Saturday, May 17, 2008

Fazendo chá como antigamente

Passou de meia-noite, choveu cântaros aqui, estou tomando chá verde e resolvi fazer um chá para vocês.

Ontem passei horas cerebrais e interessantes lendo diários antigos porque queria programar o post do próximo aniversário do chá. Foi uma experiência interessante, especialmente porque eu sempre deixo pistas para mim mesma, para eu ler depois. O chá sou eu. Eu sou o chá. E fazendo chá pra mim, acabei, ao longo desses anos, fazendo chá para um monte de gente. Espelhos.

Acho que é inevitável pensar em espelhos porque eu sempre tenho a sensação de que o tempo dá voltas espiraladas e não sai do lugar.

Ontem eu descobri que, com exceção dos gatos siameses, por quem eu ainda sou capaz de chorar de saudades, o resto… eu não sei o que é o resto. Acho que o resto sou eu, porque daquilo-que-não-era-eu, não me parece ter sobrado nada.

Acho que é por isso que, quando eu escutei a música Only pela primeira vez, me senti tão realizada.

I’m becoming less defined as days go by
Fading away
And well you might say
I’m losing focus
Kinda drifting into the abstract in terms of how I see myself

Eu descobri que nunca, nunca, jamais, existiu comunicação entre o-cara-com-quem-eu-passei-dez-anos e eu. O fato só não me deprime nem me entristece porque na verdade, me alivia. Certo, no-communications. Trent Reznor é capaz de expressar melhor que qualquer outra pessoa o que é que eu penso, o que eu sinto. Ótimo. Não estou louca. Nunca estive. Não há mesmo a menor suspeita da parte de outras pessoas sobre quem diabos sou eu. Que alívio!

Sometimes I think I can see right through myself
Sometimes I can see right through myself

O mais curioso e interessante foi a descoberta recente de que eu e a minha irmã, a minha irmã e eu, somos basicamente iguais. Isso foi sensacional. Compramos roupas e sapatos parecidos, falamos coisas sincronizadas, pensamos sincronizado.

Depois disso, outras pessoas a quem eu dava extrema importância, ficava preocupada com o que diriam ou pensam… evaporaram. Eu sou eu. Ela é ela. Ela sou eu. Eu sou ela. Somos esquisitas. Que alívio.

Less concerned about fitting into the world
Your world that is
Cause it doesn’t really matter anymore
(no it doesn’t really matter anymore)
No it doesn’t really matter anymore
None of this really matters anymore

Okay, então já que muitas coisas importantes de repente não tem mais nenhuma importância, fiquei na liberdade incrível de redefinir importâncias. O tempo é circular. O tempo não existe. Espelhos são ilusórios em sua grande maioria. E as nossas almas gêmeas estão nos lugares mais inesperados e improváveis e, melhor que tudo, não tem chongas a ver com aquele papo aristotélico do amor ideal. Alívio, alívio, libertação.

Yes I am alone but then again I always was
As far back as I can tell
I think maybe it’s because
Because you were never really real to begin with
I just made you up to hurt myself

Devo admitir que o raciocínio e a verbalização são frutos de estudo. A pós-graduação - se é que algum dia vou conseguir completar e pegar meu diploma - tem sido enriquecedora e interessante por causar essas reflexões. Leiam Flusser, queridos, leiam Flusser.
Flusser sabe.

I just made you up to hurt myself, yeah
And I just made you up to hurt myself
And it worked.
Yes it did!

Daí comecei a achar que algumas coisas que algumas pessoas-das-quais-eu-não-gosto disseram estavam certas. Parei. Pensei. Não era bem isso, não. Eu tenho a mania da entrelinha, do subtexto, da reflexão, do espelho. Eu escuto o que não é dito. As tais pessoas nunca disseram o que eu achava que elas disseram, eu disse. Era reflexo de mim.

There is no you
There is only me
There is no you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
There is no fucking you
There is only me

E brilhou aquela lâmpada de desenho animado na minha cabeça porque… porque Trent Reznor é um fucking genious porque ele expressa exatamente o óbvio que todo mundo deveria saber mas… que a gente não sabe, às vezes sente, mas nem sempre sabe, you know.

Now I am somewhere I am not supposed to be,
and I can see things I know I really shouldn’t see
And now I know why, now, now, now I know why
Things aren’t as pretty
On the inside

E não havia nenhuma daquelas pessoas para quem eu dei tanta importância tanto tempo, o-cara-com-quem-eu-passei-dez-anos, o esquilo e tantas outras pessoas. Essas pessoas empenharam muita energia em me dizer que eu não sou o que eu sou ou em tentar em mudar o que eu sou, porque o que eu sou as irrita. Daí dizem que sou irritante. Acho que devo ser, porque eu imagino que uma pessoa que simplesmente vai até lá e faz as coisas sem se importar, por exemplo, com aquela regra curiosa que diz que é impossível fazer uma coisa… imagino que uma pessoa que faz coisas impossíveis deve ser realmente irritante. Pior ainda se essa pessoa for do tipo que rejeita veementemente que lhe digam que ela não pode fazer ou ser coisas impossíveis, you know what I mean?

There is no you
There is only me
There is no you
There is only me
There is no fucking you
There is only me
There is no fucking you
There is only me

Era isso, percebem?
Mas a gente fica achando que não é a beleza nos olhos de quem vê, a gente fica achando que tudo aquilo de tão lindo que estava vendo pertence ao outro. Mas não pertence, babe, é tudo seu. O outro é você.

There is no you
There is only me
There is no you
There is only me…

2 Chás servidos em “Fazendo chá como antigamente”

  1. Rogério Rocha bebe chá e diz:

    Vide: “Almost Forgot Myself” by Doves

    A letra é simples, mas é válida.

    :-)

  2. Rogério Rocha bebe chá e diz:

    A música seguinte, “Snowden”, do album do Doves também faz referências interessantes sobre relacionamentos.

Beba o chá e fale alguma coisa: