Saturday, May 17, 2008

O que você vai ser quando crescer?

Estou pensando nesse texto há algumas semanas. A idéia começou quando li, novamente, que estavam prestes a soltar uma legislação para regulamentar a profissão de designer e que a faculdade escolhida para ser a “faculdade padrão” que “oficializa” a profissão de design seria Desenho Industrial.

Não sei quem definiu que “design” no Brasil é “desenho” e muito menos “industrial” mas é uma definição inadequada. Traduzir “design” como “desenho” ainda dá para aceitar - usando-se uma certa boa vontade, claro - mas por que “industrial”? Todos os designers que consideram que design é uma forma artística ficarão obrigados a ficar quietos, acabará a discussão tão frutífera sobre arte versus design: se design é industrial, então não é artístico por definição, ponto final. As pessoas que fazem faculdade de Artes Plásticas e depois vão trabalhar com design gráfico ficarão em uma situação complicada, afinal, design não é arte, é indústria. O pior nem é isso - porque, novamente, o problema não é quem tem o diploma A ou B, aposto que com “oficialização” e tudo muitas pessoas de diferentes diplomas, como os arquitetos, por exemplo, continuarão a trabalhar como designers gráficos, webdesigners, decoradores e paisagistas mesmo com as profissão de designer “oficialmente” definida como sendo pertencente à quem é formado no curso de “desenho industrial”. O pior é que novamente irá se definir alguma coisa que vem sido discutida há mais de 30 anos a canetadas, como tudo no Brasil. Essas canetadas geralmente são “proclamadas” por pessoas que não parecem saber muito sobre o que estão “proclamando”. Historicamente é assim, quando as “autoridades” percebem que não vai mais ter jeito a não ser ceder, canetam lá do jeito deles, geralmente, de forma diferente e inadequada ao que as pessoas realmente queriam. Mas vamos aguardar. Uma juíza a quem parece ter restado um pouco de bom senso considerou que a forma com a qual estavam redigindo a mencionada lei de regulamentação estava inapropriada e vetou. Vamos ver o que acontece a seguir.

E falando sobre profissões, resolvi mudar a minha. Tenho sido designer e diretora de arte por tempo demais. Acordei hoje de manhã com uma inspiração divina e descobri a minha verdadeira vocação: vou ser neurocirurgiã. É isso mesmo. Não sei como não percebi isso antes, para ser sincera. Eu deveria ter notado. Desde pequena tenho talento para fazer curativos, quando uma criança caía e ralava o joelho, por exemplo, eu corria a buscar a água oxigenada e a gaze. Outra dica sobre o meu incrível e inegável talento para neurocirurgiã é ter tido calma e frieza para socorrer um amigo quando ele sofreu um acidente de carro: ele bateu a cabeça e eu não deixei ninguém mexer nele antes do socorro chegar. Não é óbvio o meu talento natural para a coisa?

Por isso, a partir de amanhã, estarei procurando um emprego de neurocirurgiã em qualquer hospital. Afinal, para seguir uma “vocação” basta o talento natural e isso eu percebi que tenho de sobra. O resto são detalhes e eu posso resolver com um desses cursinhos de “faça você mesmo” ou mesmo comprando um manual. Hoje em dia tem manual de tudo, deve ter um tipo “aprenda cirurgia cerebral em doze lições”. Ou então um curso online, com certificado! Deve ter. O importante é eu ter descoberto o meu incrível talento, que não havia percebido que existia dentro de mim por quase 40 anos e sair trabalhando na área, oras. Afinal, que dificuldade pode existir? Pra que estudar mais de uma década como eu vejo tantas pessoas, fazer medicina e tudo mais? A vida me preparou para ser neurocirurgiã. O resto é bobagem.

Sabem o que é mais curioso? É que eu ouço esse tipo de argumento com razoável freqüência, mas claro, nunca aplicada a cirurgia cerebral. Ninguém acorda um dia e fala “heureca, descobri que sou neurocirurgião, que me preparei para isso toda minha vida, sou um talento natural”. Mas muita gente fala esse tipo de coisa sobre ser designer, diretor de arte, artista, cineasta, escritor, roteirista, poeta.

Um belo dia o cara simplesmente acorda poeta, compra um caderninho, um lápis, sai escrevendo versos tortuosos e fazendo planos de publicar um livro. Afinal, como ele não percebeu antes se era um talento tão óbvio? A vida toda ele se preparou para isso, desde a alfabetização. E que mais um poeta necessita além de ser alfabetizado, oras bolas?

2 Chás servidos em “O que você vai ser quando crescer?”

  1. luciamalla bebe chá e diz:

    Oi, DaniCast! Estou estreando minha participacao “comentarial” em sua nova casa de chah. Gostei muito do novo visual, estah de parabens!
    Agora vou provar uns biscoitinhos novos ali na coluna da esquerda… ;-)
    Beijos.

  2. Erwin Maack bebe chá e diz:

    Oi Dani, bom dia.
    Nós brasileiros temos uma mania que é quase incorrigível. Se existe algum problema, façamos uma lei para resolvê-lo. Daí, pronto, nada mais acontecerá pois a lei - quando é boa - prevê todos os aspectos do “causo”. Apenas fica uma pequena questão remanescente. Ninguém a obedece, pois não é fruto de um mínimo consenso social, geralmente é coisa de iluminado. Infelizmente só a coesão social dá eficácia. Ninguém mais. Nem decreto, nem medida provisória, nem nada.
    Que poderíamos dizer então das legislações definidoras das profissões ?Daquelas mais antigas já estão estebelecidas normas e condutas frutos da prática e não geram muitas controvérsias. Já as mais recentes, é um castigo. Fica um fogo cruzado terrível.
    Temos dez quilos de legislação federal por ano que poucos conhecem e ninguém (quase) obedece. Viva as ordenações Manuelinas. Temos a melhor legislação ambiental do planeta, que foi feita com base nas melhores do mundo. Será que alguém conhece e obedece ?
    O melhor seria legislarmos sobre tamanhos de cuecas, para evitar mais caixa dois, com menores os prejuízos seriam menores. As nossas são muito grandes, e é essa origem da nosso problema.
    Bjos.

Beba o chá e fale alguma coisa: