Traços, rastros
Aconteceu um orkuticídio.
…
Nope. Não fui eu. Eu não me orkuticidarei jamais. Acho fascinante a perspectiva de ter Orkut até os 100 anos de idade. Acho fascinante a perspectiva de viver até os 100 anos de idade - assim que eu conseguir superar essa atual batalha interna emocional com a problemática em torno do “ser idoso um dia”. Esse “um dia” está a cada dia menos remoto. E eu sou extremamente vaidosa, you know.
…
Fim da divagação. Fim da introdução.
Uma pessoa se orkuticidou. Eu sou um espírito investigativo. Essas engrenagens que possuo aqui dentro da cabeça puseram-se a maquinar motivos.
Mas estou me precipitando.
Como eu descobri o orkuticídio? Fui ler scraps de alguns dias atrás em busca de um email de uma pessoa que tinha deixado um recado há uns dois meses. O objetivo era bem objetivo, não era de natureza emocional: estou em plena fase de matrículas para a próxima turma do curso de direção de arte que eu leciono, e quis me certificar de que não esqueci ninguém que tenha solicitado informações.
De repente, faltava uma pessoa ali.
Interlúdio.
Eu estava mais cedo ao telefone com minha irmã e antes dela, com um querido amigo meu. O amigo querido me fala de como eu leio o chamado subtexto das outras pessoas. Como eu sou precisa. Ele também é bom nisso. A minha irmã também é boa nisso.
Às vezes me pergunto se isso pode ser aprendido - e eu acredito que sim, embora acredite que o talento para o subtexto seja um pouco inerente, instintivo. Semiótico. A comunicação humana não se limita à palavras, embora algumas pessoas possam apresentar mais dificuldades com comunicação não-verbal. A essência da comunicação entre criaturas vivas é não-verbal. Eu compreendo totalmente a minha gata, e ela não fala, veja bem. E olhe que ela é péssima nisso ainda, ela não entendeu ainda alguns códigos importantes pra gente se comunicar melhor. Mas chegaremos no entendimento.
Existem bloqueios culturais e emocionais à comunicação humana. (Tem um livro maravilhoso do J. Whitaker Penteado que fala sobre isso, chama-se A Técnica da Comunicação Humana, eu recomendo). Uma pessoa pode não compreender o código usado. Uma outra pessoa pode comprometer a eficiência da comunicação expressando-se mal ou equivocadamente. Uma terceira pessoa pode manipular a comunicação porque possui determinados objetivos.
Ruídos de comunicação.
E às vezes, as pessoas não querem compreender, porque aquela compreensão será dolorosa ou complexa. É o chamado bloqueio emocional.
Mas o subtexto sempre está lá e nunca mente.
Algumas pessoas são exímias em dar sinais falsos. Outras conseguem disfarçar muito bem o que estão pensando e se comunicar de forma fria ou falseada. Eu chamo a arte de esconder pensamentos de “fazer cara de paisagem”. Entretanto, mesmo a “cara de paisagem” não impede um olho de piscar na hora errada ou um dedo tremer quando não devia.
Pessoas deixam traços e sinais. Subtextos.
O subtexto sempre está lá e nunca mente.
Algumas pessoas têm memória fotográfica. Eu sinceramente as invejo e adoraria ser assim.
A maioria das pessoas têm memória seletiva. Lembram apenas aquilo que lhes é conveniente emocionalmente recordar. E algumas pessoas têm memória analítica. Lembram aquilo que é importante lembrar. Selecionam suas memórias de acordo com a necessidade.
Eu tenho uma memória excelente e ainda por cima, faço mnemônicas para melhorar essa memória. Minha memória só é ruim para números e nomes. Mas eu contorno o problema. Eu sempre associo idéias para me lembrar melhor. E eu sou sinestésica. Eu tenho um mecanismo meio complicado de explicar que funciona mais ou menos assim: às vezes dispara um alarme dentro da minha cabeça. O alarme toca, chamando a minha atenção para alguma coisa. “Alguma coisa” pode ser uma ligeira entonação de voz, uma alteração na respiração, um levantar discreto de sobrancelha, um meneio de sorriso, a posição da mão da pessoa sobre a mesa, o fato dela ter se inclinado levemente para trás quando fala uma determinada palavra. A sinestesia me indica o que é que está errado.
Chamei isso de feeling, por falta de palavra melhor.
Pior que isso, o “alguma coisa” pode ser um comentário inteiro, que dito de forma casual, pareceria totalmente inocente. Só que não é. A frase pode ser “estacionei o carro aqui perto” ou pode ser “vou querer meu café com um pouquinho de leite”, pode ser algumas coisa perfeitamente natural e casual.
Só que não é. Tem um subtexto inteiro ali.
É possível compreender imensamente uma pessoa com apenas meia dúzia de informações, se forem as informações adequadas.
O subtexto sempre está lá e nunca mente.
Eu sei porque a pessoa orkuticida se orkuticidou. O subtexto me contou. Essa pessoa não apenas se orkuticidou, ela se retirou da minha vida por completo. E eu sei até o motivo. Sentirei imensa falta.
Espero apenas que essa pessoa saiba o quanto eu gosto dela e o quanto ela iluminou (ainda que rapidamente) o meu caminho. Espero que volte um dia e ilumine por aqui outra vez. Cometas são sazonais, mas eventualmente, reaparecem, mesmo que mais distantes que da última vez.
E espero que da próxima vez, os olhos dessa pessoa não me queimem tanto, tanto, quanto dessa vez queimaram. E que a dor interior dessa pessoa não seja para mim tão clara e dolorosa como se o ar inteiro da sala tivesse se transformado numa cortina de fogo.
Fique bem, fique bem.
Eu nunca vou me zangar com você, você mora no meu coração.
Só pra completar, o que eu estou ouvindo agora:
Vou dar de comer pra Mia, vou comprar algo pra comer e depois eu volto. Stay tuned.

March 24th, 2007 em 12:09 am
Alguém “sumiu” do meu orkut também. Ainda não descobri quem… Na verdade, não tive tempo de fazer lista. hahahahaha. Com 90 amigos (até ontem, antes do “ocorrido”) fica fácil!
Agoraaaa…. Eu vejo esse quadro da criação, de Michelangelo e em verde, e fico maluca!!!! Posso confessar? Eu tenho uma foto do teto original! Os guardas não viram quando tirei… É proibido!
Dani.. Vai escondendo esse até eu ter uma sobrinha no salário!!!!
Parcela? Aceita cartão???
Beijos
March 24th, 2007 em 12:28 am
Eu guardo. É seu. Depois discutimos as formas de pagamento =)