O pianista silencioso
Ele foi encontrado em meados de abril, vestido com um terno elegante, camisa branca, gravata, sapatos caros, em uma estrada próxima à praia. Estava totalmente enxarcado, como se tivesse ficado na chuva por horas ou tivesse sobrevivido a um naufrágio - nos dias anteriores, uma grande tempestade tinha desabado na região. Não existiam etiquetas nas roupas para auxiliar a identificar sua origem: estavam cortadas. Ele parece ter entre 20 e 30 anos de idade, é alto e magro, loiro, olhos castanhos. Não falou nada. A expressão do rosto é triste, assustada. O rapaz parece ter sofrido um profundo trauma que causou mutismo e uma aparente amnésia.

Alguma coisa aconteceu com esse rapaz, mas ninguém sabe o quê.
Estando no hospital, o rapaz continuou silencioso, apesar de aparentemente compreender inglês. Deram-lhe caneta e papel. Ele desenhou uma bandeira com uma cruz e um piano de cauda. Levaram-no até um piano, na capela do hospital. Ele sentou-se e tocou por quatro horas, ininterruptamente, esquecido das pessoas em volta dele. Os funcionários do hospital não sabem dizer o que ele tocou, mas com certeza era uma peça clássica, de forma profissional.

Alguns dizem que tocou como um virtuoso, outros, que apenas tocou bem. O capelão da igreja disse que ele não toca tão bem assim, a ponto de ser considerado um músico de orquestra, não.
O hospital enviou mensagens às orquestras européias. Colocaram fotos suas em todos os jornais e na internet. Em uma das fotos ele olha desconfiado, vestido com o terno e a camisa branca, o cabelo loiro e arrepiado, a barba por fazer. Na segunda foto está vestido de pijama e abraçado a um travesseiro. O olhar continua assustado, embora olhe diretamente para a câmera. O serviço de pessoas desaparecidas recebeu centenas de telefonemas e e-mails, mas ninguém conseguiu identificá-lo.
Será que ele estava a bordo de um iate e após o concerto, o marido ciumento de alguma admiradora ardorosa o empurrou para o oceano?
Na Itália, um imigrante polonês ilegal abordou um policial na rua, com um jornal na mão onde se via uma reportagem sobre o pianista e disse que conhecia o rapaz. Uma pista veio de Sussex. A polícia continuou a investigar.
Ou talvez, após um concerto em um elegante teatro, o amor de sua vida disse-lhe, entre lágrimas, que iria se casar com um nobre inglês, em um casamento de conveniência. Transtornado, o pianista caminhou a noite toda sob a tempestade, até ser encontrado, na manhã seguinte, amnésico.
O silencioso pianista continuou desenhando pianos. Colocaram um teclado eletrônico em seu quarto. Ele ecreveu diversas partituras, reproduziu parte do “Lago dos Cisnes” e outras músicas não identificadas. Especulou-se que são obras criadas por ele mesmo. Ele caminhava diariamente pelos jardins do hospital com suas partituras na mão. Ele não quis assitir tv nem escutar rádio, parece querer apenas ficar imerso na música, tocando ou escrevendo. Às vezes, ele chorava, sozinho em seu quarto.
O assistente social que estava cuidando do caso disse que iriam verificar as poucas pistas que a polícia tem até o momento, que o rapaz não poderia ser liberado, pois sua condição ainda é muito delicada - “Someone, somewhere must be missing him” - disse o assistente social, muito grave, aos repórteres que freneticamente cobriam a história.
Será que alguma bela enfermeira irá se apaixonar pelo triste rapaz?
Os meses passaram. Ninguém conseguiu descobrir nada. E então, o escândalo.
Cansado de seu próprio mutismo, o homem finalmente falou com uma enfermeira. Disse que é alemão, que o pai tem uma fazenda na Baviera, que trabalhava em Paris com pacientes de um hospital psiquiátrico, que perdeu o emprego, que tinha ido para o Reino Unido de trem e que se dirigira à praia pensando em suicídio.
Fim do mistério. O homem do piano retornou à Baviera.
A polícia salvou-lhe a vida. O hospital cuidou dele. Agora todos querem processá-lo.
Obrigada ao Rafael, que me mandou a história e ao Wagner, que publicou um texto sobre o assunto em seu blog.

August 24th, 2005 em 11:25 am
Desde o dia que a notícia foi veiculada venho acompanhado esse cidadão e sua história. Tinha pra mim que era alguma coisa relacionada com uma fuga romântica em pleno século do hiper-realismo, texto e link. Uma coisa antiquada. Tanto é que vão processá-lo até ele ficar cansado de apanhar. Se é que ele liga pra isso.
Eu , creio, que consigo entender esse comportamento. O mundo, as pessoas, são via de regra muito agressivos, muito mesmo e em todas as circunstâncias. Quando se precisa de um tempo , de um recolhimento mais interior, muitas vezes seguimos como autômatos e seguimos operando em “modo de segurança”. Para ele não foi suficiente. Era demais. Foi demais. Passado um tempo, suspende-se o “modo de segurança” e volta-se após o reiniciar. Compreende?
August 24th, 2005 em 4:06 pm
Até agora não sabemos se foi uma simulação ou ele simplesmente despertou de um estado de amnésia pior do que está atualmente (ele diz que não lembra como chegou à Inglaterra).
De qualquer forma, uma linda história. Mesmo que ele tenha simulado isso, o fez porque estava precisando. Processar uma pessoa que precisava realmente de ajuda é ridículo.