O homem perdido
Fui almoçar com alguns amigos na Vila Madalena. Estávamos voltando para o carro quando um homem nos abordou muito educadamente. Esse homem veio de uma cidade pequena na região nordeste, na esperança de ganhar algum dinheiro com seu trabalho, melhorar sua vida, trabalhar de pintor numa obra. Fez seu trabalho direito e na hora de receber, o chefe da obra não pagou ninguém, fugiu com o dinheiro de todos os empregados.
O homem só quer voltar para casa, perguntou se não teríamos algum trabalho para ele, para ele conseguir o dinheiro da passagem (170 reais). Está na rua. Disse que uma pessoa o acolheu, depois de 14 dias sem banho e sem comida, permitiu que tomasse banho no banheiro dos fundos da casa, deu-lhe de comer e guardou as coisas dele. O homem tinha lágrimas nos olhos. Eu acreditei nele, não me pareceu uma história inventada. Se eu tivesse o dinheiro necessário para mandá-lo de volta para casa, daria para ele naquele momento. Um dos meus amigos ofereceu algum dinheiro, ele recusou. Ele não queria dinheiro, queria um trabalho, repetiu isso várias vezes. Já tinha perguntado em todos os lugares ali próximos, mas ninguém tinha nada para ele. Ele mostrou os documentos, para comprovar que é um homem honesto, que apenas quer um trabalho para poder voltar para casa.
Fomos embora, porque não tínhamos mais o que fazer pelo homem. O homem ficou por ali, andando pela rua. E eu, com uma sensação imensa de impotência, com um nó horrível na garganta, imaginando o que vai ser daquele ser humano - poderia ser qualquer um de nós na mesma situação.
Enquanto isso, mais pessoas virão à São Paulo na esperança de conseguir trabalho, porque ainda existe a ilusão de que isso aqui é uma cidade com oportunidades. Enquanto isso, muitas outras pessoas estão desempregadas, sem dinheiro. Enquanto isso, políticos confundem, inventam histórias e se acusam mutuamente, tentando explicar o mensalão.
Que expliquem àquele homem sem dinheiro, sozinho numa cidade estranha, roubado pelo empregador, sem ter o que comer e desejando apenas voltar para casa.

August 1st, 2005 em 9:00 am
Outro dia li em algum lugar que os verdadeiros crimes não são punidos pela justiça. Que nem sequer são considerados como tal. Confesso que não compreendi direito o que se queria dizer com aquilo.
Hoje quando li seu comentário; caiu a ficha.
É isso.
Nós, por aqui, não temos ainda uma verdadeira consciência social, a não ser em alguns casos isolados. Como o seu e de seus companheios de jornada.
Ainda somos uma sociedade mais ou menos selvagem ou atomizada e perdemos terreno para aqueles que julgam que o problema do seu semelhante é seu problema também.
Diria que essa consciência é inversamente proporcional à quantidade de dar de ombros que encontramos.
Tive algumas experiências como a sua e sempre que compreendi que era uma verdade procurei ajudar. Mas é impossível, aparentemente, resolver de vez a questão isoladamente. Lastimável, e poderia ser qualquer um de nós nessa situação.
August 2nd, 2005 em 10:54 am
Dói, né? A gente não poder fazer nada e um monte de sacanas enchendo seus bolsos!