Vida
Criei um certo vício em ler a primeira página do conjunto residencial de blogs do Interney. Ali ficam as últimas atualizações dos moradores, é irresistível.
E me pego comentando. Lendo o blog da Suzi e suas considerações a respeito da passagem do tempo, me pego comentando.
“O que eu descobri, com a idade - completei 40 em dezembro - é que as marcas no rosto não são a pior coisa que o tempo marca. Está certo que eu tenho poucas linhas de expressão - genes privilegiados, não tenho nem uma ruga em torno dos olhos, apenas a linha do sorriso em volta da boca. Mas “a cara cai” e isso me incomoda horrivelmente. Eu vejo as bochechas ficando flácidas, como resultado do envelhecimento. Isso me irrita. E o pior não são as marcas externas, mas as marcas interiores. Cicatrizes da vida que vivemos. São invisíveis e são indeléveis. E, de vez em quando, doem.”
Não foi apenas a leitura do blog de Miss Suzi que causou a reflexão. Ontem à noite, relendo o que já está programado para ser servido no chá - sim, eu programo posts que se publicam sozinhos - e pensando na minha atual situação de vida, veio naturalmente essa reflexão.
Saudades nunca passam. Perdas nunca são preenchidas.
Não é que eu não goste de ficar sozinha. Eu aprecio imensamente a solidão. Ainda mais tendo a Mia como companhia. Sou capaz de passar semanas isolada em casa, sem sair ou atender a um telefonema, na companhia da Mia, de música e vídeos. Sempre tive essa característica solitária. Sempre preferi a companhia de gatos a pessoas.
O que não significa que eu não adore as pessoas. Eu gosto imensamente delas. Tenho algumas pessoas hoje que são muito especiais na minha vida e muito queridas.
Mas se alguém fosse me perguntar, eu preferia mil vezes viver naquela casa na montanha, sozinha, cercada de gatos, com internet, sim, mas sozinha, ouvindo música o dia inteiro e conversando apenas com os gatos. Gatos são mais cordatos que pessoas, te amam incondicionalmente, não fazem chantagens emocionais e não usam você.
E também jamais quebram promessas.
O que me levou, novamente, a pensar no filme que vamos reiniciar e terminar. Fico encantada da minha equipe de cinema compreender tão bem e tão profundamente o que é esse filme. Fico encantada em ter uma equipe de cinema tão linda, tão competente, tão talentosa.
É um filme tão complexo e tão intimista, e ainda assim, compreensível.
Isso é bom, porque estou com uma sensação melancólica de final de era, e a impressão de que tudo que tenho em volta de mim nesse exato minuto vai evaporar já, já.
Sobrará o Abismo, o Eletronic e o WhiteNoise (que vocês ainda não assistiram, mas que eu vou postar em breve).
WhiteNoise é belíssimo e melancólico. Talvez difícil de compreender. Mas quem já viu, gostou, mesmo que beire o incompreensível.
Eu sou muito ruim com palavras. Eu tenho essa tendência aos pensamentos flutuantes e à fragmentação. Se começo a explicar alguma coisa, tenho tendência a me tornar ininteligível. Começo a me perder no texto, gaguejar, não coordeno mais.
Eu estou sempre querendo resumir tudo o que penso a uma tela de vídeo ou a uma fotografia. Pensar em imagens é muito mais fácil pra mim. Ainda mais se forem apenas cores e ruídos.
Quem diria que meu surrealismo iria caminhar para um abstracionismo indecifrável e ruidoso? Será que o Caciporé, que previu meu surrealismo, adivinharia isso?
Mas como eu dizia, novamente, tenho a sensação de final do mundo. Olho a Mia aqui deitada ao meu lado e penso que faz apenas quatro anos que o meu outro mundo terminou. Aquele, pelo menos, eu consegui manter coeso por sete anos.
Esse aqui não vai durar a mesma coisa. É pena. Eu estava gostando desse quase tanto quanto eu gostava do outro.
