto da Compadecida, Lisbela e o Prisioneiro, A Máquina, Cidade Baixa, Cinema, Aspirinas e Urubus, Se Eu Fosse Você e Dois Filhos de Francisco.

Preconceito cultural me irrita. Paternalismo cultural me irrita.

“A Máquina” é um filme delicioso. Tem lá seus defeitos, mas ainda assim, valeu a pena assistir, é lindo, eu me diverti e curti um filme muito bem feito e saboroso. Recomendo.

3 Chás servidos em “A Máquina”

  1. Marcus Pessoa bebe chá e diz:

    Ah, esses críticos-doutores são um saco.

  2. Harry Letterx bebe chá e diz:

    Baianidade.

    Leu meu e-mail? Mandei pro teatime…

  3. ratapulgo bebe chá e diz:

    Isso aí, sá minina! Desce a lenha nos dotô que eles merece!
    :)

Beba o chá e fale alguma coisa: