Saturday, May 17, 2008

Transitoriedade

A questão, mon amie, é a transitoriedade e aí sim, encontrei um escrito de Monsieur Simon muito interessante:

«Nenhum espírito humano consegue guardar na memória o que foi abraçado pelo olhar numa dessas incessantes fracções de segundo que o tempo faz sucederem-se a uma velocidade de tal modo vertiginosa que mal eu traço a última letra de uma palavra, se tornou passado o gesto do minha mão a desenhar a anterior. Escrevo para tentar lembrar-me do que se passou durante o instante em que escrevia.»

O tempo não existe e ao mesmo tempo, não pára. Incessante. Somos todos transitórios e talvez aí então, resida a terrível dificuldade.

Onde está o amor pelo outro, se meu objeto amado muda incessantemente diante de meus olhos e aquela figura que inspirou o sentimento cessa de existir um segundo após eu ter apenas colocado meus olhos nela? - e entenda-se que esse amor não é o clássico amor romântico idealizado, mas o amor universal que deveríamos ter uns pelos outros por sermos ao menos criaturas de uma mesma espécie compartilhando de um destino semelhante.

Onde está o propósito para as ações se apenas um segundo depois de um pensamento de decisão ter se eletrificado no cérebro, o momento passou e se a ação não foi ainda realizada poderá ser que jamais deixe de ser um devaneio? Tudo é transitório, nós somos transitórios. É essa a essência do rio que nunca é o mesmo rio e o homem que nunca é o mesmo homem.

O entendimento entre criaturas tão instáveis e várias é complicado nessa falta de condição de temperatura e pressão estáveis. Somos tão variados e tão transitórios, não há cálculo possível, apenas aventurar.

2 Chás servidos em “Transitoriedade”

  1. harryletterx bebe chá e diz:

    Só aventurar. Eu não tenho medo de aventurar, mas agora sinto o fim de uma aventura muito intensa, muito rápida…

    The quote is incredible.

  2. Erwin Maack bebe chá e diz:

    A insensatez do acaso é a lógica do destino. Vladimir Nabokov
    Tempo é a marca do homem. Fixa um ponto e pronto; está determinado que a partir daquele instante contaremos quantas vezes tal estrela passou por qual lugar. E esse número será o resultado da nossa inutilidade e fatuidade.
    Ao longo do tempo eu consegui ler alguma coisa para lembrar-me do que passou durante o instante que lia, e anotei, anotei, anotei com uma ânsia incrível de não ser devorado pelo Cronos. Serei.
    Antes disso, porém, encontro uma resposta para uma questão tão importante; que nos obriga a mirar o infinito durante tanto tempo que nos deixa tontos.
    Ela está em Sándor Márai, um húngaro, sensato, triste, escrevinhador incessante, lúcido. “Amar talvez seja uma coincidência de tempos, um acaso maravilhoso como se no universo existissem dois planetas com a mesma órbita, com a mesma atmosfera, feitos da mesma matéria. É o tipo de coincidência imponderável, talvez nem exista.”
    Talvez. Muitas vezes o ‘talvez’ é sinônimo de covardia, nesse ele é de coragem.
    “Somente aquilo que fica guardado em nosso eu é maior do que nós, é imortal,…”
    Infelizmente tudo é transitório é verdade, somos todos os dias diferentes a cada instante, tanto quanto o rio nunca é o mesmo rio. Mas alguém que - brasileiríssimo como nós – já nos propôs pensarmos na terceira margem do rio, deve ser consultado antes de qualquer tomada definitiva de posição. Pois “Ao Verbo é dado o direito sublime de enriquecer o acaso e de fazer do transcendental algo que não é acidental.”
    Assim fecho o círculo onde comecei. Sem começo , nem fim. Apenas em louvor ao Verbo

Beba o chá e fale alguma coisa: