Cinema como linguagem
Depois da sessão ABCine de ontem fiquei pensando na problemática do cinema como linguagem. O cinema é muito discutido no Brasil, fala-se muito (e sempre) da dificuldade financeira, do problema do apoio governamental, da necessidade de política, de legislação. Discute-se muito sobre o suporte (35 mm, 16, digital, etc, etc) e sobre tecnologia (ou a falta dela). A discussão é ainda maior e mais acalorada quando o assunto é cinema de autor e estilo.
Em abril eu tinha escrito um texto sobre o problema do paternalismo na cultura brasileira. Quero reescrever esse texto. É um conceito muito importante, o mecanismo principal para entender por que as coisas são como são no Brasil. Esse texto merece ser avaliado novamente e reescrito. O momento histórico de hoje é reflexo desse paternalismo crônico. Os governantes ainda se consideram pais-estado e agem como se o dinheiro do estado fosse deles. A população ainda raciocina como filhos-que-precisam-do-pai-estado, que não tem direito de cidadão e sim, vivem mendigando direitos como se ainda vivêssemos na escravidão. O país teve como origem um forte colonialismo de exploração e não um colonialismo de desenvolvimento. O problema é cultural, ainda mais do que social ou econômico. Basta olhar as cifras do atual mar de lama que afoga o governo para perceber que o problema não é falta de dinheiro no país e sim para onde esse dinheiro vai.
A cultura brasileira é complicada e sem identidade homogênea. Somos uma nação de fragmentos, um intricado quebra-cabeça composto por indígenas, europeus de variadas origens, nações africanas, povos asiáticos. Não temos identidade cultural única e essa é uma das chaves para compreender por que alguns se identificam com narrativas lentas, emocionais e européias, outros preferem narrativas também lentas, mas cheias de símbolos, silêncios contemplativos e cores asiáticas, outros preferem narrativas dinâmicas típicas da cultura de massas e outros ainda com narrativas de novelas latinas, recheadas de diálogos e mais diálogos. Não há unanimidade porque cada região do país teve influências diferentes, desevolvimentos diferentes e acessos em graus diferentes à atual cultura globalizada que nos chega via mídia, internet, tv.
É muito complicado estabelecer qual é a “cultura brasileira” e assim tentar definir qual é a “linguagem audiovisual brasileira”. A grande verdade é que nem a mesma língua nós falamos no país todo, cada região tem o seu próprio vocabulário de língua falada e seu próprio universo de imagens. Trabalhar com tantas variáveis termina em um processo onde várias traduções são necessárias, as pessoas se entendem muito pouco, a nossa comunicação é cheia de ruídos culturais.
Talvez essa seja uma das chaves de compreensão sobre os diálogos tão díspares que surgem quando se discute cinema brasileiro. Talvez o que precisemos em toda a indústria cultural seja de menos tentativa de unanimidade e mais compreensão e tolerância com as diferenças culturais.

August 17th, 2005 em 7:21 am
Somos um país novo, recente, de pouca experiência no quesito coesão social. {É bem verdade que isso não é muito incentivado.} Levaremo um bom tempo para adquirir isso. E cada dia que passa vemos a intolerância como bandeira prosperar. Aparentemente caminhamos num rumo diferente daquele que é necessário. Para reunificar nossas vozes precisamos pensar nisso e o seu texto é uma magnifíca oportunidade para isso. Dar voz e sentido geral às vozes isoladas e soltas.