Saturday, May 17, 2008

Caligari, Tim Burton e o Peixe Grande

Assisti Peixe Grande esse final de semana. Gosto muitíssimo de Tim Burton desde que assisti Beetle Juice, nos idos dos anos 80. Tim Burton é um grande narrador de contos de fadas adultos. Ele consegue misturar de forma extremamente competente em seus filmes o fascínio e o encantamento de histórias mágicas misturadas aos temores subconscientes do ser humano.

Sejamos honestos: Tim Burton não inventou um estilo visual. Aquele estilo visual tortuoso, cheio de texturas e claro-escuros de vários de seus filmes não é uma invenção dele. Ele bebeu na fonte do Expressionismo Alemão, mais precisamente em “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920).

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“O Gabinete do Dr. Caligari”- 1920

Burton, entretanto, não copiou simplesmente o expressionismo alemão, ele compreendeu o estilo e a forma, adaptou-o, acrescentou tecnologia e experimentalizou esse estilo visual mesclado a outros elementos do gótico e do romântico. Esse universo visual burtoniano pode ser observado em vários filmes: Batman, Edward Scissorhands, Batman Returns, Nightmare Before Christmas ou ainda, Sleep Hollow.

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Sleep Hollow

Depois de tantos filmes, era natural esperar-se uma evolução. A primeira ousadia visual de Burton numa direção diferente veio em O Planeta dos Macacos. Muitos fãs odiaram o filme, justamente porque tinham se habituado ao gótico-expressionista que vinha se transformando em um cliché burtoniano - e não compreenderam que o estilo visual já estava esgotado e se tornando cansativo.

Em Peixe Grande, Burton mostra como amadureceu seus elementos visuais e sua narrativa fantástica, sem perder estilo e enriquecido com a experiência.

Peixe Grande é a história de um homem que tem uma visão peculiar de mundo. O filho desse homem, menos imaginativo que o pai, passa a vida acreditando que o pai é um grande mentiroso, que inventa histórias, que vive num universo de fantasia inventado por ele próprio. Pior que isso, o filho se ressente com o fato do pai ser sempre o centro das atenções das pessoas contando suas histórias “inventadas”. Na sua visão dos fatos, o pai inventa essas histórias justamente para chamar atenção para si. Somente com o final da vida do pai, doente numa cama de hospital, o filho irá compreender que o que ele classificava como mentiras e invenções eram na verdade a maneira peculiar e pessoal do pai ver e entender o mundo e as pessoas e irá perceber como o pai, na verdade, amava o mundo, as pessoas e seu próprio filho.

É um belíssimo filme. Cores brilhantes, luz solar, somados ao gótico-expressionista burtoniano. As árvores tortuosas ainda estão lá, bem como a atmosfera sombria e os claro-escuros, mas pontos luminosos brilham coloridos em meio à paisagem nebulosa, que por vezes se abre totalmente e se transforma em pinturas expressionistas inundadas de luz e cor.

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Big Fish

Maravilhoso.

Ainda não fui assistir a Fábrica de Chocolate. Deve ser um filme muito interessante, embora os trailers que assisti me levem a acreditar que Burton retornou um pouco ao terreno seguro, ao visual e clima mais sombrios. Há cores brilhantes, há um clima de “Alice” - uma Alice pesada e cyberpunk, à la America McGee, veja bem, não a Alice surreal e leve de Lewis Carroll - mas definitivamente, não é um filme com a mesma leveza e lirismo visual de Peixe Grande.

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A Fábrica de Chocolate

É natural que Tim Burton tenha retomado sua própria origem estética depois de ter se arriscado a uma completa nova linguagem visual. Voltamos para casa, sempre, enquanto ainda não consideramos o novo universo que criamos como um novo lar. Precisamos dessa pequena sensação de segurança, depois de um vôo arriscado. Arte não é brinquedo, nos altera profundamente, nos desnuda, nos faz questionar a nós mesmos.

Vou assistir a Fábrica de Chocolate e volto a comentar com vocês. E ficarei aguardando os próximos filmes de Burton. Veremos onde o diretor se atreve a ir esteticamente. Mal posso esperar.

Tem uma pessoa tomando chá sozinha... em “Caligari, Tim Burton e o Peixe Grande”

  1. Erwin Maack bebe chá e diz:

    “O segredo da felicidade está em se sentir feliz agora.”
    Um grande lamento. Um lamento para a oportunidade perdida de homenagear o pai enquanto vivo. Um sonhador sempre paga um preço muito alto pela sua atitude. Vamos ver Cervantes e Flaubert?
    Ambos sonhadores em épocas diferentes, pertencentes a escolas literárias diferentes – ah… mania nossa de catalogar; quanto medo - disseram o mesmo quando lhe perguntaram a fonte de inspiração de sua obra: “Mme. Bovary ces’t moi”.
    Assim, creio que o Tim Burton diria a mesma coisa se lhe perguntassem algo semelhante. “A arte não é algo destinado a nos dar ânimo e autoconfiança com gentileza. A arte não é uma brassière. Pelo menos não no sentido inglês (sutiã), mas não se esqueça de que brassière é colete salva vidas em francês.”
    Esses pensamentos me assaltaram hoje pela manhã após ter ficado muito impressionado e emocionado com a leitura da crônica ontem. Nada mais havia a ser escrito. Só impressões sem juízo ou atrevidas. Parabéns.

Beba o chá e fale alguma coisa: