O diário secreto
Em 2003 e 2004, devido a uma série de eventos caóticos na minha vida, eu mantive dois diários secretos - um não era tão secreto assim, o outro era totalmente secreto. Eu não me identificava como eu mesma neles, usava pseudônimo. Nunca tinha feito nada assim - a melhor coisa que podemos ser é nós mesmos, ou nas palavras de Oscar Wilde - “Be yourself; everyone else is already taken.”
Aconteceram muitas coisas e eu escrevia e fazia notas. Hoje, por causa de um email de um grande amigo meu que bebe chá por aqui há muito tempo, eu abri esse diário. Reli. Tem muitos textos da época do meu trigésimo sétimo aniversário. Apenas 3 anos, parecem milhões de anos! Foi ótimo.
Primeiro, eu não tenho a menor idéia de onde foram parar os sentimentos que fizeram nascer aqueles textos. Evaporaram. Para ser mais precisa, enquanto eu relia, eu nem sabia distinguir exatamente que sentimentos um dia existiram por trás daqueles textos, alguns fatos eu não lembro mais - tem um lindo texto contando de um passeio que eu fiz perto da minha antiga casa de infância com um amigo, eu não lembro do passeio e muito menos de quem é que estava comigo, que coisa! - alguns textos estavam muito estranhos para mim - tanto no sentido de “desconhecidos” quanto “esquisitos”, esquisito é uma palavra que é usada como adjetivo para “belo” em outras línguas latinas.
Tem tanta coisa bonita escrita ali. Adorei olhar esse espelho do passado, esse reflexo de mim mesma em textos. É um reflexo bonito.
Em 22 de dezembro de 2003 eu postei um fragmento curioso: “Eu li em algum lugar que quanto mais avançamos na idade mais detalhados e ricos nossos sonhos se tornam e que a nossa memória é perfeita, impecável, todas as lembranças, imagens que vimos, tudo está guardado em nossas mentes, ainda que quando acordados não nos recordemos de tudo. Eu tenho uma relação riquíssima com meus próprios sonhos, eles são detalhados, possuem trilha sonora, odores, luzes, céus. São maravilhosos, e muitas vezes eu os transformo em textos e pinturas, porque não consigo desperdiçá-los. Eu tenho essa crença curiosa de que se você está expressando a si mesmo, não importa qual o meio da expressão, estará correto. Podemos discutir a precisão da expressão - por vezes as pessoas utilizam códigos pessoais, transformando a mensagem em mensagem encriptada - outras pessoas que lerem ou verem terão dificuldade de apreender o significado mas ainda assim, o significado estará lá, a essência estará lá, sempre brilhando como uma pequena luz, para quem quiser realmente compreender. O importante, é expressar a si mesmo.”
É verdadeiro. Os meus sonhos estão cada vez mais precisos. Será que no final da vida, confundimos sonho e realidade e eles se tornam um só? Vou adorar isso.
Outra passagem:
“Ontem o D me perguntou por que eu continuo falando com você. E eu pensei, pensei, pensei. Eu podia dizer milhares de coisas. Mas a única verdadeira é: porque eu estou no mundo a passeio. E porque viver com intensidade sempre foi a única coisa que eu acreditei, desde criança, que valia a pena fazer. Você possui apenas aquilo que não perderá com a morte; tudo o mais é ilusão. Isso é zen, eu acredito nisso.”
Achei um desenho postado também. Eu me lembro desse desenho, eu mesma fiz. Não imaginava que ainda existisse online.
O mais interessante nessa releitura do passado foi constatar, pela milésima vez, que eu sou eu mesma. A mesmíssima, em texto, pensamento. Adorei.
Se vocês forem bonzinhos, ou se eu tiver coragem bastante, talvez eu revele um ou dois textos desses para vocês.
