Estrela Solitária: o título é terrível mas o filme é um Wim Wenders
Parece que só Cannes e eu gostamos do novo filme de Wim Wenders, pelo menos foi essa a minha impressão diante do grande volume de críticas negativas que eu li.
Eu posso entender por que no Brasil deram ao novo filme de Wim Wenders o nome de Estrela Solitária, a referência remete à expressão Lone Star, muito usada nos Estados Unidos para designar o cowboy, o ranger, o herói solitário em sua jornada contra malfeitores pelo velho oeste norte-americano. Infelizmente o nome é uma escolha ruim de doer para o filme de Wenders.
A confusão começou no Brasil quando o personagem de um famoso programa de rádio americano, chamado O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger) foi chamado de Zorro por aqui, apesar de obviamente não ser o mesmo personagem. É por isso que muita gente acredita que Zorro tem um amigo índio chamado Tonto ou um cavalo chamado Silver mas os dois pertencem ao ranger John Reid, o Cavaleiro Solitário. A distribuidora deve ter pensado que chamar o filme de Wenders de Estrela Solitária poderia evocar os velhos filmes de cowboy - mas só se for para quem já tem mais de sessenta anos, as novas gerações não conhecem a referência. Para completar a confusão, Estrela Solitária é o subtítulo do filme brasileiro sobre Garrincha.
Problemas com o título à parte, Don’t Come Knocking (literalmente, não chegue batendo, numa alusão à personalidade do protagonista e a forma como ele sai abordando as pessoas) de Wim Wenders é um filme magnífico. Faz parte daquela coleção que normalmente eu chamo de filmes que deveriam ser indicados para QI mínimo de 120: não é para a platéia normal, que vai odiar o filme, achar lento, chato, arrastado e não vai entender nada. O filme requer contemplação (as imagens são belíssimas), requer atenção (a trama é complexa), requer reflexão (a cada cena uma questão existencialista espinhosa é proposta).
Sam Shepard, que escreveu o roteiro, interpreta Howard, um ator decadente de filmes de faroeste. O filme começa no set de filmagens de mais um faroeste que Howard estava fazendo, de onde ele fugiu. Tim Roth vai sair atrás de Howard por metade do país, com seu jeitão sou um agente da Matrix discreto, para levar o ator de volta ao set e fazê-lo cumprir seu contrato. Howard decidiu abandonar a filmagem devido a uma crise pessoal, viaja até sua cidade de origem onde sua mãe irá lhe contar que ele tem um filho.
O filme propõe uma reflexão sobre a decadência: a decadência dos antigos modelos americanos de herói, a decadência do ator de filmes de velho oeste, a decadência do cinema americano, a decadência da própria cultura americana como um todo. Na cidade da mãe, Howard vai até um cassino e termina preso pela polícia: um dos policiais o chama de cowboy de forma sarcástica.
O filme também faz contraponto entre realidade e ficção: a mãe de Howard acredita em tudo que lê sobre o filho nas revistas de fofoca de cinema, Howard se confunde com seu eterno personagem de cowboy, a mística e o dinheiro de Hollywood são questionados o tempo todo. As personagens de Jessica Lange e Sarah Polley dialogam sobre o contraste entre o universo do cinema com a realidade: Jessica diz que um dia vieram fazer um filme na cidade mas depois que todos foram embora, a cidade voltou ao que era antes, nada mudou; Sarah diz que adoraria poder viver em um filme porque nos filmes tudo é sempre mais bonito.
O principal foco de Don’t Come Knocking, entretanto, são os relacionamentos humanos, especialmente os familiares. Wim Wenders é um eterno apaixonado pelo ser humano e sua relação com o mundo - e com outros seres humanos. Há confrontos de todos os lados, mostrando uma incapacidade generalizada dos personagens de se relacionarem entre si: Howard é tratado pela mãe como se fosse criança, Howard não se casou, seu filho recém-descoberto não o aceita. A chamada família disfuncional que era considerada uma exceção dentro do universo perfeito do american way of life transformou-se em regra; raro hoje é encontrar a típica família americana.
Eu confesso que não sou uma grande fã de Wenders, ainda prefiro o amigo dele Jim Jarmusch, mas ainda assim, vale a pena assistir Don’t Come Knocking, é um excelente filme que merece ser visto mais de uma vez.
Links:
Site Oficial do Filme
O Cavaleiro Solitário que não era o Zorro
