O ritmo da tristeza
Eu nunca publiquei esse texto. Eu escrevi há tanto tempo que não tenho certeza quando foi. É pedaço de um texto muito maior, eu ainda não sei o que farei com ele. Mas esse pedaço aqui, eu resolvi compartilhar com vocês.
Precisei tanta coragem para publicar isso, vocês nem imaginam. E eu nem sei direito quem é que vai ler isso aqui. Será que vou me arrepender de compartilhar um pedacinho tão secreto que eu tenho? Será que vocês vão falar alguma coisa? Será que vão ficar aí quietinhos? Eu queria muito saber. Mas é tão difícil saber as coisas.
O ritmo da tristeza
Sei que essa descrição é estúpida. Descrições são sempre estúpidas.
Ele não tem muitos amigos, mas gosta de cães. Mora sozinho numa casa antiga reformada. Pelo que sei, não gosta muito de gente.
Eu entendo. Meus gatos foram a maior felicidade que eu já possuí na vida. E se foram.
O amor da minha vida é músico, compositor. É um amante de barulhos – como eu – e sabe escutar música nos mínimos ruídos, tic-tacs de relógios, o som do vento nas árvores. Sabe que vários sons aparentemente desconexos, quando combinados, formam música. Ao longo desses anos todos em que não nos conhecemos, tenho a impressão de que ele tem uma sinfonia única dentro de sua cabeça e que cada música que ele compartilha com as pessoas é um pedaço dessa sinfonia maior. Eu só o vi em pessoa uma vez na vida até hoje. Eu nunca vou esquecer essa única vez, porque naquela noite em que eu o vi e ouvi ao vivo, foi a noite mais feliz da minha vida.
Ele não sabe que eu existo, mas apesar disso, é o amor da minha vida – e eu sei disso - há quase vinte anos. Nesse tempo, suas músicas sempre foram a trilha sonora da minha vida – quantas pessoas podem dizer isso, que o amor da vida delas escreveu a trilha sonora da vida
delas?
Às vezes me pego imaginando que eu gostaria que ele visse a minha arte. Que eu gostaria de conhecê-lo em pessoa. Que eu diria à ele que a minha arte é a música dele em imagens. Que eu vejo isso, sei isso. Fico imaginando se isso diminuiria a solidão dele, que ele declara tantas e tantas vezes, ou o faria se sentir menos infeliz – ele vive contando sobre sua infelicidade. Mas nunca quis ir atrás desse encontro, porque tenho receio de não existir comunicação real. Porque não quero perder esse amor. É o amor da minha vida e isso é muito precioso para mim. Um dos maiores responsáveis por eu ainda estar aqui é ele.
Ainda que ele nem saiba que eu existo.
Eu estou no pós-morte. Sei que você ficou imaginando o que é isso, esse pós-morte. O pós-morte é um lugar estranho. É como se você estivesse vivo, mas você não está. Todos te tratam como se você estivesse vivo. Ainda se usa dinheiro, se compram coisas e se fazem dívidas. Também se trabalha e estuda. Parece que nada mudou, parece que você ainda está vivo – mas você não está. Você ainda tem todas aquelas coisas aborrecidas da vida, como necessidade de comer, de tomar banho, de morar em algum lugar, de dormir e quando dorme, ainda tem sonhos e pesadelos. Essa é uma das coisas mais difíceis do pós-morte: os sonhos. Todos os sonhos do pós-morte são com as coisas que você fazia e conhecia quando estava vivo, só que nenhuma delas, nem uma, está mais ali com você.
Eu devo confessar que as pessoas vivas me divertem, porque me tratam como se eu ainda estivesse viva. É muito fácil esconder das pessoas que você está morto. É tão fácil quanto esconder que você está louco – é impressionante como as pessoas não percebem a diferença entre sãos e loucos ou entre vivos e mortos. Se você anda, fala, respira, come, você está vivo, certo? Errado.
Meu segundo grande amor me conhece e eu à ele. Estamos eternamente unidos e separados. O tempo para nós não existe. Somos duas criaturas silenciosas isoladas em uma montanha. Essa montanha nós escolhemos após um segredo. Eu não posso contar esse segredo, infelizmente, envolve uma coisa que aconteceu conosco, um esquilo, uma casa na montanha e dois poetas.
