Saturday, May 17, 2008

Conversando com Nelson Pereira dos Santos

Nelson Pereira dos Santos

A história de hoje começa com um email recebido notificando uma “Cabine”, ou seja, uma sessão fechada para a imprensa, do filme “Brasília 18%” acompanhada uma nota que chamou minha atenção: “estamos agendando entrevistas com o elenco e com o diretor do filme, Nelson Pereira dos Santos”.

Nelson Pereira dos Santos é um dos diretores mais importantes do cinema brasileiro com uma longa filmografia. Seu primeiro filme foi Rio 40 Graus (1955), que ele escreveu, produziu e dirigiu de forma independente, através de um sistema de cotas divididas entre os interessados na produção, numa era que as grandes produções cinematográficas brasileiras se limitavam às chanchadas da Atlântida e outros filmes de estúdio. Influenciado pelo neo-realismo italiando fez um filme quase documentário, focando um dia na vida de vendedores de amendoim tendo como cenário as praias do Rio de Janeiro. A polêmica com o tema foi grande, o filme foi censurado mas conquistou diversos prêmios e a simpatia do público.

Nelson sempre demonstrou paixão pela literatura: filmou Guimarães Rosa (A Terceira Margem do Rio/1994), Machado de Assis (O Alienista/1970 e A Missa do Galo/1982), Graciliano Ramos (Vidas Secas/1963 e Memórias do Cárcere/1984), Jorge Amado (Tenda dos Milagres/1977) e até Gilberto Freyre (Casa-Grande e Senzala/2000). Seus filmes foram premiados em Cannes, em Gramado e vários outros festivais. É o diretor que criou o cinema autoral no Brasil e foi considerado por Glauber um dos fundadores do Cinema Novo - o que ele já negou várias vezes, atribuindo essa fama a uma das várias provocações que Glauber Rocha fazia com a mídia. Brincadeira ou não, há um reconhecimento da importância de Nelson e desde o ano passado ele é imortal: é o primeiro cineasta a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Eu queria muito entrevistar Nelson. É o que se chama de “oportunidade de uma vida”. Então começamos o processo de solicitação e agendamento da entrevista, com o Mark, editor da Paradoxo, trocando emails com a assessoria de imprensa do filme. Enquanto os emails fluiam, fui assistir “Brasília 18%” na cabine.

Na segunda-feira dia 10 de abril veio finalmente o email de confirmação: minha entrevista com Nelson estava marcada para o dia 11 às 17 horas em um hotel na Avenida Paulista.

Pela manhã fui assistir o novo filme de Win Wender. Eu adoro Win Wenders, o novo filme dele fala de cowboys e de cinema - o que me pareceu apropriado, já que à tarde eu entrevistaria o responsável por um dos melhores bangue-bangue sertanejos, Mandacaru Vermelho (1960) mas falarei sobre isso em outra oportunidade.

Enquanto eu aguardava o Nelson, tomava café e comia uns sanduíches cor-de-rosa que serviram, conversei Mônica Keiko, atriz estreante que faz o papel de uma prostituta adolescente na trama política de “Brasília 18%”. Mônica, conversando comigo, não teve medo de responder à minha pergunta provocativa: “você já tinha ouvido falar do Nelson antes de ser chamada para fazer um filme dele?” A linda menina sorriu e confessou que não, que conhecia de nome mas não sabia bem quem era. Assim que foi escalada, fez uma pesquisa e sentiu um frio no estômago ao descobrir quem era o diretor.

Nelson

Finalmente meu horário chegou e entrei em uma sala com Nelson, um poster do filme, uma mesa e duas cadeiras. Nelson já tinha atendido mais de uma dúzia de jornalistas. Primeiro, ele se sentou ao meu lado esquerdo, mas trocou de lado:
- Vou sentar desse lado aqui que eu escuto melhor desse ouvido – disse ele, sentando-se na frente do poster. Nada como conhecer bem a rotina para escolher o melhor local para sentar e proporcionar uma boa foto promocional do filme!

