Casa de Areia
Finalmente consegui assistir Casa de Areia, do Andrucha, na sessão especial da ABCine, seguida de um debate com parte da equipe do filme - estavam presentes Tulé Peake (direção de arte), Ricardo Della Rosa (Fotografia), Mirian Biderman (som), José Augusto de Blassis (Casa Mega) e Gigio Pelosi (colorista).
Primeiro, um comentário para quem ainda não assistiu o filme, para quem (como eu) tinha lido (ou escutado) muitas críticas ácidas sobre o filme e especialmente, para quem tem pouca fé no cinema brasileiro: vá ver. Vá, logo, hoje. Se depois de assistir você chegar à mesma conclusão de uma pessoa que comentou em um dos sites de cinema que eu leio de que o filme é apenas propaganda dos lençóis maranhenses, ou que é lento, arrastado, cheio de obviedades ou qualquer outra análise superficial dessas extremamente mau-humoradas, pré-concebidas para detestar o filme (eu li - e ouvi - várias críticas dessas, acreditem) então eu sugiro que volte a assistir enlatados made-in-usa e nunca mais vá ao cinema ver um filme brasileiro.
Casa de Areia é maravilhoso. Simplesmente maravilhoso.
Imaginem o que é filmar em um lugar onde cada grão de areia, literalmente, reflete a luz solar da altura do equador em todo seu esplendor. Imagine ter que fotografar esse filme calculando redução de luz e superexposição o tempo todo. Imagine filmar em um lugar onde o cenário se move, o vento vai levando a areia, que escorre e modifica a paisagem a cada minuto. Imagine ainda você ter que transportar a equipe de cinema para esse local, com equipamento, gerador, figurino, mobiliário, peças de cenário, câmeras, etc. Ao chegar, você tem que construir o cenário (várias casas que serão ao longo da história a mesma casa em diferentes fases), a cada dia de filmagem preparar o set inteiro para filmar e em poucos segundos, ter que mudar completamente de idéia e filmar outra cena porque o tempo fechou (e a raridade desse fato não pode ser desperdiçada) ou porque a areia engoliu parte do maquinário em minutos ou ainda porque um detalhe importante passou desapercebido: a equipe deixa pegadas na areia onde passa e isso atrapalha completamente a fotografia do filme. Imagine fazer tudo isso com câmeras de cinema que se estragam em poucos dias nem tanto pela areia que entra nelas, mas porque durante o dia faz 50 graus à sombra e de noite a temperatura cai para temperaturas próximas de zero. Detalhe: o local das filmagens é um parque nacional protegido pelo IBAMA cheio de restrições de uso. Apesar disso tudo, o orçamento final de Casa de Areia foi de apenas R$ 8,6 milhões, incluindo-se a finalização, com efeitos especiais e correções de cor. A fotografia é magnífica, a direção de arte é primorosa, o som é espetacular, a narrativa é peculiar.
Além das dificuldades técnicas e logísticas de filmagem ainda existia mais um desafio complicado: narrar o filme em um local tão magnífico e escapar do cliché fácil, do cartão postal turístico, transmitir com aquelas imagens espetaculares de areia a aridez da história, o local inóspito e difícil de se viver e não o local paradisíaco para férias de verão.
O filme consegue isso. As pessoas no debate após a exibição falavam o tempo todo em “deserto” e não em “praia” apesar das dunas estarem próximas do litoral e das imagens no filme não serem totalmente desérticas - vemos lagoas em várias passagens e até mesmo o oceano. Mais do que um deserto imagético é um conceito abstrato de deserto que é transmitido com competência pelo filme.
