Reflexões matinais sobre o que as pessoas amam ou odeiam
Estive lendo coisas.
Primeiro, li essa excelente… (resenha? crítica?) do Pedro Maciel sobre o livro da Hilda Hist, no Digestivo Cultural. Depois, li essa excelente… (outra vez! resenha? crítica?) do Michel Laub sobre o filme Dogville, também no Digestivo.
É, estou com reservas em nomear as coisas.
Ontem eu fiz… (fiz? lecionei? rapaz, estou com crise linguística!) um workshop de Direção de Arte no Planeta Tela. Tive a impressão de que as pessoas gostaram. Eu confesso que considerei que fiz um trabalho apenas mediano. Sei que tenho como fazer um workshop melhor do que o que fiz. Foi confuso. Eu estava cansada.
Um rapaz veio com questões referentes à “crítica”. Estávamos comentando sobre cursos de cinema e ele comentou sobre críticas&críticos. Nossa conversa me fez ficar pensando.
É interessante como o brasileiro, de uma forma geral, é hermético à críticas. Qualquer crítica, por menor que seja, instantaneamente se transforma num assunto pessoal. Não se pode criticar nada nem ninguém nesse país. Criticar, no Brasil, é ofensa. As pessoas não conseguem encarar críticas como algo construtivo, até porque, uma grande quantidade de pessoas também não sabe fazer críticas de modo construtivo, a crítica já nasce elaborada com a intenção de fazer o criticado se sentir inferiorizado.
É o horror, o horror.
Então, ontem, percebi que eu tenho aversão a que digam que eu faço “crítica de cinema”. Eu considero que apenas escrevo minha opinião pessoal - será que crítica é isso? É levar a público uma opinião pessoal? Eu confesso que não sei - e somente sobre coisas que considero que domino, como arte, por exemplo (que coisa, hoje estou em um oceano de incertezas: será que domino mesmo?).
Mas voltando às resenhas (ou críticas, não sei). Primeiro: como eu adoro Madame Hilst. Sou fã confessa. Quando eu crescer, quero ser a Hilda Hist. Segundo: como é interessante observar que ainda não resolvemos o problema das diferenças. Ser diferente ainda é crime para a humanidade.
As pessoas amam ou odeiam filmes (ou livros, ou arte, ou ainda, críticas) por causa da diferença. As pessoas (em geral) ainda desejam ardentemente a segurança e o conforto da unanimidade (ainda que seja uma unanimidade burra). A diferença, que deveria ser valorizada, porque faz parte do próprio mecanismo natural de sobrevivência das espécies no planeta, é condenada e rejeitada violentamente pelo ser humano.
No fundo, queremos todos ser monotamente iguais.
É o horror, o horror.
Now Listening: Nine Inch Nails - We’re In This Together - The Fragile (Left)
“well they’ve got to hate what they fear
well they’ve got to make it go away
well they’ve got to make it disappear…”

September 16th, 2005 em 4:37 pm
Rubem Alves: O preço da fertilidade é ser rico em oposições internas. A gente permanece jovem somente enquanto a alma não se espreguiça e deseja a paz.
Você colocou o dedo no centro da questão. Nós não conseguimos lidar com as diferenças. Nós humanos; nós brasileiros não conseguimos lidar com qualquer diferença, inclusive as de opinião. E eu pensava que essas eram as mais fáceis. Que são as mais gentis. As menos doloridas. Pois a razão indica que conversando e argumentos todos deveremos chegar a um termo razoável. Pontos de vista são discutíveis, os de honra, não.
Que nada.
A cultura católica é extremamente abrangente no nome e nos métodos.
Somos um povo extremamente formalista e com grandes trejeitos barrocos. As coisas, pensamentos e ações têm uma tendência para adquirir solenidades que acabam por estragar o conteúdo. Um simples escrito contando os nossos sentimentos em relação a uma obra vira crítica, outro a respeito de um livro se transforma em resenha.
Ao tomar o chá cotidiano percebi que a xícara estava muito quente, mas o sabor continua incomparável. É aquele do Marrocos com bastante espuma e quanto mais quente melhor? Obrigado.
September 17th, 2005 em 9:42 pm
Não acho que as pessoas queiram ser iguais. Elas querem é ser aceitas. São coisas diferentes.
Todo mundo quer ser cool, descolado e brilhar por cima da maioria. Todo mundo quer ser reconhecido por aquilo que somente a própria pessoa pode ser (para o bem ou para o mal). Pra isso é preciso ser diferente dos demais em algum ponto. Agora, tem que rolar aceitação.