Friday, July 4, 2008

Clarice

“O trabalho está desorganizado, muito ruim, muito confuso. Material eu tenho e em abundâcia. O que me falta é o tino da composição, o verdadeiro trabalho. Minha tendência seria a de pensar apenas e não trabalhar nada. Mas isso não é possível. O trabalho de compor é o pior. Eu mesma vivo me levantando e caindo de novo e me levantando. Não sei qual é o bem disso, sei que é essa forma confusa de vida que vivo. Uma pessoa que quisesse tomar minha direção seria bem vinda… Eu nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.”

“Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte.”

“Vivo tão atribulada que não aperfeiçoei mais o que inventei em matéria de pintura. Ou pelo menos nunca ouvi falar desse modo de pintar: consiste em pegar uma tela de madeira - pinho de riga é a melhor - e prestar atenção às suas nervuras. (…) a gente se joga nas nervuras acompanhando-as um pouco - mas mantendo a liberdade. Fiz um quadro que saiu assim: um vigoroso cavalo com longa e vasta cabeleira loura no meio de estalactites de uma gruta.”

“Pintei um quadro que uma amiga me aconselhou a não olhar porque me fazia mal. Concordei. Porque neste quadro que se chama medo eu conseguira por pra fora de mim, quem sabe se magicamente, todo o medo-pânico de um ser no mundo. É uma tela pintada de preto tendo mais ou menos ao centro uma mancha terrivelmente amarelo-escura e no meio uma nervura vermelha, preta e de amarelo-ouro. Parece uma boca sem dentes tentando gritar e não conseguindo. Perto dessa massa amarela, em cima do preto, duas manchas totalmente brancas que são talvez a promessa de um alívio. Faz mal olhar este quadro.”

Fonte: Pinturas de Clarice Lispector. Nesse mesmo site, encontrei o lindo retrato que De Chirico pintou.

***

O que eu achei mais interessante foi ela contar do modo dela pintar. Clarice não sabia, mas instintivamente usava um método descoberto pelos surrealistas chamado “automatismo” e repetia, coincidentemente, a pesquisa de Max Ernst sobre nervuras de madeira.

Que poético, Clarice era surrealista - e talvez nem soubesse.

Links:
- Alguns quadros de Clarice Lispector em fotos grandes
- Clarice Lispector, um enigma

Beba o chá e fale alguma coisa: