Tuesday, January 6, 2009

Dogville

“All I see is a beautiful little town in the midst of magnificent mountains. A place where people have hopes and dreams even under the hardest conditions.”

Várias vezes já me pediram para escrever uma análise sobre Dogville. Eu sempre soube que para fazer uma análise bem-feita eu precisaria realizar uma pesquisa detalhada sobre Lars Von Trier, suas idéias e cinematografia, Dogville não é fácil de analisar, porque possui múltiplas camadas.
Aqui vai uma versão “curta” da análise, para internet.

Dogma 95

Em 1995, Lars Von Trier, juntamente com o cineasta Thomas Vinterberg, criaram um movimento-manifesto cinematográfico que chamaram de “Dogma 95″.

O Manifesto trazia uma nova proposta de resgate do “cinema autoral” pois, de acordo com o texto redigido pelos dois cineastas, a Nouvelle Vague, cujo objetivo também tinha sido esse resgate, havia falhado em sua tentativa, conseguindo apenas repetir o mesmo cinema elitista, “burguês” e não-democrático já produzido pelos grandes estúdios até então.

O ponto central do Manifesto é a utilização tecnológica e o orçamento de produção: a proposta é a libertação da técnica tradicional do cinema para redução de custo. Essa libertação tecnológica produziria um cinema verdadeiramente democrático.

As regras do Manifesto Dogma 95, chamadas de “Voto de Castidade”, são:

1. As filmagens devem ser feitas em locais externos. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).
2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).
3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos - ou a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).
4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.
6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer).
7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (Isto significa que o filme se desenvolve em tempo real).
8. São inaceitáveis os filmes de gênero.
9. O filme deve ser em 35 mm, padrão.
10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

(fonte: Wikipedia)

Em 2005, Lars Von Trier lançou um adendo ao Manifesto original para uma segunda série de filmes produzidos de acordo com as regras do Dogma, onde o formato digital se tornou obrigatório.

Dogville

Em Dogville, vemos alguns dos elementos do movimento Dogma 95: o uso de câmera na mão em algumas seqüências, a ausência de trilha musical, o filme colorido, a ausência de armas e efeitos especiais. Lars Von Trier utilizou recursos adicionais que não estavam previstos no manifesto Dogma, como grua, iluminação artificial e cenário construído em local fechado.

O cenário

Entretanto, o “cenário” está longe de ser o cenário usados pelos grandes estúdios ou a locação “cinematográfica” natural do cinema realista; o cenário de Dogville possui uma composição visual que se aproxima muito mais da linguagem teatral do que do cinema; simples, enxuto, com poucos acessórios, como se fosse um grande palco retangular onde os atores e a interpretação são mais importantes que o que o ambiente que os cerca. Se um objeto é dispensável à narrativa, ele não existe, ele é sugerido com um desenho no chão, ou apenas manipulado pelos atores como se fosse invisível.

Esse tipo de “não existência de um objeto” remete ao próprio formato e estrutura dos roteiros técnicos para cinema: tudo que for desnecessário na construção da cena não consta do roteiro; apenas o essencial à narrativa está lá. Assim, em Dogville, os personagens abrem portas invisíveis para passar de um ambiente a outro, o personagem do cão não existe, é apenas o som de um latido ou um desenho no chão. Já os carros, que servem como elemento central de momentos da narrativa e como cenário, entram e saem desse “palco teatral”.

Dogville é um filme monocromático, praticamente todo o cenário e o figurino é marrom. Uma das primeiras conexões simbólicas que é feita imediatamente é com fotos antigas; a cor sépia, em nosso imaginário simbólico remete ao antigo, ao velho, ao passado. Temos a impressão de assistir a uma história que aconteceu em tempos antigos muito mais por causa da escolha da coloração do que pelo design e modelo das roupas ou o porque o cenário possua elementos nos remetem à indentificar alguma época.

Somos informados logo no começo do filme de que a cidade se localiza perto de uma montanha e que a paisagem é “bela” e bucólica mas a montanha não existe visualmente, é apenas sugerida a um canto do cenário por um amontoado de pedras. O espectador precisa completar a “beleza” da paisagem com a imaginação. A “não existência” visual aumenta a força da narrativa, já que a paisagem não é apresentada visualmente, precisamos “imaginá-la” ou “acreditar” no testemunho dos personagens. A “não-existência” do cenário cria uma dualidade de compreensões: vemos um cenário árido, vazio, que faz contraponto à fala dos personagens e do narrador, que nos garantem que o lugar é belo.

Essa mesma contradição aparente entre o visual apresentado e o texto dos personagens serve como sustentáculo principal da narrativa: a história de Dogville é uma alegoria sobre as pessoas, suas ações, seus pensamentos e a contradição constante entre o que dizem com suas reais intenções e ações.

