Friday, September 5, 2008

Amor embriaga

Punch-Drunk Love (2002)
“I have a love in my life. It makes me stronger than anything you can imagine.”

Direção de Paul Thomas Anderson
Com Adam Sandler, Emily Watson e Philip Seymour Hoffman

Paul Thomas Anderson dirigiu Cigarettes & Coffee (1993), Boogie Nights (1997) e Magnolia (1999). São filmes estranhos, incomuns, de temática complexa e desenvolvimento ainda mais complicado. Todos valem a pena serem vistos.

Punch-Drunk Love é um desses filmes estranhos e complexos e só funciona porque o personagem principal é interpretado por Adam Sandler.

Adam Sandler tem uma extensa filmografia. Airheads (1994) traz Brendan Fraser e Steve Buscemi como dois fãs de heavy-metal que invadem uma rádio para forçá-los a tocar sua fita demo. The Wedding Singer (1998) é uma comédia engraçadíssima, um dos melhores filmes de Sandler, onde ele é um cantor de casamentos apaixonado por Drew Barrymore. O filme é recheado de músicas dos anos 80, Sandler usa um terno mais cafona que o outro nos bizarros casamentos onde toca com uma banda que tem um cantor que imita Boy George. Em The Waterboy (1998) ele faz um “garoto da água” - o cara que serve água aos jogadores de futebol americano - que termina se revelando um grande jogador. Big Daddy (1999) é o filme que o fez realmente famoso, onde ele é pai adotivo de um garoto de três anos. Sandler fez também um monte de “bobagens de verão” - sempre que vir um trailer de um filme que possui a tarja “summer movie”, fuja! - conseguiu ficar muito famoso como comediante, embora nem sempre seus personagens sejam muito engraçados (talvez seja o humor americano, que nem sempre eu acompanho? Ele fazia Sarturday Night Live, suas aparições eram ótimas.)

Philip Seymour Hoffman é um ator incrível que sabe escolher bem seus filmes. Ele é um irritante estudante em Scent of a Woman (1992). Faz um gay que trabalha em cinema e é apaixonado pelo personagem principal em Boogie Nights (1997). Esteve em The Big Lebowski (1998) - dos irmãos Cohen - como como um dos puxa-saco do milionário que causa toda a trama do filme. Fez o enfermeiro de Magnolia (1999), uma atuação admirável que conquistou diversas críticas elogiosas. No mesmo ano, fez um riquinho mimado em The Talented Mr. Ripley (1999). Em Almost Famous (2000) ele fez o famoso editor e escritor Lester Bangs. E deu um show de interpretação em Love Liza (2002), como o inconsolável viúvo Wilson Joel.

Emily Watson é a anti-heroína por quem Adam Sandler (Barry Egan) se apaixona em Punch-Drunk Love. Emily Watson não é uma atriz de grande destaque em Hollywood e talvez por isso mesmo tenha sido escolhida para o filme.

Punch-Drunk Love é um filme inusitado. Mostra o personagem Barry Egan, um homem afável e controlado que mora sozinho, tem sete irmãs, vende luminárias para viver e como esse homem, ao descobrir a possibilidade do amor, realiza coisas que todas as pessoas sentem ou pensam em fazer, mas não fazem.

Eu confesso que nunca tinha pensado em comparar com Barry Lyndon até o habituée do chá Mr. Erwin Maack mencionar isso em um email. Os filmes estão mesmo de certa forma relacionados, Kubrick fez Barry Lyndon à luz de velas, mandou fazer uma câmera especialmente para poder filmar apenas com luz natural e velas, mesmo à noite, sem luz artificial. Kubrick pediu à direção de arte que fizesse todo o figurino e os cenários inspirados em pinturas inglesas do mesmo período histórico da história do filme. E por fim, ele filmou como se fossem quadros em uma exposição. Mr. Anderson inspira seu visual nos anos 50/60, inspirado nos antigos filmes technicolor - Barry passa o filme todo vestindo um terno azul como James Stewart em Vertigo; Lena usa vestidos vermelhos como Kim Novak, a jovem suicida de amor.

