A arte, a memória, o cinema e o onze de setembro
O Onze de Setembro marcou a memória dos norte-americanos. Foi um ataque terrorista inesperado, destruiu um de seus maiores símbolos, matou milhares de pessoas, demonstrando a fragilidade de uma nação que orgulhosamente se considerava invencível e soberana.
A história do filme Vôo 93 (United 93) é uma dramatização baseada em fatos reais que tenta adivinhar o que teria acontecido dentro do vôo 93 da decolagem do aeroporto Internacional de Newark até a queda em um local deserto da Pensilvânia que matou todos os passageiros e os terroristas a bordo. Os terroristas que o tomaram não conseguiram usá-lo contra um dos alvos porque o vôo saiu atrasado, quando estava no ar já circulavam as notícias dos outros dois aviões que tinham acertado o World Trade Center e o país todo se encontrava em estado de alerta.
É compreensível que Hollywood continue a produzir filmes dramatizados ou não, sobre o evento. A cultura americana possui essa característica do memorial, do inesquecível, do imperdoável. Vemos isso nos vários filmes sobre Pearl Harbor, sobre o holocausto da Segunda Guerra Mundial, sobre o Vietnã, sobre a Guerra do Golfo. A questão não é o memento em si, um elemento cultural presente em todas as civilizações. A questão é como esse memento é retratado. A estréia mundial de Vôo 93 no Festival de Tribeca e as variadas reações do público, que incluíram inúmeras manifestações de protesto, trazem um questionamento importante sobre como e por que histórias são contadas, especialmente no cinema, que consegue materializar a narrativa de tal forma que, passado o tempo, as imagens do filme permanecem mais reais e presentes na memória das pessoas do que os próprios fatos.
No filme Memento (Christopher Nolan, 2000) o personagem principal da trama está em busca do assassino de sua esposa. Ele tem um problema causado pelo trauma da perda: não consegue fixar a memória recente, suas lembranças terminam no momento do assassinato. Investigando o assassinato, o personagem escreve frases soltas em seu corpo, tira fotos polaroid de pessoas e coloca notações para guiar a si mesmo assim que sua memória recente for novamente perdida - o que irá acontecer, inevitavelmente. Durante o filme somos questionados sobre quem está manipulando quem, qual é a verdade escondida por trás da falta de memória, o que realmente teria acontecido no dia da morte da mulher. O memento é disfuncional, o personagem não consegue deixar o acontecimento no passado e seguir sua vida e também não consegue lembrar dos fatos para resolver o assassinato e apaziguar suas emoções.
O grande perigo dos mementos é esse: os fatos narrados não são exatamente a verdade mas uma interpretação emocional da realidade do ponto de vista do realizador. Um memento não pode ter pretensões documentais porque terminará deixando a audiência como o personagem do filme de Nolan, confusa, misturando suas emoções com os próprios fatos.
No filme “Eleven Minutes, Nine Seconds, One Image: September 11” (11′09”01, 2002) temos onze episódios de diretores de diferentes nacionalidades, narrando histórias que ocorreram na data de 11 de setembro em locais e culturas diferentes. Suas histórias narram eventos igualmente trágicos e dolorosos - alguns ficcionais - mas não apenas o episódio americano. O episódio americano, belo e emocionante, dirigido por Sean Penn não foca o ato terrorista diretamente: mostra um viúvo de idade que lamenta a perda da esposa, faz um memento diário sobre ela, colocando uma de suas roupas sobre a cama e, no instante em que as torres gêmeas desabam, tem uma epifania de redenção e superação. O filme foi considerado antiamericano por alguns porque mostra que o foco mundial não está voltado para os Estados Unidos da América e que existem tragédias em todos os lugares, algumas delas causadas pelos próprios americanos.
Não sei se irei assistir “Vôo 93″ justamente por causa do que li sobre as manifestações das pessoas em reação ao filme. Apesar de lamentar o ato terrorista do Onze de Setembro, como muitas outras pessoas de diferentes nações, não considero os Estados Unidos o foco do mundo. Como uma pessoa que trabalha com arte e cinema, tenho alergia a dramatizações que alteram os fatos em prol de uma narrativa cinematográfica mais bem amarrada, em prol de levar a platéia a uma reação emocional, num estilo mais hollywoodiano. Não gosto de filmes que ficam no meio-termo, que não são documentários mas também não adotam completamente a tarja de ficção. Fico com a impressão de uma tentativa de manipulação, de oportunismo, de falta de ética - o filme vai faturar muito às custas da desgraça. Eu me pego sempre imaginando o que aconteceria se um filme desses fosse colocado numa cápsula do tempo desenterrada daqui a mil anos e como as pessoas do futuro iriam interpretar o que estão assistindo. Será que acreditariam estar assistindo a um documentário do passado? É muito melhor assistir 11′09”01, um filme que deixa claro quando está sendo documental e quando está sendo ficcional, com um tratamento belíssimo e emocionante para todas as tragédias que retrata, um memento muito mais confiável e digno.
