Visão enviesada
“Um psiquiatra com quem converso me disse que a maior parte de nossa atividade cerebral está relacionada a limitar nossas impressões. Recebemos impressões demais e o cérebro está encarregado de atenuar tudo. O problema, portanto, com ‘pessoas como você’, como ele diz, - e tenho certeza de que ele quer dizer pessoas como eu e você - é que temos ‘filtros inadequados’. Em outras palavras, nossos cérebros não filtram bem, impressões demais são registradas. Digamos que as nossas impressões sejam um buraco em um pedaço de papel através do qual podemos olhar. Há diversas perfurações em torno do buraco, e podemos observar diversos lugares que nos são muito desagradáveis, em termos pessoais, lugares que, nos termos que o psiquiatra propõe, pessoas com bons filtros não vêem. Esses podem ser os lugares que mostramos em nossos filmes, que podem parecer experimentais aos olhos dos outros. Mas a ‘única’ questão é que temos maus filtros. Conseguimos olhar através da folha de papel. Estamos olhando há muito tempo. É por isso, igualmente, que você se torna capaz de criar coisas interessantes de olhar. É como propiciar aos espectadores um pequeno vislumbre de coisas mais fantásticas.”
- Entrevista com Lars Von Trier, na Folha

Fotos de Dogville - 2003

September 1st, 2005 em 7:13 pm
Este filme tráz mesmo uma visão deveras desagradável.
Meu filtro está cheio de retalhos.
September 2nd, 2005 em 9:12 am
Que maravilhoso paradoxo somos nós humanos.
Esse filme quando lançado disputou o prêmio do mais amado e odiado. Ora num lado, ora noutro.
Para mim foi uma das mais maravilhosas experiências estéticas que senti nos últimos tempos. Tempos em que o cinema não sabia para que lado andar. Ou melhor, que andava sempre para um mesmo lado.
Sou um apreciador de cinema desde há muito tempo. E aprendi a ver imagens de cada país como um reflexo do homem local, uma maneira de “ler” o caráter de cada um deles.
Vemos o italiano com as cores vívidas, as situações cômicas ou trágicas, mas sempre abordadas com muita doçura, mesmo na catástrofe. Amacord é um exemplo maravilhoso disso, sem falar em outras comédias de situações, com tantas verdades escondidas ou mesmo no sério e fantástico Vittorio de Sicca. O espanhol é a mesma cor, porém com um leve toque de seriedade, um tanto falsa e histriônica. O francês é o “Descartes” ou “Pascal” do cinema, racional, cerebrino, um grande sendo de equidade nas cores e na busca profunda do sentido dos sentimentos (sempre deixa um traço em negrito da sua emoção). Se formos subindo pela Alemanha, nota-se que a linguagem vai ficando mais dura, mais seca, mais tórrida, apesar do frio. O toque do romântico é imbatível, permanece em tudo, quase tudo. Os personagens carregam caravelas pelos Andes e crêem que isso é a coisa mais natural do mundo. Subamos mais e chegaremos à Escandinávia. As coisas ficam mais claras, tudo aquilo que nos distrai, cor, movimento, situação vai ficando mais e mais parado e centramos o interesse principal no diálogo, na conversa dura, franca, direta, cáustica. Cada filme de Ingmar Bergman é um tratado. Difícil. É o que posso dizer. Complexo. Com uma série de informações que nos deixam grudados na tela com horror ou amor. Tudo o aparato técnico é perfeito, mas nada nos distrai.
Era esse o “Lars Von Trier” que habitava minha mente quando comecei assistir ao filme. Isso foi sendo admiravelmente destruído com o passar do tempo e fui me incorporando ao personagem feminino de uma maneira devastadora. Emocionei-me, senti toda a espoliação pela qual ela passou, alguma coisa como uma leitura de um romance de “formação” da minha vida estava se desenrolando na tela. Já tinha visto algumas experiências similares que foram criticadas por serem teatro filmado. Ele conseguiu trazer muitos sentimentos, conversas, situações, cores e cenário sem nenhuma distração, tudo harmoniosamente conjugado para tirar o máximo proveito da história. Não conseguimos ver nada, não percebemos nada, quase nada; apenas o ator, a atriz, o processo interior de desagregação, de desânimo, ficamos com uma história completa da idiotice humana como dizia Voltaire.
E entendemos por que alguém falou que: Para ser feliz basta ser egoísta, alienado, e com boa saúde.
Já havia visto alguma coisa dele antes. Mas para mim foi uma grande surpresa, o filme, a discussão e as reações que ele causou. Mais uma vez, parabéns Dani. Parabéns.
September 2nd, 2005 em 7:19 pm
Me pergunto se com o som rola a mesma coisa…
Eu devia estudar psicoacústica…