Frase para vários dias
Entre a fumaça do café e cigarros, uma pessoa linda falou mais ou menos o seguinte, para mim, no final de tarde do domingo:
“Não deixe a imagem da ‘mulher de 40′ esmagar você. É cliché. Subverta essa imagem, vença essa imagem. Você é uma mulher linda, subverta a imagem da mulher de 40.”
Okay, okay, vocês venceram. Quando em menos de 72 horas TRÊS pessoas diferentes, todas especiais, inteligentes e lindas dizem isso pra você, é porque está mais do que na hora de acreditar. Vocês venceram, meninos. Eu fico pequenina, muito obrigada pelo imenso privilégio.
Nota posterior reflexiva e muda: aumentem a conta para quatro, por favor…
Eu queria contar uma coisa, mas é segredo e nem é um segredo meu, eu não posso contar segredos alheios, só os meus, então vou resumir, vou dar uma versão editada.
Eu tenho um amigo lindo, lindo, que não sabe que é lindo, mas parece que está finalmente descobrindo que é. Esse meu amigo lindo, lindo, tem trocado emails muito especiais comigo há mais ou menos uns dois meses. Ele não sabe, porque às vezes me falta coragem para falar mais de mim mesma, mas os emails dele têm me feito refletir sobre mim mesma - somos todos espelhos para outras pessoas, todas as pessoas são espelhos para nós, o ser humano tem essa constante relação de projeção, Caverna de Platão, nós nos vemos refletidos no olhar do outros, os outros se vêem refletidos no nosso olhar.
Nessa reflexão nos olhos do F eu me vejo especial, linda. E eu fui impiedosa com ele na troca de emails, porque ele estava sofrendo tanto (de amor) e eu não suporto ver ninguém sofrer, eu preciso falar o que eu penso, eu tenho ganas de sacudir a pessoa pelos ombros e dizer “não seja refém, não seja refém! Eu fui refém durante muitos anos, ser refém destrói você devagarzinho por dentro, como uma gota de água consumindo uma rocha”. (É como naquele conto que eu escrevi, M, sobre o funeral que eu participei quando eu tinha 16 anos, mesmo o tempo e a idade tendo me transformado numa pessoa muito mais tranquila e racional, de vez em quando aquela “vespa furiosa” se manifesta, eu amei encontrar isso vivo dentro de mim, tão por acidente, eu amei descobrir que o meu lado “vespa furiosa” ainda se manifesta, especialmente quando pessoas que eu amo estão em jogo, e ontem eu tive total certeza de que isso não está errado, não é errado amar as pessoas - tem sempre alguém tentando me fazer acreditar que é errado amar as pessoas mas não é - e não é errado defendê-las, especialmente se você tem o poder de defendê-las).
Eu dei em F uma espécie de “chacoalhão” verbal em vários emails. Quando lia os emails dele eu pensava na Caverna de Platão, no sofrimento dele. Não consegui resistir e falei o que penso.
Meu amigo me agradeceu por ser “impiedosa” - palavra que ele usou. Meu amigo é mais meu amigo do que quando começamos a ser amigos. Meu amigo me vê linda.
O tempo todo eu sentia uma imensa responsabilidade.
Claro, não vai fazer muito sentido para a maioria de vocês, porque vocês não sabem nem um terço do que tem acontecido comigo, mas tentando contar uma versão editada, eu tive que tomar muitas decisões importantes essa semana, todas elas envolvendo pessoas que eu gosto, pessoas com quem estou trabalhando, pessoas que são meus amigos.
Daí vou ter que lembrar do mesmo amigo com quem tomei café ontem, T, que também tem essa “impiedade” - a “impiedade” dele brilha nos olhos e ele tem um lindo sorriso de menino que eu aposto, ele não sabe que tem, mas é de família, o irmão dele tem o mesmo sorriso lindo e doce. É poética essa imagem daqueles olhos impiedosos em contraste com o sorriso.
T disse para mim, em outro dia que tomávamos café que eu estava acreditando naquela coisa de ser “responsável por quem cativas” e me espinafrou totalmente, com aquele jeito-Beethoven-de-ser que ele tem. As frases dele são de espatifar as vidraças.
É, você está certo. Eu me sinto responsável pelas pessoas. Eu sempre me senti.
Mas eu hoje posso reafirmar que é uma responsabilidade que eu aceito, com a qual posso viver. E é maior que a frase de Antoine - lembram de Antoine, que falava de rosas, espinhos, raposas e para quem uma vez eu escrevi uma carta? - Antoine acreditava que a responsabilidade se resumia “às pessoas que cativamos” e hoje, com passarinhos cantando na janela, nessa manhã nublada eu posso dizer em bom som: a responsabilidade precisa ser com todas as pessoas, não apenas as que gostam de nós. Cada um de nós tem o poder da borboleta atravessando o silêncio.
E John Cage têm razão, silêncio também é música.
Ontem eu senti isso de forma profunda, ao ter minha linda equipe de cinema trabalhando comigo de forma tão concentrada, harmoniosa, responsável - e eu, na posição privilegiada, porque eu via a beleza nos olhos de quem vê. Eu regi aquela orquestra talentosa, eu assisti aquela orquestra talentosa. É um privilégio. Eu tenho grandes responsabilidades porque me são concedidos grandes privilégios.
E aqui, façam uma borboleta atravessar a sala, em silêncio.
Chega, esse chá adoçou demais. Eu tenho mil coisas pra fazer.
