Admirável mundo novo?
Essa semana eu passei por dois episódios envolvendo intolerância. O primeiro deles começou no Orkut.
No dia seguinte aos eventos que aconteceram em São Paulo, o primeiro email que abri era um email de campanha política que distorcia totalmente os fatos, citando notícias erradas, mal citadas, que misturavam “demônios” políticos e lendas com antigos fatos de jornal. Mandei um email pelo Orkut sem citar o texto, mas tendo-o em mente, dizendo que não era hora de fazer campanha, era momento de cobrar os políticos que estão na atual administração do país. Na seqüência recebi um email rememorando algumas notícias recentes que sei que são verdadeiras, porque vi em mais de uma publicação, novamente denúncias de mau uso de dinheiro público.
Estamos no meio de uma CPI que parece caminhar diretamente para as pizzas finais. Infelizmente para o país. Não é um momento de pizza, ainda mais com a recente manifestação de poder e violência que aconteceu em São Paulo.
Tomei a liberdade, então, de fazer uma coisa que raras vezes faço: repassei o email recebido porque me pareceu apropriado.
Um dos contatos do Orkut, uma pessoa que conheci online, rebateu meu email. Sua primeira resposta já veio naquele tom que algumas pessoas gostam de adotar quando discutem política, um tom fanático de “não fale mal do meu político”, um tom que eu entendo que seja aplicado ao futebol mas não compreendo quando aplicado em política.
Respondi que não estava com vontade de passar dias trocando emails defendendo nem atacando ninguém, que apenas repassei informação - com devida fonte citada. A pessoa tentou “re-argumentar” dizendo que a minha posição política também tinha “defeitos” - que argumento é esse? - e comparou o partido político no qual eu voto com Mussolini, Hitler e outros de igual quilate. Isso é argumento? A pessoa ainda mandou uma montanha de dados e denúncias sobre corrupção de políticos sem fontes citadas - eu que me virasse procurando se as notícias eram reais ou não.
Não compreendo esse tipo de “argumento” nem a atitude. Eu voto em um partido político - isso é errado? Eu acredito na proposta de um PARTIDO POLÍTICO e não em PESSOAS isoladas - isso é errado? Todos os partidos tem bons e maus políticos, não existe partido político só com boas pessoas. Está aí a CPI para comprovar essa verdade. Gente boa e ruim existe em todo lugar.
A pessoa do meu contato não estava com vontade de debater política de forma racional e adulta. Queria apenas “ganhar a discussão” e começou a apelar para argumentos emocionais e ofensivos, o tempo todo me chamando de “minha amiga querida”, me paternalizando - uma das piores coisas que alguém pode fazer comigo.
Perdeu “a amiga querida”, claro.
Violência é violência. Violência verbal também é violência. Não existe violência “mais ou menos” violenta. Somos seres racionais. Não consigo entender quem possa ser passivo ou conivente com qualquer tipo de violência - e não consigo entender discussões do tipo “ganhar” ou “perder”. Crianças de cinco anos de idade fazem discussões do tipo “ganhar” ou “perder”, mas elas tem cinco anos de idade.
O segundo caso de intolerância da semana veio acompanhada de uma amostra de caráter duvidoso.
Um colunista de uma revista, num tom emotivo, apelou na semana passada para seus leitores. Disse que tinha uma “rodrigueana história pra contar” com uma “questão ética do tamanho da Grécia Antiga”; contou que ele teria supostamente descoberto que o filho de um amigo não era do rapaz, dizia que tal situação o inconformava, que queria contar para o rapaz sua descoberta. Pediu conselhos dos leitores. Os leitores deram sua opinião na maior boa-vontade, inocentemente, inclusive eu. Alguns disseram para ele contar, outros disseram que não contasse.
O meu comentário, LITERALMENTE, foi:
“Esse é o atual problema moderno. Já existe teste de paternidade mas as pessoas ainda têm vergonha e restrições morais de usar. Recentemente um amigo meu foi pêgo na mesma situação. Já na saída deixou claro: queria o teste de paternidade antes de assumir. A moça surtou, claro. Mas aí é que está a grande questão: se o filho é do cara, pra que surtar? Eu não surtaria. Eu encararia o teste, a mulher sempre sabe quem é o pai verdadeiro. Não me consideraria ofendida pela pergunta, não me sentiria ‘atacada na minha moral’. Eu preferiria garantir a paz e o sossego do pai da criança e da criança. Quanto ao seu dilema eu acho que você não deve chegar falando ’sabia que o filho não é teu?’ porque isso faria com que o pobre rapaz descarregasse toda a frustração e raiva acumulada no primeiro que etivesse na frente dele - que vai ser você. Shoot the messenger, é um antigo hábito medieval que não morreu. Tenha uma conversa madura com o rapaz. Seja franco. Questione se o pai é ele mesmo e aconselhe a fazer o teste de DNA. Afinal e se ele for mesmo o pai? Só a mulher sabe, o resto são sempre apenas fofocas.”
