Friday, July 4, 2008

A beleza nos olhos de quem vê

Leio o artigo da minha amiga Ana Elisa Ribeiro, a quem leio sempre e admiro muito e uma nota dissonante fica ressoando na minha mente inquieta, discordando. Passo alguns dias, releio. A nota discordante continua lá. Eu preciso escrever porque eu tenho uma visão diferente da dela sobre a falta de visão física.

Eu me recordo de que durante algum tempo sonhei em fazer a famosa cirurgia de miopia. As pessoas me perguntavam se eu não queria enxergar direito, enxergar corretamente, como uma pessoa normal. E eu ficava com esses finais de frase ecoando, enxergar direito, corretamente, normal.

A minha miopia se manifestou a primeira vez quando eu tinha uns cinco anos de idade e estava aprendendo a ler. A professora descobriu porque a minha escrita nos cadernos de caligrafia ocupavam o dobro das linhas necessárias e eu precisava sentar-me bem na frente para poder ler o que estava na lousa. Fomos ao oftalmologista da família, Dr. José Carlos Gouvêia Pacheco, eu e minha mãe. Dr. Pacheco atendia minha avó, minha mãe e minha tia há anos. Um senhor adorável, com um óculos de fundo de garrafa e uma risada contagiante. Saí de lá com uma receita para um óculos de três graus.

No ano seguinte, seis graus. No outro ano, nove. E no seguinte, dez. Aos onze anos de idade eu tinha onze graus. Eu tenho um tipo de miopia chamada miopia degenerativa. A miopia aumenta sem parar, até… até.

Aqui entra meu pai na história. Meu pai era um lutador incansável. Se o prognóstico era pessimista, meu pai enfrentava. Quanto pior, melhor pra ele. Enfrentava dobrado. Passei a infância tomando vitamina A, comendo cenoura, fazendo exercícios para a musculatura ocular (os músculos que movimentam os olhos e o importante músculo que controla a abertura da pupila), dispensada da educação física para evitar acidentes, que poderiam causar um descolamento de retina e a temível cegueira. Para compensar, meu pai me colocou para fazer balé. Dr. Pacheco sorria para mim a cada exame e dizia - eu tenho certeza de que não vai adiantar eu te pedir para não ler, então assista pouca televisão, ok?

O prognóstico começou a melhorar. Dr. Pacheco me disse que eu precisava manter a atitude até os vinte e cinco anos, quando o risco da miopia continuar a aumentar deixaria de existir, porque paramos de crescer totalmente nessa idade.

Durante toda a minha infância usei os famosos óculos de tartaruga com lentes de acrílico, inquebráveis. Eram pavorosos. As crianças da escola me aborreciam, faziam piada. Eu respondia, durona. Defendia meu direito de enxergar.

Aos treze anos comecei a usar lentes de contato gelatinosas. Por exigência do meu olho, precisei usar exatamente o grau do óculos, porque não enxergava nada se usasse o grau indicado na tabela de equivalência, que tira uns dois graus da correção. Não tinha dificuldade nenhuma com as lentes, nenhum problema. Eu sou uma criatura de hábitos, sou muito disciplinada. Cuidava da lente como manda o manual, nunca tive um fungo, uma conjuntivite, nada. E usar lentes de contato naquela época significava ter que fervê-la num artefato especial elétrico, usar uns cinco produtos químicos diferentes. Eu não me importava. Finalmente podia ler os outdoors da rua e exibir meus olhos verdes.

Quando completei vinte e cinco anos de idade, dei uma grande festa. Estava com doze graus de miopia. Eu era designer, produzia revistas, fotografava. Fui co-autora de um curso de fotografia patrocinado pela Kodak através do IUBRA, com um fotógrafo chamado José Carlos Schmid, que se tornou meu amigo e me ensinou vários truques técnicos para eu superar a minha natural dificuldade de obter foco nas fotos.

Aos vinte e nove anos, mandei fazer um óculos pequeno e lindo, moderno, com lentes escuras acopladas por ímã para compensar todos os óculos feios da infância. As lentes dos meus óculos são um pequeno fenômeno de tecnologia. São de cristal, possuem tratamento anti-reflexivo, servem de proteção contra os raios catódicos do computador. Eu não tenho mais fotofobia exatamente por causa desses óculos especiais.

