Filme
“Filme” - de Lilian Ross
“Uma descrição terrível de como um grande filme pode ser reduzido à incoerência pelo acanhamento e analfabetismo dos chefes de estúdio”.
- Graham Greene
Lilian Ross acompanhou, durante quase dois anos, o processo de filmagem de “A Glória de um Covarde“, de John Huston.
Huston é um grande cineasta. Se eu fosse indicar apenas um filme dele para ser assistido, indicaria The Misfits (1961) e se fosse indicar dois, indicaria também seu Moby Dick (1956) com Gregory Peck como o enlouquecido Capitão Ahab.
No livro, Lilian descreve, como uma observadora imparcial, como o estúdio gradativamente vai destruindo a produção e depois o filme já montado, em sua preocupação em “produzir um filme comercialmente viável” - sem se preocupar com a visão de Huston do filme.
“Tudo que me interessa é que o filme faça dez milhões de dólares’, disse Reinhardt.”
O diretor é o filme, o filme é o diretor - mesmo em filmes “comerciais” ou filmes “de entretenimento”. O diretor vai imprimindo, ao longo do processo de preparação e filmagem, sua visão, sua personalidade, suas idéias, seus pensamentos. Um diretor autoral como Huston deixa uma marca indelével em seus filmes.
“Meu Deus, Jim’, disse Huston. ‘Diga-me alguma coisa que eu possa entender. Isto não é um romance. É um roteiro. Você precisa demonstrar tudo, Jim. As pessoas na tela são deuses e deusas. Sabemos tudo sobre elas. Seus hábitos. Seus caprichos. Mas não podemos tocá-las. Elas não são reais. Estão no lugar de alguma coisa. São símbolos. Não dá pra ter simbolismo dentro do simbolismo, Jim.”
O estúdio sabia que Huston era extremamente autoral, mas quando começam a trabalhar, os produtores executivos não conseguem ter paciência, não conseguem abandonar sua prepotência, a preocupação única e exclusiva com o faturamento que o filme irá fazer, sua falta de conhecimento da linguagem cinematográfica - e começam um processo lento e inexorável de destruição do filme.
“Reinhardt falou:’John, você tem que dizer às pessoas o que é o filme. Devemos começar a narração no início, antes da cena no rio. Aquela cena é enigmática. Você paga por aberturas mais inteligentes. Devemos dizer a eles:’Eis uma obra-prima.’ É preciso contar isso a eles. As pessoas precisam saber que é um clássico.”
Os produtores executivos não conseguem entender que o que fará a bilheteria não serão os clichés que eles vão adicionando ao filme - como a narrativa em off adicionada depois de alguns pré-testes de audiência - nem os cortes que fazem de cenas importantes na construção do ambiente do filme e sim, a liberdade que deveriam ter dado a Huston de criar o filme como ele pretendia criar. Huston sabia que tipo de filme deveria fazer.
“Façam ‘a irmã’ narrar’, disse Albert Band, e começou a rir. Huston e Reinhardt silenciaram-no com o olhar.
‘Albert, um dia você será chefe do estúdio’, disse Huston. Falou mecanicamente e com voz triste, sem nada da antiga ênfase teatral. Parecia cansado.
O processo de lidar com o estúdio é desgastante o tempo todo. Como não conseguiu filmar como realmente queria, não conseguiu que o filme fosse montado como queria, ao chegar aos pré-testes, o filme já não era o que Huston tinha pensado inicialmente. Os testes fracassam, aos olhos do estúdio - embora eles não saibam se querem que a platéia chore, ria, aplauda. O estúdio inicia um processo de remendar o filme de Huston - e Huston perde o interesse.
“Reinhardt e eu saímos do escritório para almoçar no refeitório. ‘John não se importa mais com o filme’, disse ele enquanto caminhávamos. ‘John não se importa com nada, e eu fico aqui para escutar Louis B.Mayer.”
O livro de Lilian Ross é uma aula de cinema e uma aula de jornalismo; a jornalista consegue escrever um livro onde permanece invisível, sem emitir opiniões, sem fazer julgamentos ou pressuposições, narrando cruamente como Hollywood trabalha.
Vale a pena ler.
