Dia cansativo, computador fresco e silencioso
Passei o dia com a minha irmã, para cima e para baixo. Começamos o dia passeando pelos jardins da Santa Casa de Misericórdia. Foi um bonito passeio, entre as árvores do jardim bem cuidado e os prédios de tijolinhos. Vi seis gatos a um canto do jardim, fiquei preocupada, mas eles pareciam tranquilos e saudáveis e as pessoas não pareciam estar incomodadas com a presença deles. Três deles eram pretos. Sempre me preocupa que as pessoas possam fazer mal a gatos pretos, por superstição e ignorância.
Fomos atendidas na triagem por moças sorridentes e gentis, mas não conseguimos nada do que precisávamos. Preciso marcar um exame, mas parece que para conseguir, tenho que ir lá às cinco da manhã, pegar uma senha e aguardar, eles atendem apenas duzentas pessoas por dia. Amanhã não posso ir, no final de semana não atende, segunda-feira é lotado. Tentarei novamente na terça-feira, às cinco da manhã.
Mas o passeio foi bom e minha irmã comprou dois vestidos e um casaquinho na lojinha da Santa Casa. Três reais cada peça. Mil sorrisos das senhoras muito gentis que atenderam a gente. Uma delas estava inconformada com o fato do meu cabelo estar sempre despenteado - “menina, você tem um cabelo lindo, não penteia o cabelo?”. Ela me tratou de um modo materno, pediu para arrumar meu cabelo com os dedos, ela era pequenina, de cabelo bem branquinho e eu me senti uma menina pequena que se inclina para uma mãe amorosa ajeitar o cabelo rebelde. Ela ficou falando como meu cabelo é lindo e eu me senti pequenina e feliz.
Tem momentos que mesmo a gente tendo 40 anos de idade, sente falta desse tipo de amor. Eu tenho sorte por encontrar amor assim, em pessoas que eu nem conheço e não sei nem por que me tratam com tanto carinho.
Esses dois últimos dias foram lindos dias de outono. Isso significa céu azul e luz dourada. Existe uma qualidade especial na luz de outono que me encanta. Me deu saudades de anos em que eu morei em outras cidades, me fez recordar tardes de outono onde eu lecionava em casas de fazenda para crianças ou lavava roupa no quintal de uma casinha onde eu morei, no interior de São Paulo. Eu pendurava a roupa para secar no varal, as vacas pastavam ao longe, a minha vizinha recolhia a minha roupa seca. Eu tinha vinte e poucos anos e tudo no mundo eram promessas. Foi uma lembrança bonita.
Fazia tempos que eu não lembrava dessa luz de outono, não me lembro de tê-la percebido no ano passado, o clima não estava tão quente nem tão luminoso nessa época do ano. Linda, amarelada luz.
Meu PC estava com um problema de super-aquecimento. Minha irmã me levou a um lugar indicado pelo meu irmão. Meu diagnóstico sobre o problema estava correto: o cooler não estava dando conta de resfriar corretamente os processadores (é um Pentium dual). Não custou muito caro, inaugurei meu cartão Visa, e agora minha máquina está fresquinha e silenciosa. O outro cooler fazia um barulho de geladeira que me impedia de deixar a máquina ligada durante a noite, incomodava meu sono, atrapalhava eu escutar as músicas que eu amo ouvir. Agora posso voltar a dormir com o PC ligado, fazendo downloads e tocando músicas. Posso terminar meus vídeos e as imagens que eu ainda quero imprimir.
É preciso uma certa ordem, frescor e silêncio em meio ao chaos.
Apesar de eu ser muito ligada à estética e beleza do mundo, eu não sou materialista e não me importo de eu mesma não possuir a beleza matemática em mim mesma, aquela beleza que faz qualquer pessoa considerar uma outra pessoa linda, a chamada simetria do phi. Eu prefiro a minha vida cerebral. Fico contente quando meus raciocínios e conclusões se confirmam acurados. Pensar, para mim, sempre foi a coisa mais importante da minha vida.
E eu tenho esse lindo universo que existe dentro da minha cabeça que sempre foi meu maior tesouro, e de repente, estou conseguindo colocá-lo para fora e dividi-lo com pessoas que estão gostando do que eu tenho mostrado. A beleza nos olhos de quem vê.
Estou escrevendo minha monografia (para a pós em cinema que estou cursando na Belas Artes). Tem sido uma das maiores fontes de alegria. Minha monografia tem todas as coisas que eu amo, surrealismo, dadaísmo, noises, pixels, o amor da minha vida e toda aquela música maravilhosa.
Minha pós, meu curso de direção de arte em cinema, minhas artes, o filme do Abismo (que vamos terminar em breve), minha irmã, meus sobrinhos, minha gata, um dia de outono, esse apartamento onde eu moro.
Acho que posso dizer que tenho realizado sonhos.
Mas eu sempre fiz isso, essa é que é a verdade, mesmo quando alguns sonhos acabam. Ninguém disse que se pode sonhar o tempo todo ou para sempre. Você realiza os sonhos e eles terminam. Ficam lembranças e novos sonhos a realizar.
E mesmo faltando sexta-feira para chegar ao final de semana, essa foi a semana de diagnósticos corretos. Todos os diagnósticos que eu concluí por mim mesma estavam precisos. Existe um certo encanto e uma realização interior quando se faz diagnósticos corretos, mesmo quando se diagnostica algo que não parece ser uma boa notícia à primeira vista. Mas mesmo diagnósticos de más notícias podem ser muito bons, se a gente não se faz de avestruz, se encara de frente e rapidamente. Certas coisas precisam ser resolvidas o quanto antes. Certas coisas urgem.
Ouçam essa linda música do amor da minha vida, acho que é a música dele que mais me emociona, pela beleza intangível e lírica:
Chama-se “A Warm Place”, “um local aquecido” - no sentido de “calor” e de “amor”.
E depois, por favor, ouçam essa aqui, também é muito linda:
Chama-se “Leaving hope“.
E se quiserem ver um pouco da beleza nos olhos de quem vê, baixe esse pequeno software gratuito que faz espectrografia. A espectrografia é usada para identificar vozes de pessoas, ver as cores das estrelas e montar lindas figuras e gráficos para sons.
Ouça a música com o software em ação. É lindo, eu garanto.
