Carta imaginária ao senhor selecionador de emprego
Prezado Senhor (ou senhores, ou ainda senhoras) Selecionador de emprego,
Acabei de passar as duas horas mais tediosas da minha vida, movida única e exclusivamente por uma força da natureza à qual, infelizmente, a despeito da minha condição de ser pensante, racional, bípede e, como diria Jorge Furtado, portador de telencéfalo desenvolvido e polegar opositor, não tenho como controlar: fome.
É fato de que existem outras forças da natureza às quais infelizmente sou subjugada, como sono, higiene e todas aquelas coisinhas que os seres pensantes e racionais são ainda vítimas mas não gostam de comentar a respeito e nomeiam de “escatologia”. Em resumo, graças à escatologia, acabei de desperdiçar duas horas do meu valioso tempo - posto que todo tempo vivo é valioso, é o único que temos - preenchendo uma ficha de solicitação de emprego ou como chamam mais modernamente, curriculum. Pessoalmente, considero o nome “ficha de solicitação de emprego” mais apropriado, embora nesses tempos de politicamente correto, convencinou-se chamar as coisas por nomes que soem mais prolixos e não ofensivos, lindos eufemismos para enfeitar o fato de que as coisas continuam a ser ofensivas, só que agora demos bonitos nomes a elas.
Em resumo, gastei duas horas para preencher o curriculum conforme solicitado no seu site.
O motivo da minha carta imaginária não é reclamar da empresa que o Senhor (ou senhores ou senhora) representa. Ao contrário, eu adoraria ter uma oportunidade de trabalho com os senhores (e senhoras). A questão que me vem à mente, entretanto, é se essa ficha de solicitação de emprego (ou curriculum) apesar da sofisticação que possui nesses tempos pós-modernos onde tudo é base de dados e tudo é online, é se realmente quem for ler essa ficha - ou curriculum - terá a dimensão de que tipo de profissional eu sou, da minha qualificação ou a mais remota idéia de quem sou eu.
Infelizmente, apesar de toda a sofisticação técnica, não acredito que isso vá acontecer. Novamente, reitero a minha imensa vontade de trabalhar com os senhores (e senhoras). Além da força escatológica que me move - estou aqui mastigando um sanduíche de salada com frango enquanto escrevo isso no meu computador, ah, as maravilhas da vida pós-moderna versus a necessidade escatológica dos seres vivos! - tenho profundo interesse pela empresa que os senhores (ou senhoras) representam. Adoraria trabalhar com vocês. Só que sua ficha de solicitação de emprego não me pareceu eficiente como cartão de visitas da minha pessoa ou como um bilhete de entrada na sua empresa.
Eu consegui rapidamente preencher as áreas da ficha que se referiam a “formação escolar e acadêmica” - até porque bastaram dois itens, graduação concluída e pós-graduação em andamento -; também consegui preencher satisfatoriamente a área que solicitava informações de trabalhos anteriores; bastaram uma meia dúzia de itens, até porque, na minha vida, tive poucos empregos formais e tive muitos empregos informais, fazendo o que se convencionou de chamar de free-lance - termo que, apesar de bonito, serve para nomear um desemprego forçado porque raras são hoje as empresas como a empresa dos senhores (e senhoras) que gostam de contratar as pessoas tendo que pagar todos aqueles impostos e direitos trabalhistas. Nesses tempos pós-modernos as empresas preferem que todos os ex-funcionários que agora se chamam “colaboradores” ou “profissionais liberais” tenham suas próprias empresas, emitam suas próprias notas fiscais, ainda que essas empresas sejam apenas um livro de registros que um contador controla e carimba, porque assim a lei manda.
Eu ocupei muito tempo preenchendo a área de sua ficha dedicada a informática. Fiquei surpresa com a quantidade e variedade de itens que podia adicionar e ao fato de que os itens eram adicionados um por um. Os senhores mostram uma grande preocupação em conhecer, nos mínimos detalhes, quantos e quais softwares as pessoas conhecem e em que nível de conhecimento.
A minha supresa tornou-se ainda maior quando percebi que o campo do formulário eletrônico dedicado a “outros” só permitia 175 caracteres. Eis o que é possível escrever com 175 caracteres:
“Daniela Castilho é designer, artista visual e diretora de arte. Gosta de cinema, de viajar e de ler.
Precisa comer e dormir. Precisa de um emprego. Tem contas para pagar.”
Eu acredito que posso dizer coisas mais interessantes a meu respeito do que isso.
Eu gostaria muito de ter tido a oportunidade de contar-lhes no campo “outros” como, durante a minha vida profissional até o momento, tive oportunidades únicas e maravilhosas - já trabalhei com editoras, gráficas, cinema publicitário, curta-metragem, internet, multimídia, com pessoas incríveis em grandes empresas. Se eu tivesse tido a oportunidade de relatar algumas das experiências que já vivi, tenho certeza de que os senhores (e senhoras) chegariam à conclusão de que eu sou uma profissional valiosíssima para qualquer empresa relacionada à minha área de atuação ter em seu quadro de funcionários - ou colaboradores, como preferirem.
Deixo aqui registrados meus pensamentos para que os senhores reflitam a respeito. Terminei de preencher a ficha cadastral e descobri que, apesar da empresa dos senhores e senhoras ser uma grande empresa, com muitos anos de atividade, com alguns milhares de funcionários e colaboradores, só está oferecendo duas vagas, uma de estagiário e outra de telemarketing ativo, ambas com salários reduzidos e a de telemarketing, através de uma cooperativa, baseado em resultados.
Uma pena.
Deixarei aos senhores a oportunidade de conhecer-me melhor como profissional para uma outra ocasião. Por favor, não deixem de entrar em contato.
Atenciosamente
Daniela Castilho