Dani - Nelson, como é ser um ícone do cinema e um imortal?
Nelson – (risos) Pois é, agora eu vou tomar chá na Academia.
Dani - Vai discutir poesia com o Sarney? Falar de Guimarães Rosa com ele?
Nelson - Pois é, pois é… eu não tomei posse ainda, ainda vai ter a posse. Só depois disso que eu vou participar dos chazinhos. Sabe que fizeram uma festa pra mim que foi até as quatro da manhã? Até hoje não me recuperei.
Dani - Mas como é o ícone e imortal Nelson Pereira dos Santos? É muito diferente do homem? Do cineasta?
Nelson - Eu não penso nisso, sabia? Para mim não mudou nada. Não me vejo como ícone. Essa história de imortal é engraçada.
Dani - Mas como não? Você é uma referência para o cinema nacional!
Nelson - Referência? Não sei. Não quero saber, deixo isso para os estudiosos. Eu sempre fiz os filmes porque eu queria fazer. Porque eu gostava de fazer. Eu gostei muito de fazer cada um dos meus filmes.
Dani - Você abraçou a aventura do cinema independente, desde o início da sua carreira, Glauber diz que você criou o cinema novo…
Nelson - Ninguém queria produzir os meus filmes, eu tive que montar meu esquema de produção. Mas apesar disso, muitos dos meus filmes foram sucesso de público. E o Glauber… o Glauber provocava muito as pessoas.
Dani - Você passou onze anos fazendo apenas documentários. O que fez você decidir voltar à ficção?
Nelson – Fiquei com vontade. Basicamente eu filmo as coisas que tenho vontade, eu tinha esse roteiro meio escrito desde 1993, resolvi terminar de escrever e filmar.
Dani - Como estão sendo as pré-estréias e a repercussão?
Nelson - Está sendo ótimo.
Dani - Eu estava conversando ali no corredor, me contaram que na estréia em Brasília rolavam uns olhares e umas risadinhas nervosas por causa da trama do filme.
Nelson – Não vi essas coisas, mas deve ter acontecido mesmo. A trama é polêmica. Eu tive a sorte de ter um roteiro muito bom e de repente o tema do filme voltou a ser atual, com as recentes CPIs. O mais importante em um filme é o roteiro. Eu comecei o roteiro em 1993, o filme foi encaminhando, porque demora pra encaminhar, e justamente agora que saiu, estamos nesse momento político.
Dani - A história do filme permaneceu atual, mesmo dez anos depois.
Nelson – A política no Brasil ainda é a mesma, com os mesmos problemas.
Dani - Quais são seus próximos projetos?
Nelson – Um documentário sobre Tom Jobim, que estou devendo faz tempo. Eu adoro música. Eu vou me focar nos três grandes temas de Jobim: a mulher, o amor e a natureza.
Dani - Vai voltar aos documentários.
Nelson - Sempre. Eu adoro fazer. (pausa) Você assistiu o filme?
Dani - Assisti.
Nelson - Gostou?
Dani - Gostei, mas gostei muito mais de conhecer você em pessoa.
Nelson - Eu também gostei, essa entrevista está diferente.

Daí acabou meu tempo, eu me despedi, abracei o sorridente e imortal Nelson e saí ainda encantada com a linda figura dele. Nada como conhecer pessoalmente um imortal.

Brasília 18%

Filmar no Brasil é um problema. Aliás ser brasileiro e viver no Brasil é um problema. As pessoas não tem memória, a burocracia é absurda. Não é a toa que o filme mais surreal de Terri Gilliam, baseado no livro “1984” de George Orwel se chama “Brazil” - assim mesmo, com Z – e toca “Aquarela do Brasil” em vários trechos do filme. Brazil, meu Brazil surreal.

Brasília 18% não tem Aquarela do Brasil, mas tem todo o clima surreal do Brazil. Temos aquele clima estranho semi-árido do planalto central – a referência 18% é em relação à umidade relativa do ar na cidade-capital. Dizem que no inverno desovam-se os cadáveres no planalto, acobertados pelas chuvas. No verão, devido à seca, a polícia começa a encontrar os corpos.

É esse o mote inicial de Brasília 18% - um corpo de uma moça, uma assessora parlamentar encontrada morta. Na mão de outro diretor talvez tivéssemos um daqueles chatíssimos filmes-de-denúncia-brasileiros cheios de miséria para cá e para lá, vejam, esse é um país que não vai pra frente, a corja, a miséria, etc. Herança ainda do próprio Cinema Novo criado por Glauber e que Nelson já afirmou em diversas entrevistas que não assume a paternidade, não, muito obrigado.

A afirmativa faz sentido – Nelson sempre tem um olho mais humano e mais delicado para os problemas humanos dos brasileiros – e escapa da panfletagem que recheia os “filmes-denúncias”. Sem Nelson na direção talvez não tivéssemos a beleza de Bruna, Malu, Karine e Monika para apreciar, com seu olhar generoso com as mulheres, uma de suas paixões. Sem Nelson a paisagem talvez fosse menos árida. Sem Nelson o filme não pareceria filmado o tempo todo às 4 da tarde, aquela luz que deixa qualquer um que já tenha ido a Brasília com a impressão de vertigem que só a cidade-capital transmite. Sem Nelson não teríamos as seqüências de plano-contraplano em espelhos e reflexos de vidro de carros e nem diálogos em avião – que só quem já foi ao menos uma vez para Brasília de avião compreende a importância.

O filme que não é filme-denúncia termina denunciando algumas coisas que talvez não sejam intencionais. Uma delas é a crônica problemática do cinema nacional com seus processos burocráticos de apresentar 54 documentos acompanhados de planilhas para obter aprovação na lei do audiovisual. Como se fosse possivel alguém recusar a Nelson, produzido pela Videofilmes de Waltinho Salles a feitura desse filme. Só no Brazil, mesmo. A outra é que ainda existem algumas pessoas que acreditam que algum dia esse país vai melhorar, mesmo com CPIs, mesmo com o clima semi-árido da cidade-capital e as conversas de avião que decidem o destino de uma moça bonita ou de uma nação.

Links:
- Filmografia completa
- Prêmios conquistados pelos filmes de Nelson

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