Tuesday, January 6, 2009

Pequenas mudanças e um pouco de chá

Eu estava um pouco enjoada do layout - mudei umas imagens - e adicionei novas quotations na base de dados. As mudanças no layout deixaram o chá um pouco mais dark, eu sei. Bom, depois do layout caramelo, do chocolate, das janelas surrealistas e meses e meses do layout branco, achei que uma variação ia bem.

As quotations - vocês lêem? vocês ao menos perceberam que elas existem há algum tempo já? - receberam a adição de alguns iluminares (essa palavra existe sim, eu verifiquei) da sabedoria e pessoas de humor ácido (meu tipo favorito de humor). Alguns exemplos são Terry Pratchet (se não leu Discworld, leia), Neil Gaiman (fiquei surpresa ao constatar que nem o versinho bonitinho de “A Game of You” eu tinha colocado ainda), trechos de Alice de Lewis Carrol (fiquei ainda mais surpresa ao verificar que não tinhamos NADA dele por aqui! Como assim? COMO ASSIM?) e frases de… Marilyn Manson.

Aqui cabe uma pausa e alguns pensamentos. Apesar de eu escutar a música de Marilyn Manson desde os idos dos anos 90 e tantos (não lembro mais quando comprei o único album dele que eu possuo, que é provavelmente o mais conhecido, “Antichrist Superstar“) eu confesso que não dei muita atenção ao album, à existência de MM, nada. Vejam bem, eu sou totalmente, completamente apaixonada por Trent Reznor - com quem eu me identifico muito mais - desde que Trent e eu tínhamos, sei lá, uns vinte e poucos anos. O próprio MM foi fã de carteirinha de Trent Reznor, abria os shows do NIN, historicamente não havia muitas razões para eu prestar atenção especial à Marilyn Manson. Eu não sou impressionável nem pelo visual nem pela imprensa - sorry, deeply sorry, mas um rockstar com quase dois metros, a pele pintada de branco e batom, tatuado no corpo todo, vestido de fraque ou enrolado em faixas de múmia é um conceito muito divertido para mim mas eu nunca levaria a sério a não ser que alguma coisa muito especial acontecesse para chamar a minha atenção. Alice Cooper cabe nessa descrição, Ozzy Osbourne cabe nessa descrição e quem vai levar qualquer um desses dois caras a sério? Para ser honesta, uma das coisas que me incomoda na indústria do rock’n horror é um sentimento de que toda aquela apologia é mero style, produto de consumo, total e completamente fake. É só no palco e nos videoclipes, depois você encontra o sujeito em um shopping fazendo compras com a patroa e as crianças, vestidos com uma camiseta do time favorito e carregando mochilas cheias de fraldas e mamadeiras. It’s only rock’n roll.

Um belo dia eu assisti Bowling on Columbine na TV a cabo. Eu também não sou fã de Michael Moore - penso mesmo que existe bastante manipulação de idéias na maneira como ele monta alguns de seus documentários - mas o acontecimento de Columbine foi uma coisa que colou na minha memória na época em que aconteceu, até porque eu me recordo de uma certa histeria na imprensa mencionando o filme The Matrix como um dos “inspiradores” e “responsáveis” por Columbine.

Sou uma pessoa que nunca em sã consciência sucumbe à manobras de mídia para vender jornal ou propagandas de massa para lavagem cerebral e controle social, não importa o assunto. Eu sou MUITO desconfiada. Eu praticamente não acredito em nada que eu leia em lugar nenhum sem checar umas cem vezes. Eu sou capaz de passar meses e meses pensando em algum assunto antes de proferir uma palavra de opinião a respeito.

Havia uma menção a Marilyn Manson nas reportagens histéricas de 1999, mas não chamou minha atenção. Usar mídia, cinema, TV como bodes expiatórios para fatos que acontecem dentro da sociedade é uma prática comum - blame the media. Afinal, não somos nós os responsáveis por adolescentes resolverem trucidar colegas de escola a tiros assim como não somos responsáveis pela miséria, pela fome, pelas doenças, pelo crescimento da violência no mundo, pelas guerras, por nada. É a mídia, é a imprensa, a TV, o cinema, o rock’n roll e sua terrível influência nas mentes jovens e impressionáveis.

Até aquele momento eu pensava que Marilyn Manson era apenas mais um cara que usa ratos empalhados, sangue de efeitos especiais e símbolos demoníacos em seu show para vender mais discos. Blame Ozzy. Eu curto alguns dos clipes, especialmente os dirigidos pela artista Floria Sigismondi, uma italiana filha de cantores de ópera extremamente inteligente e criativa e eu sei que o estilo visual desses clipes pertencem à ela e não a MM. Bom, so far, MM estava relegado para mim ao limbo dos clipes de rockhorrorshow da MTV.

Então eu assisto à entrevista de Marilyn Manson para Michael Moore e fico surpresa. O cara que cantava “Personal Jesus” (cover de uma música do Depeche Mode), coberto de maquiagem e com uma aparência burlesca tem um cérebro MUITO pensante. Surprise!

Um tempo depois eu assisti o admirável Elephant de Gus Van Sant uma meia dúzia de vezes, pensei um pouco mais sobre Columbine, pensei em quanto o filme de Van Sant é uma linda obra de arte que conta um fato tão horrível.

Esqueci MM. Eu mostro os clipes de Floria Sigismondi no meu curso de direção de arte, em meio a várias outras coisas mas é só.

No curso de direção de arte que eu mesma criei e ministro eu friso dúzias de vezes a importância do contexto cultural, de como elementos visuais e símbolos cognitivos podem ter um determinado significado para nós, seres ocidentais descendentes de uma cultura latina, e significados totalmente diferentes em outros contextos culturais. Eu dou vários exemplos, de como o significado das cores na cultura asiática é completamente diferente do significado que nós atribuímos, de como ritmo, símbolos, signos são compreendidos de forma diferente por causa do contexto cultural.

Estava eu no Youtube esses dias, pesquisando alguns making ofs e adorando assistir entrevistas do David Lynch quando esbarrei em um clipe de Marilyn Manson que eu não conhecia direito. Tinha visto uma ou duas vezes na MTV no século passado (o video foi produzido em 1997) e sinceramente tinha achado que o tema e a narrativa eram em torno da menção ao sobrenome “Manson” que MM adotou em seu nome artístico, o video mostrava alguma coisa que me recordava conceitos religiosos, terminava com um apedrejamento, MM estava em uma fase um pouco mais light, é fato, mas era MM, com maquiagem e roupa de vinil. Achei que o tema era religioso mas apenas mais uma crítica como várias outras do universo do rock. O nome do clipe é “The Man that you fear“.

Crianças, sentem-se, sirvam-se de chá e biscoitos e escutem uma incrível revelação: eu não tinha entendido o videoclipe. Não tinha prestado suficiente atenção. Eu tinha um preconceito cultural que me impediu de realmente analisar o clipe como deveria. Eu, que falo tanto em contexto cultural, tinha ignorado vários elementos do contexto cultural ao assistir o clipe.

Caí em mim, pela bobagem, pelo que eu tinha deixado passar, desfilando bem diante do meu nariz. Sorry, sorry, deeply sorry. Isso será corrigido brevemente, estou fazendo uma análise contextual e imagética do clipe e postarei por aqui em breve. Stay tuned.

Por enquanto, randomicamente, não se espantem se toparem com algumas quotes de Marilyn Manson por aqui, em meio a Neil Gaiman, Lewis Carrol, Albert Einstein e Albert Camus. O chá está com 234 frases interessantes em sua base de dados - e crescendo.

Beba o chá e fale alguma coisa: