Tuesday, January 6, 2009

Inteligência e manutenção da ignorância

Ontem eu fui assistir a um espetáculo solo do Antonio Abujamra. Foi gostoso, especialmente porque fui falar com ele depois do espetáculo e tivemos uma conversa deliciosa. O Abu foi um dos grandes amigos do meu pai. É bom conversar com os antigos amigos de meu pai, sempre escuto histórias adoráveis e sempre sou recebida como se eu fosse parte da família.

As pessoas têm uma memória adorável do meu pai. Isso me faz um grande bem.

O texto do espetáculo do Abu me deixou pensativa. O Abu repetiu várias vezes: “Eu não sou um provocador, eu gosto de ser provocado”, num fino tom de ironia. Eu amo pessoas inteligentes.

No sábado eu fui dar uma palestra em Limeira. Uma das consequências da palestra foi uma série de emails de uma pessoa que assistiu e não se conformava com as minhas posições em relação ao universo do cinema brasileiro. O rapaz me chamou de chata e detestou tudo que eu falei. Eu respondi com educação - como sempre faço. Por trás de uma irritação existe algo que foi tocado - e esse toque é meu objetivo quando dou palestras. O rapaz confessou que preferia ouvir a mesma coleção de clichés e frases de efeito de sempre: que fazer cinema é muito difícil, como é bonitinho e digno de valor o sujeito analfabeto que faz cinema com resto de filme catado no lixo, como é importante usar o cinema para “fazer denúncia da miséria brasileira”, etc, etc.

Bom, nunca vai escutar isso de mim. Não é o que eu acredito. Não é o que eu incentivo, nunca vai ser. Eu não concordo e não acredito nos clichés. Os clichés são a mautenção da situação. Ninguém jamais vai me convencer que é lindo fazer a manutenção da miséria e da ignorância. Tem gente distorcendo o conceito de “diversidade cultural”. “Diversidade cultural” definitivamente não é fazer manutenção de analfabetos e miseráveis e chamar isso de “parte da diversidade”. Tem um componente maligno nesse discurso que para mim é transparente.

Se denúncia da miséria no cinema funcionasse, não teríamos mais miséria no Brasil há mais de 30 anos, porque desde a década de 60 se faz “denúncia” da miséria no cinema. A mim parece que esse tipo de “tática” não está funcionando, é pura demagogia. Um monte de gente pega dinheiro através de leis de incentivo para fazer cinema sobre miseráveis. Os miseráveis continuam miseráveis e os que pegaram a grana vão de jatinho comer caviar.

Vocês não acham que tem alguma coisa errada nessa sistemática?

Eu acredito em cada vez mais crescer a indústria real de cinema. As TVs tem milhões de problemas, sim, mas elas geram empregos e alimentam a indústria. Não é eliminando a concorrência que se vai construir alguma indústria, o Brasil já devia ter aprendido isso. O que precisamos sempre é de mais empresas, mais gente trabalhando, não de mais peneira, não de alimentar o mito de que cinema ou tv é coisa pra privilegiados. Quando mais gente filmar PROFISSIONALMENTE, melhor. Quanto mais produtoras, mais emissoras e mais salas de cinema, MELHOR. É na quantidade que se atinge a qualidade. Eu já defendi esse tipo de idéia mais de uma vez.

Pode parecer ideológicamente lindo elogiar um sujeito “esforçado” que “apesar das dificuldades” consegue fazer um filme com resto de película, leva doze anos mas consegue. Só que tem um dado errado e maligno nessa equação: o tal sujeito não melhora de condição de vida, não se profissionaliza, continua sendo um caso isolado que será citado em discursos políticos e só. A equação correta, a meu ver, seria oferecer ao tal sujeito e a todas as pessoas que queiram realmente trabalhar em cinema mais condições de aprender profissionalmente como se faz cinema e de trabalhar profissionalmente, remunerado, em uma indústria produtiva.

O argumento de que cada vez que uma Xuxa, um Didi ou uma Sandy & Junior fazem um filme comercial alguém deixa de fazer um filme de arte me parece muito estranho. Se queremos uma indústria e se realmente respeitamos a diversidade, porque essa indústria deveria excluir projetos comerciais? Porque essa diversidade exclui as Xuxas ou qualquer outro produto de massas? A meu ver, esses projetos comerciais geram empregos e renda, tem sua função dentro da indústria.

Eu sou contra a prepotência social, econômica e cultural. Excluir os projetos comerciais rotulando-os de “lixo cultural” me parece tão ruim quanto excluir filmes de arte. A indústria, para funcionar, precisa de ambos.

