Wednesday, August 20, 2008

Vanilla Sky e o anseio do final do século XX

Vanilla Sky (2001)
“What is any life without the pursuit of a dream?”
“It’s been a brilliant journey of self-awakening. And now you’ve simply got to ask yourself this: What is happiness to you?”
“Open your eyes.”

Direção de Cameron Crowe
Elenco:
Tom Cruise …. David Aames (o herói)
Penélope Cruz …. Sofia Serrano (a mulher misteriosa)
Cameron Diaz …. Julianna ‘Julie’ Gianni (a amiga passional)
Jason Lee …. Brian Shelby (o melhor amigo)
Cameron Crowe dirigiu o romântico “Say Anything…” (1989), o delicioso “Singles” (1992), o cult “Almost Famous” (2000) e “Vanilla Sky” (2001)

Abre los ojos (1997)
“Open your eyes.”

Direção de Alejandro Amenábar
Elenco:
Cast overview, first billed only:
Eduardo Noriega …. César (o herói)
Penélope Cruz …. Sofía (a mulher misteriosa)
Fele Martínez …. Pelayo (o melhor amigo)
Najwa Nimri …. Nuria (a amiga passional)

Alejandro Amenábar dirigiu três longa-metragens: Abre los ojos (1997), The Others (2001) (”Os outros”, suspense produzido por Tom Cruise e estrelado por Nicole Kidman) e o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro Mar Adentro (2004) .

O que é que “Abre los ojos” e “Vanilla Sky” têm em comum?
- “Vanilla Sky” é a refilmagem hollywoodiana de “Abre los ojos”
- As duas versões contam com Penélope Cruz no elenco, intrepretando a mesma personagem.

O que é que Abre los ojos e Vanilla Sky têm de diferente?
- O estilo, o ritmo, as referências, a cultura que gerou cada um dos filmes
- O orçamento.

Todas as culturas referenciam outras épocas e outra culturas. É inevitável. Faz parte do repertório acumulativo que vamos construindo como indivíduos e como sociedades. Sempre foi assim, não é nenhuma novidade - embora muitas pessoas misturem o que é “referenciar” como que é “plagiar”, mas isso é um assunto extenso que ficará para outra oportunidade. Em Hollywood esse hábito está tão incorporado à cultura de cinema que consta no IMDB uma categoria especialmente feita para linkar filmes em filmes.

Eu gosto muito de Abre los ojos. Tive a sorte de assisti-lo antes de Vanilla Sky, meio por acidente (passou no Cinemax). O filme é lento sem ser maçante, intrigante, misterioso. Infelizmente, o final me deixou frustrada porque eu esperava algo melhor. Quando assistido na era pós-Dark City (1998), pós-Matrix (1999), pós Décimo Terceiro Andar (1999), deixa um sabor de prato requentado. A culpa não é do filme, Abre los ojos é anterior a todos esses filmes que eu citei. Se tem um filme que pode ser citado como o precursor da discussão virtualidade versus realidade, é Abre los ojos.

A linha narrativa de Abre los ojos bebe na fonte dos cineastas expressionistas e de suspense. Na lista de “links com outros filmes” do IMDB encontramos O Gabinete do Dr Caligari (1920) (o personagem principal se chama “César” numa alusão ao hipnotizado de Caligari), Vertigo (1958) (César tem medo de altura), O Homem Elefante (1980) (a deformação física de César após o acidente), Total Recall (1990) (filme baseado em uma novela de Philip K. Dick, questionando a realidade virtual e a realidade real), Jacob’s Ladder (1990) (pequena obra-prima de Adrian Lyne que questiona onde termina a realidade e começa o sonho através do trauma de guerra de um veterano do Vietnã), Os 12 Macacos (1995) (outra pequena obra-prima, do inglês Terri Gilliam, recheado de viagens no tempo e pragas apocalípticas) e a Estrada Perdida (1997), de David Lynch.

Os links de Vanilla Sky com outros filmes ainda traz alguns adicionais, bem interessantes: O Fantasma da Ópera (1925) (uma das coisas angustiantes na versão espanhola é a máscara usada por César, que se torna mais trágica mas mais leve na versão hollywood), Cidadão Kane (1941) (David, o personagem principal, é um jovem rei de uma indústria de comunicações e aparece em uma das cenas com uma prancha de surf que ele pintou quando criança), Jules & Jim (1962), de Truffaut, citado até com um poster e uma seqüência em flashback), Persona (1966) de Bergman (onde uma enfermeira funde sua personalidade com sua paciente de forma esquizofrênica), O Ano Passado em Marienbad (1961) de Alain Resnais (por causa das idas e vindas da história e do ploth de mistério em torno de um personagem em busca da mulher amada). Eu pararia por aqui, embora o IMDB me dê muito mais filmes nessa lista.

A narrativa de Vanilla Sky é muito mais “digerível” que a de Abre los ojos. É inevitável, pois Vanilla Sky é uma produção made in Hollywood. E Hollywood não admite que o espectador saida da sala de cinema com interrogações. Hollywood exige que a trama seja explicada e que não restem “finais em aberto”.

Estamos muito mais acostumados com a cultura cinematográfica hollywoodiana que a européia, especialmente quando se trata do cinema espanhol. Hollywood se impôs com muito mais força - comercial - em nossas salas de cinema e em nossa TV. A globalização, entretanto, e os próprios acordos comerciais estão trazendo um pouco mais do cinema espanhol até nós - um amigo meu me contou que assistiu Abre los ojos no SBT. É surpreendente. É o lado positivo da ida de grandes diretores europeus para Hollywood.

Apesar disso tudo, lendo os comentários dos usuários do IMDB fiz uma descoberta interessante: em geral as pessoas gostam mais do original espanhol do que da versão americana.

Pessoalmente, eu gosto dos dois. São dois filmes que contam a mesma história de modos diferentes, fica complicado compará-los. Percebe-se que Cameron Crowe refez Abre los ojos plano a plano, observando os detalhes do filme original e deixando o final mais “didático” - mais palatável às platéias americanas.

Vanilla Sky também é mais espetacular do que Abre los ojos, exatamente porque tem mais orçamento. A trilha sonora é um capricho à parte e já vale o filme (traz Radiohead, Paul McCartney, R.E.M., John Coltrane, Peter Gabriel, Sigur Rós, Chemical Brothers, Sinéad O’Connor, Bob Dylan, U2, Rolling Stones, Beach Boys). A fotografia é caprichada, os efeitos especiais são de primeira linha. Hollywood money.

Vale a pena assistir os dois, de preferência, vendo o original espanhol primeiro e depois a refilmagem hollywoodiana.

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