Ainda na comparação com Kubrick, Mr. Anderson estudou vários efeitos de fotografias para fazer o que ele chamou de “blossoms & blobs” e criar aqueles efeitos coloridos belíssimos e oníricos que aparecem entremeados às cenas e que dão a mensagem da “embriaguez”. Kubrick estudou vários efeitos especiais de cinematografia para fazer 2001, especialmente para a passagem no portal estelar. São efeitos de fotografia, nada de computador. Não há computadores nesses dois filmes - exceto para cometer erros no enredo, como Hal e sua embriaguez tecnológica e o controle do cartão de crédito de Barry Egan.

Coisas se quebram no filme, em várias passagens. O desentupidor inquebrável espatifa em milhões de pedacinhos. As portas de vidro da casa de uma das sete irmãs é destruída com fúria por Barry Egan. O banheiro do restaurante é estraçalhado. O vidro do carro dos “brothers” é destruído. Há cacos e cacos e cacos para todos os lados. O amor deixa milhões de caquinhos por toda a parte, onde passa.

Quantas pessoas não acreditam que se forem viajar, para longe, bem longe, encontrarão a felicidade que passaram a vida toda buscando? É essa a tentaviva de Barry. Viajar para longe é não precisar ser mais ele mesmo, é poder fugir de sete irmãs que ficam dizendo como ele é. Barry nega a si mesmo porque é tudo insuportável.

“I’m wearing this suit today because I had a very important meeting this morning and I don’t have a crying problem.”
No fundo, seu problema é o mesmo de todas as outras pessoas. Somos todos pessoas e todos nos estranhamos.

“I don’t know if there is anything wrong because I don’t know how other people are.”
No fundo ninguém gosta de si mesmo. E se não gosta de si mesmo, como pode amar?

“I wanted to ask you something because you’re a doctor… I don’t like myself sometimes. Can you help me?”

O amor é harmonia, mas para tocar com harmonia é preciso aprender a tocar. E ali está o harmônio, colocado na calçada, logo após um “car-crash” e retirado da calçada um segundo antes de ser atropelado por um caminhão. O amor é a harmonia entre desastres. Para aprender a tocar, primeiro é preciso aprender a ouvir. E para isso, primeiro é preciso se apaixonar e ficar embriagado, perder a razão. A razão não ama. Apenas a loucura ama.

Lena: “That’s insane.”
Barry: “I know… yes…”

Em Vertigo é o abismo, o salto para a morte. Amar é saltar em um abismo, embriagado, mesmo se tiver medo. Em Punch Drunk Love, amar é ficar vagando por corredores brancos em busca da porta do apartamento de sua amada, entre placas que apontam para a saída.

A certa altura do filme, Barry, com aquele seu jeito controlado que aparenta calma, mas que já sabemos que esconde uma fúria capaz de destruir banheiros, diz:
“I have a love in my life. It makes me stronger than anything you can imagine.”
É o ápice do personagem, marcando sua profunda transformação em uma nova pessoa.

Se Lena tivesse medo de Barry, mesmo depois que ele lhe confessou que tinha destruído o banheiro, o romance acabaria ali mesmo. Mas Lena também é contida. Ela também quer um amor. Ela apenas olha Barry com seus olhos cristalinos e aceita guardar segredo entre eles. O amor tem segredos.

Barry: “Ummm, let’s just… keep it between you and I, if that’s possible.”
Lena: “Sure, Sure…”

Em locais públicos eles finalmente expressam seu amor, se beijam, vivem o romance. Em locais públicos tudo é possível, porque somos todos anônimos, não somos nós mesmos. E quando deixamos de ser nós mesmos, então sim, o amor é possível.

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