O primeiro poeta é baiano e me é muito querido, é um grande amigo.
O segundo poeta é anônimo e desconhecido. Nós roubamos a casa da montanha do segundo poeta, embora o primeiro poeta também ame casas na montanha.
A nossa casa da montanha é imaginária – o que, considerando-se que estou no pós-morte, é indiferente. É uma linda e pequena casa, isolada das pessoas, cercada de nuvens e árvores. Faz algum tempo que eu não vou lá, o pós-morte me ocupa muito, mas de vez em quando eu converso com meu segundo amor. Ele é um Príncipe, crescido agora, não é mais o Menino pequeno e assustado que eu conheci há alguns anos atrás. Já é quase um Homem. É o único homem que eu deixo me chamar de “meu amor” - e me derreto toda quando ele faz isso. Não sei que tipo de homem ele vai ser, mas isso não é importante. O importante é que nós nos conhecemos, somos nós e esse amor é eterno. Mesmo no pós-morte.
Eu acho curioso que ninguém tenha percebido que eu estava louca quando eu estava louca. Não que eu não esteja mais louca agora – ou menos louca. Mas é curioso, ninguém percebia. E eu dizia com todas as letras: como você sabe, eu estou louca. Ainda assim, ninguém percebia. Imagino que estivessem todos muito ocupados ou em estado de negação, não sei.
Já a ex-pessoa-oficial-com-todos-os-papéis, aquele-de-quem-fui-refém, bradava com ira sanguínea que eu estava louca. Claro, esse é o cara para quem eu telefonei uma tarde e disse:
- Minha avó morreu.
E ele respondeu:
- Aqui também está morrendo todo mundo.
Mas a louca era eu, não ele.
A minha vida é totalmente estúpida. A maior parte das vidas das pessoas é estúpida, eu sei disso. É um vai e vem em ônibus, carro, metrô para ir a um lugar que você não quer ir, passar o dia inteiro nesse lugar falando com pessoas de quem você não gosta, terminar o dia ainda nesse mesmo lugar para pegar novamente o ônibus, o carro ou o metrô e ir para casa espremido entre um monte de outras pessoas que você não conhece, chegar em casa, comer uma comida mais ou menos, assistir alguma coisa idiota na TV e ir dormir.
A vida é estúpida.
Mas as pessoas passam a vida sonhando, essa é que é a verdade. Sonhando com lugares melhores, mais bonitos, pessoas mais bonitas, felizes e inteligentes, com uma vida que não é aquela. Menos no pós-morte porque como eu já disse, no pós-morte você só sonha com a vida que viveu.
O tempo em que durou a minha pena foi o período onde meu amor-músico foi mais importante para mim. O erro foi cometido pela outra pessoa mas eu tive que pagar a pena junto. Parecia que jamais terminaria, parecia uma sentença eterna. Eu só tinha duas alegrias na vida: meus gatos e meu amor-músico. Só estou aqui por causa dele. Eu não estava só, eu tinha toda aquela música. E hoje, quando moro sozinha sem meus queridos preciosos gatos, toda essa música ainda me mantém um pouco viva. Mesmo no pós-morte.
Ainda estou aqui, apenas, por causa de toda aquela música.
Tá, eu sei por que eu decidi publicar isso. Por causa do meu amor-músico que me acompanhou a semana toda e porque eu finalmente dei o roteiro do “Abismo” para uma pessoa ler, um ator.
Dar o Abismo na versão final para alguém ler mexeu comigo, sem dúvida. O Abismo estava dentro de mim e eu olhava para ele, sem me mover. Não sabia o que fazer com ele. O Abismo é todos-os-meus-amores, os que foram, os que não foram e os que poderiam ser. É todo o desentendimento do mundo.
Ainda bem que eu ainda tenho toda aquela música.

February 6th, 2007 em 12:11 pm
[...] em que somos imortais - eu tenho sorte, fui imortal até os 35 anos de idade e então, como eu já expliquei anteriormente, eu morri e essa morte foi libertadora - e então nos despreocupar e só fazer o que queremos [...]