Agora pense em Fernanda Mãe e Fernanda Filha, duas grandes atrizes, que nunca tinham feito um filme juntas. Você tem duas personagens, mãe e filha. Você tem duas atrizes magníficas para interpretar mãe e filha que são mãe e filha na vida real. O local onde essas duas mulheres vivem tem areia, areia, areia e ainda assim o filme mostra com precisão - afinal, toda obra audiovisual tem sua narrativa baseada em imagens e sons - como a passagem do tempo acontece. O filme ultrapassa o fato de ser um filme passado em outra época, no início do século XX e conta um drama existencial universal, que poderia ser vivido por qualquer pessoa em qualquer tempo. A direção de arte, novamente, é preciosa. Nos pequenos detalhes da passagem do tempo, a condição de vida das duas mulheres, a dificuldade da luta com a areia, as memórias que vão ficando cada vez mais melancólicas são mostradas sutilmente, com delicadeza, através de um copo de vidro, uma vasilha de louça, um castiçal de vela, uma toalha de renda, uma e outra fotografias em um álbum ou coladas em uma parede.
Ainda mais duas outras coisas me chamaram a atenção: narrativa e tempo. A narrativa muito precisa muitas vezes parece que enlouqueceu: apesar do tempo passar, o tempo não passa! Tudo é apenas areia! Onde está a real passagem do tempo? A certa altura estamos confusos - aquela é a mãe, a filha ou a neta na pele de Fernanda Torres? Aquela é a avó, a mãe ou a filha na pele de Fernanda Montenegro? Esse caos temporal rapidamente é desfeito com elementos acessórios da narrativa: personagens, situações ou pequenos objetos que aparecem em cena para nos ajudar a nos situar.
Eu tinha lido críticas muito ácidas a Casa de Areia. Talvez a acidez dessas críticas venha do fato do Andrucha ser amigo do Waltinho, também amigo do Fernando, e todos eles fazem cinema porque querem fazer, independente de terem trabalhado com publicidade, independente do que os intelectuais brasileiros pensam que o cinema nacional deva ser ou não deva ser, do que é que as pessoas pensam do cinema hollywoodiano, independente das eternas reclamações de falta de dinheiro, de falta de política do audio-visual, das dificuldades, etc.
Casa de Areia tem selo do Ancine. Teve apoio de lei do audiovisual. Foi finalizado em 2K na Mega e na Casablanca. Foi patrocinado por várias instituições. Demorou para ser aprovado por leis de incentivo, para ser montado e finalizado. Apesar disso tudo, das dificuldades crônicas do cinema brasileiro, está aí para ser assistido. Custou 8,6 milhões. Seria considerado low budget em Hollywood.
Cinema é mais que apenas retratar miséria, pobreza, cactus, corrupção ou mar de lama. Cinema não pode ser encarado apenas como uma forma de fazer denúncia social ou mostrar problemas urbanos. Cinema é arte e como arte, transcende o pessoal para o universal, retornando ao pessoal na experiência íntima de cada pessoa que assiste um filme. Cinema é uma arte industrial, produzida em equipe, dependendo de cada pessoa empenhada na produção para ficar pronto, com qualidade.
Eu adoro “Cidade de Deus”. Gostei muito de “Quanto Vale ou é Por Quilo”. Amei “Cabra Cega”. Adorei o “Invasor”. Mas ainda bem que o Andrucha fez Casa de Areia. Casa de Areia é um filme de arte. Ainda bem. O cinema brasileiro precisa muito de diversidade para crescer e realmente se transformar em uma indústria cinematográfica de verdade.
Leia também:
A crítica de Djalma Limongi Batista ao filme, publicada no site Cinema com Rubens.


August 17th, 2005 em 11:48 pm
Ler esse post me deu vontade de fazer as malas e ir JAH pros Lencois Maranhenses… ou ver o filme.
Sonha, Lucia Malla, sonha…
August 19th, 2005 em 12:54 pm
Estava com o pé MUITO atrás para ver este filme. Talvez porque tinha acabado de assistir “Quanto vale…”, do qual só gostei de metade. Tiranto as dificuldades de execução (onde muitos filmes acabam se vangloriando e esquecendo totalmente da importância da narrativa), parece que este filme tem uma narrativa interessante. Vou ver.
P.S.: Não leio nenhuma critica antes de assistir o filme. Odeio todas, inclusive as que elogiam.