A mim parece que atualmente o problema do cinema está em outro lugar: na falta de núcleos de produção e na falta de salas de exibição e canais de distribuição. Dinheiro e interesse existem, um núcleo de produção de cinema está sendo montado em Paulínia e acredito que mais núcleos vão surgir.

Voltando à noite de ontem, não sei o que o Abu pensaria das minhas digressões, mas teve dois momentos muito interessante que ele me pegou de jeito. O primeiro foi quando ele contava de uma aula que ele deu na USP onde ele começou dizendo “Devemos sempre retornar aos clássicos. Alguém aqui leu Eurípides?” - e ninguém respondeu, tanto na aula que ele deu na USP quanto ontem no teatro.

Eu confesso que morri de vontade de levantar a mão e responder: “Sim, eu já li Eurípedes. Eu li Medéia, Electra e Orestes. Eu também li Édipo Rei de Sófocles. E li Os Lusíadas, de Camões, tudo isso no colégio, antes dos dezesseis anos de idade”. Mas eu fiquei quieta. Eu já ia chamar atenção suficiente indo falar com ele no camarim. Eu odeio chamar atenção, eu só apareço porque me é estritamente necessário, devido ao meu trabalho. Para quem não me conhece como pessoa pode parecer bizarro, mas eu sou muito, muito low profile. Eu odeio me expor.

E eu sei o que as pessoas pensam de quem leu Eurípides antes do dezesseis anos: que são Nerds. CDFs. O brasileiro detesta quem tem cultura, porque esse é o país dos “achismos“, esse é o país da valorização da ignorância e da miséria. Ter cultura é um crime, o negócio é carnaval, futebol e analfabetismo.

O mais curioso é que essa mentalidade está ultrapassada. Só persiste no imaginário. Eu vi o Ronaldinho Gaúcho dando entrevistas em francês, espanhol e inglês durante a copa. O mito do jogador de futebol analfabeto e desnutrido de perninhas tortas morreu faz tempo. Mas existe a manutenção da idéia, afinal, é preciso fazer a manutenção da miséria. O miserável precisa se conformar em continuar miserável, caso contrário, como é que os corruptos e ladrões de gravata vão continuar existindo? A manutenção da miséria é também a manutenção da injustiça social… e dos que levam vantagem com isso.

Eu não assisti à copa, não porque odeie futebol, mas porque simplesmente não gosto de esportes. Nunca gostei. Meu negócio desde pequena era teatro, ballet e ópera. Que me desculpem, mas eu fui mal acostumada. Meu pai me levava a espetáculos desde que eu era bem pequenina, eu frequentei o teatro de Arena com menos de seis anos de idade. Nunca esqueço quando fui assistir a Flauta Mágica de Mozart no teatro municipal, encenada pelo Giramundo.

Eu não devia ser exceção. Eu não devia ser elite. A educação que eu recebi - grande parte dela em escola pública - deveria ser a regra.

Mas, a manutenção da ignorância. Eurípedes e Sófocles não é mais lido nas escolas. Ópera é coisa de pedante cultural. Pobre Mozart, que escrevia ópera para o povo. O povo não vê mais ópera, só assiste futebol, carnaval e novela.

O segundo momento que o Abu me pegou foi quando conversamos. Ele virou para mim e fez um comentário para o qual eu não tive resposta: “Vocês cineastas são uma espécie complicada. Levam anos e anos para fazer apenas um filme.” Pois é, Abu, tem alguma coisa muito errada nisso, eu sei. Precisamos combater isso. Estou fazendo a minha parte.

Eu compreendo as pessoas. Compreendo o email do rapaz que me achou uma chata. Pensar cansa mesmo. Debater idéias com pessoas que gostam de pensar, cansa mais ainda. Argumentar cansa. Eu tenho encontrado muitas pessoas que detestam pensar e detestam debater idéias. É muito mais fácil ser medíocre, despende menos energia. Eu entendo isso. A preguiça é maior que o sonho, já dizia uma tia minha.

Ontem, como bônus, fiz três novos amigos. Depois do espetáculo ofereceram um coquetel com vinho chileno e petiscos. Nós nos divertimos. Três pessoas adoráveis que eu espero ver novamente logo. Continuo adorando gente.

Ah, sim, e para quem está stand by de notícias, saiu finalmente o contrato de aluguel do apartamento onde eu vou morar. Aguardem novidades.

Beba o chá e fale alguma coisa: