Missão: impossível de assistir
Assistir um filme brasileiro continua sendo uma missão impossível
Ir ao cinema ainda é um programa gostoso para o final de semana, certo? Errado. Já faz alguns anos que ir ao cinema se transformou em uma maratona de dificuldades, um programa cultural caro e de logística complicada.
A maioria das salas de cinema se localizam atualmente em shoppings, onde você tem que ir de carro, estacionar, subir andares em meio à multidão, enfrentar filas para pagar salgados 18 reais o ingresso. Bons tempos das salas de cinema na rua, a maioria delas transformou-se em igrejas ou supermercados.
A segunda dificuldade é conseguir encontrar o filme que você quer assistir. Aqui em São Paulo, setenta salas estão exibindo Missão Impossível que está em cartaz em cento e vinte de um total de 1500 salas de cinema em todo o país.
A A Era do Gelo está em sessenta e nove salas, Selvagem (Disney) está em vinte e sete salas, Terapia do Amor, com Meryl Streep, está em vinte e cinco salas, 16 Quadras, com Bruce Willis, está em vinte e duas salas, o tailandês Espíritos, a Morte está ao seu lado está em dezessete salas, o filme de Al Pacino, Tudo por Dinheiro está em dezessete salas, Ultravioleta, filme de ação com Milla Jovovich, está em quinze salas, Resgate Abaixo de Zero (Disney também) está em quatorze salas, V de Vingança, que já estreou há umas duas semanas, em doze salas, o sanguinolento Albergue está em onze salas, O Plano Perfeito, de Spike Lee também em onze salas, Institnto Selvagem, com Sharon Stone, está em nove salas, a comédia romântica de Sarah Jessica Parker, Armações do Amor, está em sete salas, O Corte de Costa-Gravas está em quatro salas.
Se eu não quiser assistir filme infantil, comédia romântica, filme de ação ou filme de horror, estou sem muitas opções e todas as minhas opções estão em cinemas de arte e salas especiais de museus, em poucas sessões.
Eu quero muito ir assistir Árido Movie, filme brasileiro que tem conquistado crítica e prêmios. Só achei em duas salas. Achados e Perdidos, com Antonio Fagundes, está em quatro salas. Se Eu Fosse Você, está atualmente em uma sala, mas não vou contabilizá-lo aqui nessa conta porque esteve em cartaz em várias salas de cinema de shoppings, faturando a maior bilheteria do verão brasileiro, ganhando das Crônicas de Nárnia, exibido no mesmo período. Quem está atualmente nos shoppings é Irma Vap, O Retorno, em onze salas.
Boleiros 2, de Ugo Girgetti está em apenas uma sala, mesma situação dos também brasileiros Cinema, Aspirina e Urubus, Dia de Festa, Tapete Vermelho e Vinho de Rosas, todos em apenas uma única sala em um dos cinemas de arte de São Paulo.
Apenas as chamadas grandes produções do cinema brasileiro conseguem acesso à exibição em salas de cinema de Multiplex. O cinema independente brasileiro ainda fica restrito ao circuito das salas especiais de arte, cinematecas e museus.
Para que o cinema brasileiro realmente consiga se transformar em uma indústria sólida, é preciso que os filmes brasileiros sejam exibidos em mais salas. Se aqui em São Paulo os filmes ficam pouco tempo em cartaz em poucas salas, imagino que na maioria dos outros locais do Brasil as pessoas nem fiquem sabendo da existência desses filmes.
Eu quero assistir filmes no cinema, não quero ficar esperando serem lançados em DVD ou esperar alguma mostra especial. Eu quero ter mais opções de gêneros do que blockbusters. Eu quero ver mais filmes brasileiros. Eu quero poder escolher com calma o filme e o local, sem sobressalto, sem ter que ir ao cinema correndo porque o filme fica apenas uma semana em cartaz, em uma ou duas salas.
Eu quero mais salas de cinema.