Na última consulta que fiz com Dr. Pacheco, antes dele partir desse mundo, ele me lembrou todas as suas recomendações. A essa altura dos acontecimentos, ele se sentia muito orgulhoso e feliz de me ver, de saber que eu sou designer, diretora de arte, que eu escrevo muito, leio muito, assisto muitos filmes. Ele citava todos os escritores, pintores e cineastas que usam óculos de alto grau, cheio de orgulho com o nosso sucesso sobre a miopia degenerativa. Ele me recordou de que era possível que a miopia necessitasse de menor correção quando eu começasse a ter vista cansada, depois dos quarenta anos de idade.

Algum tempo depois uma grande amiga fez a cirurgia e se livrou dos oito graus de miopia. Outra grande amiga fez a cirurgia mas cinco anos depois estava com seis graus de miopia novamente. Ela ficou inconsolável. Depois de operar não se pode mais usar lente de contato. Ela andava pelas ruas sem óculos, com vergonha de usar o artefato, e sem enxergar.

Aos trinta e dois anos, fui a um novo especialista, uma vez que o Dr. Pacheco já não estava mais nesse mundo. Ele examinou tudo, fez teste de glaucoma - outro risco para quem tem miopia degenerativa - ficou admirado ao saber que a minha miopia é estável há décadas, constatou os dois graus de astigmatismo que não pediam correção, elogiou a alta qualidade da minha retina, explicando que era ela a responsável por eu ser capaz de encontrar um erro de meio milímetro em uma página diagramada ou perceber um mínimo desvio de cor em uma imagem.

Eu não enxergo, mas eu enxergo mais que muita gente - foi mais ou menos isso que ele disse.

Finalmente ele me perguntou se eu queria operar. Eu disse não, disse que ia esperar. Eu sei que nem todos os casos de cirurgia são bem sucedidos, eu sei que existe o risco de eu precisar operar por outra razão médica, eu sei que a cirurgia não corrige o astigmatismo, eu sei que no caso da miopia degenerativa a tendência é retornar - e aí eu não poderia mais usar lentes de contato e seria obrigada a usar apenas óculos! Não, obrigada, prefiro continuar vendo como eu vejo, prefiro poder exibir meus olhos verdes quando quiser.

Há uns dois anos, novo problema. A vista cansada atacou antes do previsto. Não conseguia mais usar lentes de contato, não funcionava. Eu não lia de perto com elas, eu não conseguia trabalhar no computador. Os óculos não precisaram de correção. Não precisei dos horríveis bifocais. Menos mal, fiquei de óculos, eu nunca tive vergonha deles mesmo.

Assisti Janelas da Alma emocionada. Tive o prazer e privilégio de poder dizer pessoalmente ao Walter Carvalho, com seus óculos grossos, o quanto eu apreciei o filme. Ele sorriu maravilhosamente.

Há algumas semanas atrás, quando fui fazer algumas coisas rotineiras, passei diante de uma ótica. Entrei. Falei com a moça. Estudamos as possibilidades de lentes de contato. Lembrei de tudo que o Dr. Pacheco me falou durante os mais de vinte anos que cuidou de mim. Pegamos a tabela de equivalência. Saí de lá com um pacotinho de lentes descartáveis de dez graus e meio, um produto químico e pronto. A tecnologia avança.

Dez graus e meio. Eu tenho doze de miopia, dois de astigmatismo, sei lá quantos de vista cansada. Não sabia se funcionaria. Cheguei em casa, coloquei um par. Li tudo de perto. Enxerguei tudo de longe. Atravessei a rua olhando. Trabalhei no computador. Eu posso ver.

Eu não preciso de correção para o astigmatismo nem para a vista cansada. Bastou diminuir o grau de correção da miopia, simples assim. Dr. Pacheco estava certo, outra vez.

E para completar, existem coisas maravilhosas que eu possuo na minha vida porque eu não enxergo direito, corretamente, normal.

Eu sei atravessar a rua de ouvido. Sei o som do tempo do motor dos carros, sei de que lado o carro vem. Eu sou capaz de escutar uma orquestra tocando e separar os instrumentos, isolando-os, ouvindo apenas aquele que eu quero ouvir. Sei distinguir sons e acordes, identifico facilmente a afinação usada. Não tenho conhecimento teórico de música, veja bem, eu ouço. Eu sei reconhecer uma pessoa pelo modo dela andar, mesmo de costas. Eu tenho um olfato e uma memória olfativa impressionantes. Se uma salada está minimamente passada, eu sei pelo aroma e sabor. Nunca comi uma comida estragada na vida. Sei distinguir o perfume que qualquer pessoa está usando, não a marca, mas sei sentir o aroma dos componentes do perfume, se é cítrico, se é de flores, se o fixador é de qualidade ou não. Odores estranhos jamais me escapam. Eu sou a primeira a perceber se está vazando gás.

