O tempo e a idade
“Comecei por me perguntar quando tomei a consciência de ser velho, e acho que foi pouco antes daquele dia. Aos quarenta e dois anos havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância: é uma dor natural na sua idade, falou.
- Então, - disse eu - o que não é natural é a minha idade.
O médico me deu um sorriso de lástima. Vejo que o senhor é um filósofo, disse ele. Foi a primeira vez que pensei na minha idade nos termos de velhice, mas não tardei a esquecer o assunto. E me acostumei a despertar a cada dia com uam dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos. Às vezes parecia ser uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. Devo estar condenado à juventude eterna, pensei então, porque meu perfil eqüino não se parecerá jamais ao caribenho cru que era meu pai, nem ao romano imperial de minha mãe. A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas e mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam.”
- Gabriel García Márquez, Memórias de minhas putas tristes
Eu sempre amei o Gabriel, desde que li Cem Anos de Solidão, quando tinha, sei lá, uns vinte anos.
Tenho uma magia especial e íntima com o que chamo de “meus contemporâneos”. São pessoas que tem a mesma idade - ou quase - que eu e a quem eu acompanho a vida, desde sempre. Nessa lista temos Trent Reznor, do NIN, que é de 17 de maio de 1965, sete meses mais velho que eu; Keanu Reeves, de 2 de setembro de 1964, dois anos e três meses mais velho que eu; Kurt Cobain, de 20 de fevereiro de 1967, sómente dois meses mais jovem que eu. Imaginem como fiquei horrorizada quando Kurt Cobain se suicidou.
E então temos pessoas incríveis da geração dos meus pais - ou ao menos, de idade semelhante à deles. Susan Sarandon, de 4 de outubro de 1946. Minha mãe é de 22 de julho de 1947. E Gabriel García Márquez, de 6 de março de 1928. Meu pai nasceu em 27 de maio de 1933.
Idade não é uma coisa curiosa?
Não sei se estou me tornando como meus pais. Acho que estou, sim. Eu me olho no espelho e vejo semelahnças com minha mãe, embora ela diga que eu sou “a cara deles lá”, se referindo à família do meu pai, que é do Rio de Janeiro. Ela tem um pouco de razão, eu sou mesmo muito parecida com eles, somos todos, eu e meus irmãos. A minha irmã é a imagem viva de nossa avó pernambucana, Dona Amélia, mãe de meu pai.
Mas Gabriel tem razão. O tempo passa e nos sentimos os mesmos. Os olhos alheios nos contam que estamos ficando velhos, ainda que por dentro sejamos a mesma pessoa, talvez apenas um pouco mais experiente, menos impaciente, mais triste.
Não sei. É um modo estranho de começar uma manhã, não é?

September 6th, 2005 em 3:27 pm
“A maturidade não é resultado do tempo, mas do que aprendemos.” Julian Barnes.
Hoje conversamos com o Gabriel e com o Julian, estou certo de que daqui alguns bons anos, muitos após a nossa geração; os novos ainda estarão conversando com eles. De uma forma um pouco diferente da nossa, pois a conversa é um eterno despertar de coisas que ficam adormecidas dentro dos leitores.
A moda será outra, estaremos numa época que o vagar terá seu valor e não desejaremos tantas coisas mais.
Nossa época, na qual a beleza vem perdendo tanto valor, pelo fato de ser subordinada ao tempo fica muito mais difícil perceber o quanto isso é real e não abstrato.
Desejamos demais.
Talvez um dia consigamos desejar menos e nos regular como as formigas se regulam, cada um fazendo uma parte e o todo tirando proveito do trabalho de cada um. Cada um fazendo bem feito, sem saber o porquê, apenas porque lhe traz conforto e felicidade.
Peço desculpas pelo tom sonhador, um tanto irreal, mas tenho que contar um segredo. Sempre acompanho seus escritos (não é essa a novidade) e comparo com aquilo que estou lendo, e sempre, sempre, sempre as coisas estão muito próximas, às vezes de um outro ângulo, e sempre escolho o alternativo para enriquecer o nosso conhecimento falho e triste de tantas coisas belas. Uma delas é a idade. E no livro que li “Jean” vive cem anos.
Parabéns novamente.