Essa semana, esse “colunista” veio com o seguinte comentário na “coluna” dele:
“Ademais, voltando ao assunto, tiro duas lições:
I) A ignorância quase sempre é uma benção, pois o não saber propõe um estado de calma, de serenidade, não nos preocupamos, não nos flagelamos por uma resposta ou por uma solução. Afinal, de nada sabemos.
II) As mulheres sempre querem ver o circo pegar fogo. Não adianta. Mulheres não são bonapartistas e fim de papo. De todos os comentários à última coluna, nenhuma das mulheres disse para que eu ficasse quieto a fim de preserva o matrimônio dos dois em detrimento dos chifres do rapaz. Todas queriam ver o circo arder em chamas. Em suma, mulheres são péssimas conselheiras matrimoniais. Diria mais: hoje, as mulheres instauraram o Código de Hamurabi no cerne matrimonial: ‘olho por olho, dente por dente’ ou melhor, ‘chifre por chifre’. Não há mais concerto em matrimonio para a mulher. Tudo o que ela tem que fazer é colocar a plaquetinha de ‘disponível’ e pronto. Mulheres, crianças e pensão alimentícia na frente, o resto que espere. É o anti-matrimônio, em tempo de globalização, puro e simplesmente.”
Eu me senti enganada pelo “colunista”. Nenhum dos comentários postados pelas leitoras dizia nada disso. O que as pessoas disseram é que se ele estava inconformado e queria conversar com o amigo, que fizesse isso com jeito. Alguns até, foram da turma do “deixa pra lá”. O colunista usou sua audiência, enganou-a e depois usou os comentários dos leitores para criticar e ridicularizar os próprios leitores - mas apenas as mulheres.
Falei com o editor da publicação, ele não compreende a minha indignação. Não viu nada de mal. Disse que a coluna tem humor. Eu penso que isso não é humor, é mau-caratismo. Além de ter usado os leitores, esse sujeito está alimentando conceitos machistas. É errado.
Agora vocês me digam: eu estou sensível demais? Eu tenho ética demais? Eu estou no mundo errado? Porque eu acho que comparar um político eleito com Hitler ou Mussolini é errado. Porque eu acho que usar fatos distorcidos para difamar pessoas, ainda que nenhum político seja impecável, é errado. Porque eu acho que agredir pessoas em emails falando sobre política é errado. Porque eu penso que falar mal das leitoras mulheres porque disseram o que pensavam a pedido do colunista é errado.
Tem algo errado comigo ou com as pessoas?
Opiniões são bem vindas.
Update: Um querido amigo me telefonou agora há pouco. Disse que leu esse chá aqui, entendeu a minha indignação e me deu a opinião dele: que eu pare de ler a referida publicação e não poste comentário nenhum na mesma. Na opinião dele, ter meu nome em qualquer página da referida publicação onde esse sujeito machista escreve é dar a minha boa luz a quem não merece. Eu disse a ele que isso eu já fiz. Mas ainda assim, fico incorfomada que existam pessoas não vejam nada de errado na atitude do tal colunista.

May 25th, 2006 em 1:21 am
Dani
Política eu não discuto. Não gosto, não procuro gostar… É, sou uma alienada assumida, mas a segunda questão levantada por você no post foi algo que me “cutucou”. Jamais tive uma postura feminista e apesar de meus textos, quando ficção, serem povoados de mulheres que lutam, batalham, se vingam, procuro nunca dar a impressão de “queima de sutiã”. “Trabalho” assim pois é o universo que conheço, sei o que as mulheres passam, sentem, seus medos.
Agora, colocar uma “plaqueta de disponível”, foi o cúmulo da ignorância. Não é nem machismo, é burrice mesmo!
Sou mãe solteira, assumida, briguei 6 longos anos (com direito a 2 (DOIS) testes de DNA) num tribunal com um “pateta” igual ao que escreveu e se precisasse, faria tudo de novo!
Vergonha não é ser mãe solteira, separada, divorciada. Vergonha é não SER mãe. Vergonha é não SER pai! Vergonha é não assumir as consequências de seus atos e achar que o outro lado que se “dane”!!!
Faça isso mesmo. Não se rebaixe, porque ficar na sarjeta junto com “esse” indivíduo não deve ser nada bom!!!
(desculpe o desabafo, mas esses comentários me irritam profundamente!)
Beijos.
May 25th, 2006 em 3:42 am
Ah, DAni, ainda bem que paraste de ler o Primeira Leitura. Não estava te fazendo bem, heheh

beijo!
May 25th, 2006 em 11:44 am
Pois é. Eu postei dois comentários na chamada “coluna” do cara.
Eis o primeiro:
“Deixa ver se eu entendi… na outra semana você queria destruir o relacionamento do seu amigo porque a mulher dele era mau-caráter… agora são as leitoras que comentaram e deram conselhos e sugestões (que você pediu, veja bem) que não prestam? Você está onde mesmo, na Idade da Pedra? Tem certeza que gosta de mulher? Me parece um daqueles homens que não crescem e passam a vida toda choramingando que tudo que dá errado é culpa de alguma mulher: a mãe, a namorada, a esposa dos amigos e as leitoras. Cresça.”