Eu sempre sei pelo tom de voz de uma pessoa se ela está mentindo ou não. Sei também se está fingindo que está bem quando não está. Várias vezes surpreendi os amigos, parando a conversa de repente e falando - mas me diga o que você tem hoje, você está triste…

Fui bailarina até meus vinte e nove anos, danço muito bem até hoje. Tenho uma noção espacial incrível. Todas as vezes que mudamos de casa, quando eu era solteira, minha mãe me pedia para avaliar o espaço do futuro apartamento e calcular se a mobília caberia. Eu nunca errei. Eu tenho grande habilidade com o mouse, tenho coordenação fina e tato bem desenvolvidos. Eu sei descer escadas seguindo o corrimão e o ângulo da parede, contando os degraus. Existe um padrão na quantidade degraus das escadas, de passos necessários para descer as escadas, geralmente é dez, cinco, cinco ou dez, cinco, dez. Faço isso sem problemas, mesmo no escuro.

Ela não enxerga, mas presta uma atenção…

Sei que tudo isso está relacionado ao fato de eu ser a feliz possuidora de uma grande deficiência visual. Não ver direito, corretamente, normal, permitiu que eu aprendesse a ver coisas que os olhos não vêem. Permitiu que eu mostrasse através da minha arte, uma beleza que muitas pessoas não vêem, porque elas enxergam direito, corretamente, normal.

A beleza nos olhos de quem vê.

Eu acho que a cirurgia vai continuar esperando, indefinidamente…

olhos

4 Chás servidos em “A beleza nos olhos de quem vê”

  1. angelblue83 bebe chá e diz:

    Amei o seu texto, até porque eu tb sou míope, Dani. Tenho uns três graus e usei lente de contato durante anos, mas depois de um fungo que peguei numa biblioteca e que me deixou uma lesão na córnea, não usei mais.
    Pretendo voltar a usar logo que der, a lente que serve pra mim é meio cara, mas voltarei a usar.
    Agora o que eu queria te dizer mesmo, é que a miopia muitas vezes me deu coragem para olhar para muita gente e falar porque vejo distorcido, não enxergo com clareza a expressão dos rostos e isso acaba com a minha timidez diante de platéias, entende?
    Bom, nem preciso dizer o qto te acho admirável. Adoro pessoas que fazem limonadas dos limões que a vida dá. ;)

    bjimm querida

  2. Eloisa bebe chá e diz:

    Minha querida
    Amei o seu relato. Muito parecida com a minha história de vida.
    Tb tenho míopia e astigmatismo.
    Passei a infância praticamente sem enxergar. Minha primeira visita ao oftalmologista se deu aos 7 anos, qdo minha professora alfabetizadora adirmou aos meus pais que eu não enxergava. Vomeei usando óculos com 6 graus e daó sucessivamente. aos 14 anos, então na oitava série, meu primeiro par de lentes de contato. Hoje aos 44 anos ainda uso lentes de contato. tenho 12 e 15 graus respectivamente no olho esquerdo e olho direito e astigmatismo no olho esquerdo. Também nunca quis optar pela cirurgia e não pretendo. Já tive infecções oculares q não me permitiram o uso de lentes por determinado tempo, mas acabo sempre retornando a elas pela sua praticidade e conforto.
    Meus olhos são muito parecidos com os seus, até na cor.

    Um grande abraço minha querida e sempre na luta.
    Portadoras de deficiência sim, mas vivas e com nuita coragem.
    Nossa visão é muito maior do que aqueles que possuem dois olhos perfeitos, pois percebemos o mundo com a nossa alma.
    Dizem que o pior cego é o que não quer ver. Tanta gente, com boa visão e enxerga como uma toupeira…

  3. Christiane bebe chá e diz:

    Amei tudo, tenho tb miopia na utima consulta estava c respect 7 graus, vou comprar oculos novos, novamaente aquele pavor da consulta quanto sera de aumento!! morro de medo de operar, quero usar lentes, mas vou continuar c os oculos, convivo com isso a tanto tempo, não vou me lamentar tantas coisas importantes e maravilhosas que me acontecem, quero é viver assim feliz da vida.

  4. MadTeaParty by DaniCast » Blog Archive » Sobre miopia novamente bebe chá e diz:

    [...] que vou escrever aqui é um email que enviei a uma menina que leu esse post aqui sobre miopia e fez um comentário irônico sobre mim no blog dela, dizendo que “eu acho lindo não [...]

Beba o chá e fale alguma coisa: