Sobre Paulo Francis e sobre 40 anos
Eu ia apenas postar um comentário no blog do Edward, mas o pensamento começou a ficar muito comprido. Os agentes de provocação da reflexão são um comentário que o Edward deixou por aqui e uma frase do Paulo Francis:
“Não existe nada que eu queira da vida. Atingi um nível de entendimento das coisas que considero satisfatório. Quer dizer, sei que sou ignorante, mas que tenho a base para deixar de ser naquilo que me interessar. O problema é que menos e menos me interesso por tudo. Considero programa ficar num sofá, sem fazer nada, nem lendo. A cabeça corre sozinha, forma conceitos, imagens, contradições, impressões, etc. Nada fica ou me estimula ao esforço de completar o sugerido ou iniciado. Será a menopausa intelectual dos 40 anos, ou uma forma (ainda) branda de esquizofrenia?”
- Paulo Francis
Aos 40 anos a gente passa por uma transformação. Você finalmente se ilumina. Acho que Buda tinha 40 anos. Descobrimos que a única coisa que vale a pena querer é viver, e isso atinge a gente de uma forma que todas as coisas que pareciam importantes anteriormente simplesmente desaparecem no ar. Só queremos ler os livros que ainda não lemos, escutar as músicas que mais gostamos, comer boas comidas enquanto ainda temos dentes e ficar olhando o amanhecer ouvindo maritacas ou o entardecer ouvindo buzinas de trânsito - aliviados porque estamos de banho recém tomado em uma varanda com flores brincando com uma gata preta e escutando NIN, e não presos no trânsito buzinando. Ah, sim, e o sexo é melhor que nunca, mas eu não falo sobre sexo, assim como não discuto política, porque geralmente quem fala de sexo é porque nunca faz e quem discute política ainda não entendeu que fé demais faz mal.
Eu sempre me admiro como existem pessoas capazes de se enfurecer com comentários inteligentes e sarcásticos - não é o caso do Edward, vejam bem, que me pareceu apenas puzzled - mas vejo muita gente suando e bufando no blog do ASS ou com as colunas do Mainardi. Mainardi é mediano - não faço parte da turma de macacas de auditório dele, acho apenas que o Mainardi fala o óbvio, algo como uma versão pós-moderna do “Rei está Nu”, enquanto que a maioria das pessoas ainda prefere elogiar as roupas do Rei ou brincar de avestruz. Eu me impressiono de como o fato do mundo ser uma meleca choca as pessoas. É isso aí, crianças, o mundo É uma meleca e muitas das coisas que vocês acreditam que estão fazendo para melhorar o mundo não vai dar em nada. Não se choquem com isso. Observem que todos os males do mundo existem desde que o ser humano pisou no planeta e se ainda não mudou nada é porque a melhor coisa que poderia acontecer ao planeta é a extinção da raça humana. Aí sim, o mundo vai deixar de ser uma meleca.
Mas me desculpem, eu me afastei do assunto.
Existe também a sabedoria de morrer na hora certa - isso é importantíssimo, embora seja subestimado pelos seres humanos, que passam uma parte da vida achando que são imortais, uma outra parte tentando se tornar imortais e uma outra parte tentando não morrer, a todo custo. Perda de tempo. Devíamos desfrutar mais a época em que somos imortais - eu tenho sorte, fui imortal até os 35 anos de idade e então, como eu já expliquei anteriormente, eu morri e essa morte foi libertadora - e então nos despreocupar e só fazer o que queremos fazer.
E se o Paulo Francis não queria fazer nada, então tá ótimo, porque pra quem não queria fazer nada, ele fazia até demais. E vai ver é isso mesmo, pra fazer muito a gente precisa primeiro não querer fazer nada. Paulo Francis soube até mesmo morrer na hora certa, morreu no auge da performance e deixou todos os inimigos embasbacados, “como é que você se atreve a morrer no melhor da festa, quando ainda tinha tanta coisa que podia falar e fazer? Em quem é que nós vamos bater agora, no Mainardi?”
Até nesse momento crucial da vida, quando saímos pela saída lateral da cena, ele soube fazer uma piada irônica, abandonando o palco com a casa lotada e deixando todo mundo pensando a respeito.
Pra completar o post, vou colocar uns comentários legais que achei em links alheios (com os respectivos links para vocês lerem tudo que os moços escreveram) e que considero extremamente apropriados:
“Notar também que, mesmo no ano mítico de 1968, ‘moças de família’ ainda não saíam normalmente em capas de revistas, muito menos sobraçando garrafas de uísque.”
- Na redação da lendária Diners, por Ruy Castro
“Realmente, não detesto a “bicha amarga”, como Caetano Veloso o chamou. Sinto sua falta. Comparados com ele, os Mainardi da vida são um saco, pois nunca arriscam-se de verdade. Ator medíocre transformado em temido crítico teatral, malsucedido romancista transfigurado em leonino crítico literário, Francis era notável provocador e hábil parodista.”
- A Ignorância de Paulo Francis, por Milton Ribeiro
“Compare Francis com Mencken, por exemplo: considerando tudo, Mencken era bem melhor do que Francis, e por um motivo ou outro escreveu vários textos sem aquelas referências datadas todas que aparecem aos pares e aos trios em cada linha de Francis. Mas hoje em dia ninguém, nem um pastor batista que seja, escreve um texto pra falar mal de Mencken. Já de Paulo Francis falam mal todos os dias. Todos os dias: consulte o technorati. Dez anos depois de morto e ele ainda irrita as bestas.”
- Paulo Francis, tirai-nos da jequice, por Alexandre Soares Silva
“Lendo as citações sobre ele na internet percebe-se que o jornalista e escritor dá lugar à caricatura, a um personagem histriônico sem alma. Desumanizaram Francis para atender a análises de seu caráter que, para tantos, define sua obra. A redução é uma forma tosca de má leitura ou desonestidade. O trabalho de Francis na TV Globo, como comentarista de assuntos internacionais, ajudou a formar essa imagem. Mas, sabemos, um barril de carvalho armazena, dá gosto e aroma ao melhor single malt. Cavalheiros não consideram, nunca, beber o barril.”
- Bruno Garschagen
“Francis tinha opinião sobre tudo. Sempre radical. E nunca tão cimentada que não merecesse ser revista.Improvisar? Para ele era tão natural quanto piscar.”
- Edney Silvestre
Update:
Rafael Galvão escreve um texto interessante sobre Paulo Francis:
“É curioso que Francis, que se antecipou aos blogs em 20 anos, pelo menos, tenha sido vítima de um fenômeno tipicamente blogueiro: o stalker, o desocupado que se dedica a um parasitismo deletério e obcecado, que alguns consideram uma espécie de homenagem e que outros, como eu, acham apenas um retrato pé-no-saco de uma mediocridade profunda. O stalker é um fã no espelho, aqueles espelhos de parques de diversões onde tudo é invertido e distorcido.”
E confira, no Youtube, um especial do Manhattan Connection na ocasião da morte de Paulo Francis.

February 6th, 2007 em 12:42 pm
Obrigado pelo referência, Dani. Qualquer dia eu salvo sua vida para ficarmos quites =]
February 6th, 2007 em 5:22 pm
“Em todas as partes a sociedade conspira contra a maturidade de cada um de seus membros. [...]
A doutrina desprezível da maioria das vozes usurpa o lugar da doutrina do espírito.”
e.e.cummings