Luz

A luz é usada como personagem da narrativa: o texto do narrador anuncia uma “mudança de luz” na cidade, com sentido metafórico e a iluminação da cena se modifica. A luz é usada no filme como apoio narrativo visual, dando ênfase a elementos e momentos importantes.

Figurino

A personagem de Grace é facilmente indentificável como uma “estrangeira” por suas roupas, cores e penteado. O estilo de sua roupa com plumas no acabamento, a maquiagem, o penteado, remetem a uma pessoa que não pertence à cidade, onde os moradores vestem apenas roupas velhas. A roupa de Grace é escura, negra, para aumentar ainda mais o contraste com “a cor local”.

Grace, entretanto, quer se mesclar à paisagem e aos habitantes e logo adota o “figurino local” de roupas velhas e remendadas. Essa indentificação visual com os moradores da cidade é fundamental para sua auto-preservação, uma vez que Grace está fugindo que gângsteres que aparentemente querem lhe fazer mal. O jogo da aparência versus realidade é, entretanto, a grande tônica da trama, assim como o narrador nos informa que a “Rua do Olmo” não tem nenhum “Olmo” - “Elm Street”, Olmo é uma árvore imensa muito comum nos Estados Unidos, simboliza a grandeza, a permanência, por seu tamanho e longevidade -, logo vamos “aprendendo” juntamente com Grace, que nada na pequena cidade é o que parece ser.

Novamente, a não-existência da cenografia e dos objetos reforça a composição da narrativa. As casas são meramente marcações em branco no chão, não possuem paredes ou portas e isso é especialmente importante nos momentos mais dramáticos da história - os personagens agem todo o tempo ignorando fatos importantes que acontecem em sua cidade, mas o espectador pode ver todos esses acontecimentos, pois não há paredes, não há intimidade e não há segredos. Tudo é público.

Essa filosofia visual é uma clara herança do teatro de Bertold Brecht, onde a proposta principal era manter o distanciamento da platéia, na tentativa de não criar relacionamento empático do espectador com os personagens. Essa filosofia, entretanto, “falha” propositadamente, porque a crueza visual reforça a empatia entre a platéia e a personagem de Grace.

A história

Dogville causou imensa polêmica quando foi lançado. O fato do filme se encerrar com a canção “Young Americans” de David Bowie, única música do filme, acompanhado de fotos do período de recessão dos Estados Unidos e de famílias contemporâneas extremamente pobres causou uma reação contra o filme nos Estados Unidos. Von Trier foi acusado de ter realizado um filme anti-americano e até hoje não conseguiu se livrar desse estigma.

Apesar dessa referência clara, a história de Dogville é uma história universal, que poderia acontecer em qualquer cultura porque trata principalmente das contradições humanas e do pior que existe no ser humano - a inveja, a avareza, a mesquinhez, o ciúmes, o desejo destrutivo.

Alguns autores, em suas interpretações do filme, compararam o comportamento dos personagens com os “Sete Pecados Capitais” e a atitude de Grace, dos gangsters e das autoridades policiais presentes na trama como uma espécie de “presenças divinas”, realizando julgamento moral dos personagens e punindo-os por seus “pecados”.

Independentemente da religião ou da filosofia pessoal de cada um, Dogville apresenta a dualidade do ser humano, num eterno conflito entre seu lado “bom” e seu lado “mau” sem oferecer final feliz ou redenção para nenhum personagem mas oferecendo sim, um final catártico - a platéia é conduzida a empatizar e se identificar com Grace “aplaudindo” o final do filme devido a essa indentificação.

A grande afirmativa que permeia o filme todo é “você é tão humano quanto qualquer um, você faria as mesmas coisas naquela situação”. Talvez por isso tantas pessoas tenham sentido repulsa pelo filme e sejam tão enfáticos em declarar que não gostaram do filme - afinal, ninguém deseja assumir publicamente que é tão humano quanto qualquer outra pessoa e tão capaz quanto qualquer outra pessoa de atos “moralmente condenáveis” ainda que em situações extremas.

2 Chás servidos em “Dogville”

  1. Sérgio bebe chá e diz:

    Gostaria de entender esse texto. Dogville

    Em Dogville, vemos alguns dos elementos do movimento Dogma 95: o uso de câmera na mão em algumas seqüências, a ausência de trilha musical, o filme colorido, a ausência de armas e efeitos especiais. Lars Von Trier utilizou recursos adicionais que não estavam previstos no manifesto Dogma, como grua, iluminação artificial e cenário construído em local fechado.

    Como assim ausencia de armas??????

    Grato

  2. DaniCast bebe chá e diz:

    Você não assistiu o filme, não é?

Beba o chá e fale alguma coisa: