A Colherada Severa
“Um fama descobriu que a virtude era micróbio redondo e cheio de patas. Instantaneamente deu a beber a sua sogra uma grande colherada de virtude. O resultado foi horrível: esta senhora renunciou a seus comentários mordazes, fundou um clube para a proteção dos alpinistas perdidos e em menos de dois meses se comportou de maneira tão exemplar que os defeitos de sua filha, inadvertidos até então, passaram ao primeiro plano para grande sobressalto e assombro do fama. Não teve outro remédio senão dar uma colherada de virtude a sua mulher, que o abandonou nessa mesma noite por achá-lo grosseiro, insignificante e completamente diferente dos padrões morais que flutuavam rutilando perante seus olhos.
O fama refletiu demoradamente e afinal tomou ele próprio um frasco de virtude. Mas continuou da mesma maneira vivendo só e triste. Quando cruza na rua com a sogra ou a mulher, ambos se cumprimentam respeitosamente e de longe. Não ousam sequer se falar, tamanha é a sua perfeição respectiva e o medo que têm de contaminar-se.”
- Histórias de Cronópios e Famas - Julio Cortázar - 1962

February 1st, 2007 em 12:44 pm
Cortázar é uma lembrança da minha infância tardia. Eu nunca esquecerei o conto do cronópio e a flor e do fama e o eucalipto…
http://www4.loscuentos.net/cuentos/other/1/3/54/
Lembro-me de outro conto, este do final da adolescência, sobre um grande engarrafamento, de vários e vários dias, também…
Cortázar marca. Obrigado por recordar-me dele