A idéia é boa mas a realização…
Eu pensei que eu já tivesse visto de tudo na vida. Pensei que nada no mundo iria superar algumas das coisas trash que eu já assisti. Pois bem, eu estava enganada.
Primeiro algumas explicações. Como todas as pessoas do mundo, eu tenho um lado negro, o meu lado negro chama-se “cinema trash”. Vejam bem, kids, eu AMO cinema trash.
Já assistiram The Raven (1963) com Vincent Price? E que tal The Abominable Dr. Phibes (1971)? Não? Não sabem o que estão perdendo. Imagino que já ouviram falar de Ed Wood, ao menos do filme de Tim Burton. Pois precisam assistir Glen or Glenda (1953). Conhecem John Waters? O meu favorito é Serial Mom (1994). Eu adoro Wes Craven. Sou fã de Johnny Depp há décadas porque eu o vi pela primeira vez em A Nightmare On Elm Street (1984), série que eu tive o prazer de assistir completa e da qual meu filme favorito é Freddy’s Dead: The Final Nightmare (1991) por causa da seqüência de pesadelo onde a “vítima da vez” está numa casa maluca conversando com o personagem de Johnny Depp, que aparece na TV.
Eu sou fã de John Carpenter, meu favorito é Vampires (1998). Para mim, Fright Night (1985) é um clássico do horror trash anos 80 que fica ainda mais trash em Fright Night Part 2 (1988) com a dança vampiresca cafonérrima da vampira Régine (Julie Carmen).
Sentiram o drama?
Existe qualidade nesses exemplos que eu dei. São filmes que possuem beleza estética, roteiros interessantes, é cinema bem executado, tanto que vários deles foram sucessos de público. A luz noir e o expressionismo dos filmes de horror PB de Vincent Price são magníficos. A série Fright Night é um resumo do que acontecia na década de 80, com as cores, os cabelos, as roupas, as personagens da década de 80. Nada mais adequado na era em que a AIDS surgiu no mundo do que um surto de filmes vampirescos ambientados em danceterias. Wes Craven realizou o que eu considero uma série de filmes surrealistas onde o tema onírico recebe um tratamento de primeira linha, especialmente depois do sucesso da série de Freddie, recheado de efeitos especiais para compor esse universo de pesadelos com mais eficiência. John Carpenter transforma os filmes de vampiros em faroestes filmados à luz dos finais de tarde. John Waters é provavelmente um dos mais sarcásticos críticos da cultura kitsch norte-americana tendo o travesti Divine como seu principal personagem. Só que todos eles são trash, incrivelmente trash, sem orçamento, sem apoio inicial dos estúdios, sem distribuição. Wes Craven só conquistou crédito depois da bilheteria do primeiro Freddie. John Waters permaneceu independente, mesmo com o sucesso de Serial Mom. Se ficaram convencidos e quiserem mais, recomendo esse site: Cool Cinema Trash.
Hoje fez um lindo dia de feriado com cara de sábado, eu tenho alguns trabalhos para terminar mas fiz uma pausa à tarde e resolvi ver um pouco de TV a cabo. Esbarrei com uma bizarrice sem fim chamada It’s Pat. O filme já estava começado, atraiu a minha curiosidade. Assisti inteiro.
“It’s Pat” é um skit de Saturday Night Life que foi transformado em longa metragem. O filme é de 1994. Tem Dave Foley, que eu adoro, não perdia um episódio de NewsRadio por causa dele. Tem a chatíssima Kathy Griffin, a ruiva que enlouquecia a eterna boazinha Brooke Shields em Suddenly Susan. Tem Kathy Najimy, uma comediante de excelente timing. Tem uma rápida ponta de Harvey Keitel fazendo um padre, no final do filme. Tem até Camille Paglia dando uma entrevista e falando sobre androginia. E consta na trivia do filme - pasmem! - que Quentin Tarantino ajudou a escrever o roteiro!!
Meudeus, como esse filme é ruim. É um lixo atômico de tão ruim. É tão ruim que foi indicado a 5 Framboesas de Ouro (pior filme, pior atriz, pior nova celebridade, pior casal romântico e pior roteiro) e não ganhou nenhum. Teve um concorrente de peso, é verdade, Showgirls (1995) de Paul Verhoeven, que ganhou pior atriz, pior roteiro, pior filme, pior diretor e vários outras categorias. Verhoeven foi receber o prêmio pessoalmente, sendo o primeiro diretor vencedor em toda a história do prêmio a comparecer na cerimônia.
Chris and Pat

O plot é simples: tem esse “cara” chamado Pat, que parece ser do gênero masculino mas não dá pra dizer com certeza e é interpretado pela atriz Julia Sweeney coberta de próteses de borracha para fisicamente parecer “um cara gordo”, com peruca, sobrancelhas postiças e óculos. Tem uma “garota” chamada Chris, interpretada ótimamente por Dave Foley de peruca loira e batom vestindo um figurino largo sempre cobrindo o corpo todo. Tem um vizinho, Kyle, que fica cismado com aquela bizarrice. A cisma de Kyle se transforma lentamente numa obsessão em descobrir a verdade por trás daquela criatura estranha. Pat mantém um diário trancado com senha em um laptop que parece um computador de brinquedo. Pat e Chris estão para ficar noivos. Kyle faz de tudo pra descobrir o que é que está rolando.
