Friday, August 8, 2008

Visita à Casa da Xiclet

XicletUm dos lugares mais interessantes de São Paulo que podem nos dizer por onde anda a arte é, atualmente, a Casa da Xiclet. Adriana Matos Alves Duarte, mais conhecida como Xiclet, é uma artista plástica do Espírito Santo que mudou-se para São Paulo em 1997 e desde 2001 criou uma galeria em sua própria casa.

Xiclet é formada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo [Ufes], chegou a cursar um mestrado, mas teve de interromper por problemas financeiros. Por várias vezes ela foi monitora no MAM e em bienais e também aluna especial do curso de Tadeu Charelli na USP. Sabe muito bem do que está falando.

A primeira intervenção artística da Casa da Xiclet foi a colocação de uma faixa na frente da casa que dizia “Ouve-se problemas por 1,99 a hora”. As pessoas paravam, tocavam a campainha e Xiclet escutava e anotava o problema relatado. Muitas pessoas acreditavam que Xiclet daria a “solução” para o problema reportado. “A faixa diz que eu ouço o problema, não que eu vá dar a solução”, retrucava. Alguns visitantes ficavam zangados, a maioria entendia a idéia que estava por trás.

Esta intervenção gerou uma base de dados chamada Menu de Problemas em que todos os problemas “ouvidos” pela Xiclet foram listados e podem ser consultados. É engraçado perceber que qualquer que seja o seu problema, provavelmente está listado no Menu.

Mal nasceu, a Casa da Xiclet definiu sua personalidade: é mais que um endereço, é mais que um local onde a arte se expõe. É um estado de espírito, um manifesto artístico. A Casa acompanha a dona onde ela for, tem uma característica itinerante e mutante, é impossível de ser dissociada da própria Xiclet, manifesta-se.

Em seguida, a artista resolveu começar a fazer suas “bienais”. A pergunta provocativa da Xiclet era “se a Bienal pode, por que eu não? O que a Bienal tem que eu não tenho?”. Este questionamento gerou, em 2002 a primeira Bienal Paralela da Casa da Xiclet, intitulada “Quero ser Nelson Leirner”. Foi um sucesso tão grande que o próprio Nelson Leirner fez uma visita à casa. A lembrança pode ser vista na Casa até hoje: o gato (de verdade) batizado de Nelson Leirner durante o evento, agora sempre presente nas vernissages.

As “bienais” e exposições que se seguiram continuaram com o caráter provocativo: “Ela não é Milliet” (referindo-se à curadora da Bienal SP, Alice Milliet), “Quero Ser Amigo(a) da Lisette” (inspirado na notícia de que Lisette Lagnado seria a próxima responsável pela Bienal SP) e “Prima Rica – Fica Quietinha preu Gostar de Você” – uma “homenagem” à galeria Fortes Vilaça, vizinha de endereço.

Visite!
Ir a um vernissage na Casa da Xiclet é uma experiência incomum – e vale a pena. Chegando no atual endereço, na Vila Madalena, é preciso descer uma escada, atravessar um pátio semi-escuro de onde se vê o bar colocado sob a garagem e então escolher sua entrada: se vai visitar o galpão de exposição ou se vai entrar na casa, onde Xiclet coloca arte em cada canto.

A parte mais interessante da Casa talvez seja a própria casa. Com a sala coberta de quadros e cheia de objetos de arte que podem ser estátuas, quadros, móveis de design, instalações temporárias, ou o banheiro, também repleto de variadas obras.

Até a cozinha entra na dança. Por lá, durante os eventos, sempre se pode encontrar algum prato preparado para os visitantes. Sanduíche de carne-louca, é um exemplo curioso. Este ambiente é mesmo um episódio à parte, empapelada do chão ao teto com adesivos de “bacalhau da noruega”.

A principal vocação da Casa da Xiclet parece ser questionar o tempo todo no que foi que a arte se transformou nos dias de hoje, especialmente no Brasil onde, sem o apoio da “lei do mecenato”, pouco ou nenhum artista vai a lugar algum – exceto, talvez, à Casa da Xiclet, que está sempre aberta para todos os artistas e realiza as exposições dividindo as despesas com todos os participantes. Como diz a própria Xiclet: “não tem patrocínio, mas tem apoio moral”.

Marketing de guerrilha
A estratégia de marketing de guerrilha adotada para lotar de visitantes as exposições é original e simples: Xiclet produz uma série de filipetas com xerox em papel sulfite colorido e distribui em vernissages de galerias conhecidas, atraindo o público dessas galerias para a sua própria.

A estratégia funciona e desde a primeira manifestação artística Xiclet não parou mais. Realizando quase que mensalmente uma nova exposição em sua casa, ela sempre adota um título provocativo, pois como ela mesma diz “é sem curadoria, sem seleção, sem jabá, sem entrada e sem juros”.

Atualmente, a galeria consta no Mapa das Artes, tem página na Internet e continua a todo vapor, sempre com o intuito de provocar e mostrar arte alternativa, artistas iniciantes, pessoas que expõe apenas no circuito underground paulistano – ou que não expõe em nenhum outro local a não ser na Casa da Xiclet.

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CASA DA XICLET GALERIA
Rua Fradique Coutinho, 1855 – Pinheiros- CEP.: 05416-012 – SP
ABERTA TODOS OS DIAS: das 14:00/21:00 H
Fone: 55 11 7314.4550 - 55 11 8420.8550
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Casa da Xiclet

Esse artigo foi publicado na Revista Paradoxo em 12/04/2006

Xiclet

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