Sábado à tarde, domingo de manhã
Sábado
Está um lindo entardecer. Fui comprar um pedaço de torta no café aqui em frente. Adoro esse café. Tem um ar de restaurante da década de 50 daqueles filmes de Frank Sinatra. Torta de palmito, quiche de queijo. Trufas recheadas com creme. O cheiro do café.
Fases de transição são extremamente complicadas para mim.
Eu dormi um pouco à tarde. Sonhei com as coisas-que-não-existem-mais. Até pouco tempo atrás, quando morava com a minha mãe, nessa minha vida pós-minha-vida-anterior, sonhar com as coisas-que-não-existem-mais era complicado para mim, porque eu ainda estava no cenário onde as coisas-que-não-existem-mais tinham existido. Eu acordava no lugar certo, no tempo errado. Vocês não têm idéia de como era confuso e… complicado.
Eu descobri que não consigo falar determinados sentimentos e simplesmente os defino como “complicados”.
Estou um pouco cansada de falar com determinadas pessoas. É estranho para mim como as pessoas não compreendem o significado da palavra “silêncio”. Não é tão difícil.
do Lat. silentiu
s. m., estado de quem se abstém de falar; taciturnidade; privação voluntária do falar; abstenção de publicar qualquer notícia ou facto; ausência de ruído; interrupção de correspondência; omissão de explicações; sossego; segredo; toque nos quartéis e conventos, depois do recolher;
Algumas pessoas falam sem parar. É exaustivo. A arte da conversação pressupõe interlúdios. Eu sou uma pessoa conversadora, eu gosto de conversar - especialmente com estranhos. Conversar com estranhos é sempre uma oportunidade de ser alguém novo, de exercitar um aspecto seu que às vezes nem você conhece bem.
Existe esse sujeito, amigo que eu herdei de outro amigo. Ele é inteligente, mas me cansa. Ele fala sem parar, geralmente sobre ele mesmo. Quem ele é, como ele é, como as pessoas não o entendem, como ele quer ser visto e entendido pelas pessoas. Ele me exaspera tanto com seu infindável monólogo que eu já cheguei a ser áspera com ele. Disse a ele que eu adoraria conhecê-lo melhor, mas infelizmente o relações públicas dele não deixa. E que a única imagem que eu consegui fazer dele é de um sujeito inseguro, cansativo, que fala sem parar para evitar que o conheçam, que quer controlar a opinião que as pessoas fazem dele.
Argh! Eu detesto quando alguém me obriga a falar coisas ásperas.
Outra palavra que parece não ser bem compreendida é “consideração”. Pena, é uma palavra rica.
do Lat. consideratione
s. f., acto de considerar; exame atento, reflexão;raciocínio; valimento, importância; razão, motivo que pode determinar um acto;estima; deferência; respeito que se dedica a alguém; crédito; bom nome; (no pl. ) reflexões; (no pl. ) arrazoado; (no pl. ) exposição fundamentada.
As pessoas não gostam de considerar, examinar ou refletir sobre nada. Dá trabalho. Cansa. Não pensar é muito mais simples, rápido e fácil.
Domingo
O vídeo abaixo é do show especial “ReAct Now: Music & Relief” realizado em prol das vítimas do furacão Katrina em New Orleans.
Eu amo esse homem. Ele é maravilhoso. Ouçam só esse piano.
Estou fazendo uma extensa pesquisa sobre o período entre guerras na Alemanha, o cinema expressionista alemão, o Grotesco & o Sublime. A minha pesquisa acabou de passar, inevitávelmente por Gottfried Helnwein e consequentemente por… Marilyn Manson.
O trabalho de Gottfried Helnwein não é para estômagos fracos, não entrem no site dele se vocês são impressionáveis.
Mr. Manson nunca me fascinou. Gosto de um CD dele que eu tenho, mas nunca parei para analisar ou ouvir mais coisas dele. Sou uma fã confessa de Monsieur Reznor, já disse isso over and over… mas pesquisando e lendo mais sobre o trabalho recente de Mr.M, descobri que ele está resumindo em seu trabalho, desde o início, mais de cem anos de propaganda, comunicação de massas e mídia. É interessantíssimo ver como Mr.M “lê” o que “consumiu” da cultura de massas e da mídia durante toda uma existência e como “traduz” essas informações em seu trabalho.
A platéia se divide em dois grupos: os que reagem à primeira impressão visual e rejeitam a figura, as imagens usadas nos vídeos e a música; e os fãs, divididos em dois grupos, os que são simplesmente fãs mas nunca pararam para analisar o que é esse peculiar trabalho de Mr.M e os que se informam profundamente, pesquisam e analisam o trabalho de Mr.M - para descobrir, mesmerizados, a imensa mistura de referências cruzadas.
Vejam esse vídeo, que interessante, The Golden Age of Grotesque, do álbum de mesmo nome, ele usa elementos de Cabaré (o filme de Vincent Minelli) misturados com vaudeville burlesque, com elementos do artista plástico performático alemão Günter Brus, nascido em 1938 e outras referências da época da segunda guerra. As gêmeas do vídeo são uma referência às gêmeas siamesas que se tornaram musicistas, cantoras e grandes estrelas do vaudeville durante a década de 30, Daisy e Violet Hilton.
Ditta Von Teese está causando um efeito curioso em Mr.M. Essa nova persona dele que aflorou é muito interessante.
Curioso, eu ainda sou aquela mesma garotinha que morria de medo de assistir “Acredite se quiser” na TV, embora o horror me fascinasse; a mesma que assistia os filmes de Vincent Price achando-os belíssimos mas apavorantes e que, até hoje, quando vê alguma coisa realmente horrível, faz milhões de pesquisas para verificar se a história é real ou forjada, se a imagem é real ou fotomontagem.
O horror apenas não me horroriza. É o pensamento da capacidade das pessoas em produzir horror que me horroriza. Figuras horríveis não horrorizam por si só. O subtexto, é ele que causa o horror.
Vou pesquisar mais, vou escrever a respeito, vou usar as referências no meu TCC.
Ah, meu novo roteiro, o Edifício, lembram dele? Acabou de ganhar um título definitivo, mas depois eu conto qual é. Not now. Mas é um lindo título, muito poético.
O sol está vai-não-vai, venta muito, estou com frio e com fome. Vou dar uma volta. Só tomei chá verde e comi uma tijelinha de granola com leite hoje (acordei muito cedo), eu definitivamente preciso comer alguma coisa.
Now listening: The Golden Age of Grotesque, Marilyn Manson

August 30th, 2006 em 12:55 pm
Escreveu Adous Huxley em “Contraponto”: “O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura”.