O segundo foi esse:
“Se quiser ver o que outras pessoas pensam da sua coluna, venha tomar um chazinho comigo: http://www.havesometea.net/MadTeaParty/ Já temos dois comentários: a blogueira Sandra, que é mãe solteira expressou sua indignação e o Flávio (Ratapulgo), jornalista e editor do famoso blog Copy & Paste, comparou a publicação com o Primeira Leitura, por ter uma coluna como a sua. Machismo é machismo, ofensa é ofensa, abuso é abuso, não existe justificativa para nenhum deles.”
Vamos ver o que acontece. Eu pretendo lutar essa luta.
May 25th, 2006 em 6:52 pm
Sem a dúvida de que não cometerei uma injustiça com o colunista da segunda intolerância que a DaniCast traz aqui aos leitores, por não ouvir diretamente suas razões, pois ficou claro pra mim, pelas declarações manifestadas pelo próprio colunista, das dificuldades pessoais de relacionamento a que ele está submetido. Sua misoginia extrema perpassa suas supostas conclusões, quando verdadeiramente não são fruto de exercício meditativo.
O pobre rapaz engendra um falsete de ponderação e conclusão imparcial, quando adscreve “Ademais, voltando ao assunto, tiro duas lições:” Quer impingir ao público, com as suas supostas conclusões, que manifesta ponderações bastante meditadas, quando desnuda, isso sim, sua relação de insegurança com o sexo feminino. Expõe antes sua insuficiência, seu complexo crônico. É de uma pobreza sofrível e constrangedor seus supostos argumentos: “Afinal, de nada sabemos.” É dizer nada com coisa nenhuma, infelizmente!
Vejo um caminho bastante longo, se isso é possível, para o rapaz ser verdadeiramente um colunista de personalidade e idéias próprias.
May 26th, 2006 em 8:46 pm
Este post oferece bastante ensejo para várias reflexões. Uma passagem me marca esta reflexão:
“Agora vocês me digam: eu estou sensível demais? Eu tenho ética demais? Eu estou no mundo errado?”
Eu tive a experiência de trabalhar numa repartição pública e lidei um tempo com atendimento direto ao público. Algumas vezes fui surpreendido por receber mimos do público em agradecimento por um pouco de sensibilidade no trato. Confesso que isso me alegrava, não por receber um agrado ou distinção feita, mas porque então conhecia pessoas com algo mais dentro de si, que também estão enfastiadas com as parentelas, colegas e multidão ao lado vazias, cínicas e hipócritas.
Diga-se, sem a presença e crescimento da compaixão no ser humano, ele na verdade nada é, nada pra si mesmo, pois só o amor é que produz a liberdade em nós mesmos, e um sentido de ter um EU em mim mesmo, a fonte dp prazer vivencial.
Hoje, muito ainda, o mundo se emburrece cotidianamente no vazio cínico, no inferno conceitual de humanidade-tijolo, sem alma e destino. Uma humanidade-calçada, onde se pisa um ao outro. E é essa humanidade-piso, cínica e vazia que vi entranhar também nas almas caras para minha parentela, que na adolêscência se proclamavam: “nós somos normais”. Sim, hoje compreendo que aquele protesto de “somos normais”, “somos iguais a todas as pessoas e vc é um patinho feio” não eram nada mais que manifestações de impotência, de falta de vigor, de falta de um EU.
Os cínicos são cínicos porque não tem um EU neles mesmos, estão sempre fatigados em construir uma imagem, uma casca, eles mesmos se sabem embalagem sem conteúdo. O oco é buraco-negro que não deixa nenhuma réstia de luz se espargir. E como são barulhentas essas almas, como temem alguém com presença de um EU nele mesmo, como são contas de um colar de fofocas, de cesto de bajulações. Preferem ser folhas secas, soltas, para o humo, jamais assumindo a prazeirosa tarefa do fruto, onde concorrem as partes mais delicadas e especiais do frutígero, no depósito da geração da vida e sua perpetuação.
É engraçado quando essas almas cegas, vazias de um EU, por constituírem uma multidão, uma massa sempre numerosa, quererem proclamar o que é padrão saudável e equilibrado de um ser humano. Não passa senão de mais um protótipo hipócrita para acariciar seus egos medíocres.
Pela ausência de um EU afirmativo, então não deve haver ética e tudo o mais relacionado, porque ética pressupõe presença de um EU, um EU que transcende, dá vigor e prazer à alma.
May 26th, 2006 em 11:45 pm
Concordo totalmente contigo.
abraço
May 29th, 2006 em 4:40 am
Pois é, vivendo e aprendendo.
Imagino que você tenha, por um tempo, confiado e dado algum crédito ao pessoal da tal publicação. Acontece, decepções acontecem o tempo todo.
Embora eu entenda que você tenha toda a razão pra se estressar, não se estresse por quem não merece, ok?
Gaste suas pérolas de sabedoria com quem sabe aprecia-las.
Bjo. E se cuida, tá?