O problema é que “Pat” é um personagem que foi criado para um skit e não para um filme. No skit, a piada toda girava em torno do fato de que ninguém sabe dizer se Pat é um cara gordo que parece uma mulher feia ou uma mulher feia se passando por um cara gordo. “Pat” pretende fazer piada com aquela androginia que foi característica dos anos 80 mas foi produzido com uma década de atraso e não desenvolve o tema, não desenvolve a piada.
Vamos esquecer por um minuto que “Pat” é uma bobagem. Agora vamos imaginar que esse fosse um filme dirigido por outra pessoa. John Waters, por exemplo, ou David Lynch.
Era uma vez uma pessoa chamada Pat. Não sabemos o gênero dessa pessoa, mas parece uma mulher feia e gorda muito masculinizada ou um cara gordo desprovido de hormônios masculinos. Então temos Chris, que parece uma mulher muito sem sal, ou um cara vestido com as roupas da tia. Eles moram sozinhos, cada um em um apartamento cubículo. Chris assiste novelas da tarde e chora, emocionada. Pat trabalha numa loja de conveniência e faz piadas sem graça para os clientes. Os dois se conhecem no pátio do prédio, em frente à piscina rodeada de flamingos rosa. Começam um relacionamento. Ambos têm essa bizarrice em comum. As pessoas que convivem com eles ficam intrigadas e desejando saber quem é o quê. E a trama se complica.
Se fosse um filme de John Waters, depois de uma meia hora de filme, ele nos contaria que se trata de uma farsa, que Pat é uma garota travestida de cara e Chris é um cara travestido de garota. Provavelmente Waters adicionaria pais neuróticos para Pat, trabalhadores de classe baixa que moram em uma casinha de subúrbio e uma mãe possessiva para Chris que vive vestida de tailleurs rosa (podia ser a Debbie Reynolds, ficaria ótimo). Pat e Chris não querem contar um para o outro quem realmente são, com medo de perder o amor da sua cara-metade. Só que o romance vai ficando sério. Finalmente decidem contar e descobrem que são feitos um para o outro. As famílias enlouquecem com o anúncio do casamento. Ficam se tratando de forma constrangida porque não sabem se a outra família sabe do “segredo” do filho/filha nem se os próprios filhos sabem do “segredo” um do outro. Seria uma comédia de rolar de rir.
Agora imaginemos o filme na mão de David Lynch. Kyle MacLachlan (que, por sinal, ganhou um Framboesa de Ouro de pior ator por ShowGirls) seria o vizinho que decide investigar o casal bizarro. Pat seria um anão gordo com um bigode falso, Chris seria uma magricela gigante de peruca. Teríamos várias cenas de sugestão de perversões de ambas as partes. O síndico do prédio seria um sujeito que só veste terno preto e cospe tabaco pelos cantos. A mãe de Chris teria problemas com bebida (de novo, Debbie Reynolds me parece uma excelente opção para esse papel). O pai de Pat seria um ex-policial gay enrustido. Alguém morreria na piscina do condomínio lá pela metade do filme e voltaria em sonhos para conversar com Kyle MacLachlan. Faltando uns 20 minutos para acabar o filme, Kyle MacLachlan descobriria toda a verdade falando com o fantasma da piscina, Pat e Chris o matariam com uma pá, enterrariam no bosque próximo, fugiriam durante a noite, casariam em uma capela de Las Vegas e abririam uma funerária.
É uma pena. Até Adam Sandler teria feito de “It’s Pat” um filme melhor. Que desperdício.

April 22nd, 2006 em 3:45 am
Adorei. Suas leituras sobre Waters e Lynch foram ótimas.
Esse skit é da melhor época do SNL: final dos 80, começo dos 90. (Tirando a 1ª temporada, claro). Dana Carvey fazendo a “Church Lady”, Phil Hartman como o “The Anal Retentive Chef” e Dennis Miller no Weekend Update.
Não assisti o filme, mas acredito que o melhor skit-tranformado-em-filme do SNL ainda é o Blues Brothers. Seguido por Wayne’s World.
April 22nd, 2006 em 9:14 am
A melhor coisa de todos os tempos do SNL era Dana Carvey fazendo “Church Lady”. Dennis Miller foi mesmo o melhor apresentador do “noticiário”, as canções improvisadas de Adam Sandler eram impagáveis.
Concordo com você, Blues Brother é o melhor, mas veja bem, é John Landis, Dan Ackroyd, John Belushi…
April 22nd, 2006 em 11:50 am
Obrigado pelo aviso. Jamais assistiria o filme, anyway, pois o o quadro do SNL já era muito ruim. O único bordão que eu gostava era o “Sting-Lingo… Making copies!!” E um que uso até hoje quando vejo canastrões: “Acting”!
A versão do Linch está perfeita e serve também para a o remake de Superfêmea e Hunt of Red October.