O Cinema pelos olhos da estética
“O cinema prá mim tem uma origem estranha. Porque quando eu tinha uns oito anos e minha irmã uns dez anos, nós ganhamos um aparelho de 9,5 mm, com vários filminhos. Era de um tio avô meu, tio Júlio Barbosa. E nesse conjunto de filminhos tinha desde Chaplin até o ‘Gordo e o Magro’. Eram filminhos de 5 a 3 minutos, e nós ficamos encantados com esse brinquedo. Aquilo era um brinquedo, mas a rua inteira ficou ligada naquele cineminha. Minha irmã e eu até pensamos em ganhar um dinheirinho cobrando ingresso pelo cineminha. Mas minha mãe gritava lá de dentro: ‘Isso não é prá ganhar dinheiro…’ Acho que até hoje fiquei marcado por essa frase terrível: ‘Não é prá ganhar dinheiro’. ‘Está bom, então vamos brincar de cineminha’.”
- Entrevista com Mario Carneiro - por Lauro Escorel
“A literatura, às vezes, é uma voz embriagada que canta.”
- João Gilberto Noll (autor de “Harmada”)
Quem participou da sessão ABCine ontem, teve a oportunidade de ouvir de Mario Carneiro um pedaço da história viva do cinema no Brasil. Mario Carneiro contou ontem várias histórias, incluindo-se o “causo” de como Glauber e ele filmaram o premiado curta-metragem documental sobre o funeral de Di Cavalcanti.
A importância de assistir “Harmada” de Maurice Capovilla é que o filme nos traz pistas de como compreender a nossa atual falta de memória e cultura. “Harmada” é baseado no livro de mesmo nome de João Gilberto Noll. Não vou resumir o livro porque é irresumível, é necessário lê-lo para poder apreender o que o livro é exatamente. Lendo o livro, compreende-se mais profundamente as escolhas da filmagem feitas por Maurice Capovilla e Mario Carneiro em “Harmada”.
O filme, entretanto, não depende do livro: ele fala por si mesmo. Maurice tem uma trajetória de documentarista - o que traz naturalidade e fluência ao filme. Maurice filma mais relaxado e despreocupado do que aqueles que se educaram como profissionais no cinema publicitário, que possui sempre verba. Maurice faz um filme que possui a medida exata de preocupação de produção, sem escravizar-se a um orçamento existente ou não-existente, o que é muito saudável ao processo de filmagem, uma vez que o Brasil sofre de problema financeiro crônico no cinema nacional. A visão documentarista de Maurice simplifica o processo produtivo do filme, sem sacrificar a linguagem ou estética.
Mario Carneiro me pareceu estar gozando das delícias de finalmente ter se transformado em um mito vivo. Sorria, ao dar a sua entrevista-palestra falando sobre o filme, sua carreira e sobre si mesmo. É um dos muitos resgates que temos que fazer entre as pessoas que já produziram muita arte e cinema no Brasil mas que recebem pouco destaque, por não serem “criaturas comerciais da mídia televisiva”. Ainda mais que Mario, como ele mesmo comentou, já passou para a categoria “é um velho” e o Brasil, como país superpopuloso e colonizado que é, desvaloriza pessoas que deixaram a juventude para trás. Infelizmente, fomos engolidos pela cultura do eterno jovem, das superfícies vazias e do imediatismo. Absorvemos a MTV completamente, ainda que seja apenas forma e zero de conteúdo, sem nenhuma reflexão.
A fotografia de “Harmada” é impecável. É um exercício de virtuosismo. O enquadramento, os planos-seqüência, a montagem final, são clássicos, limpos. Mario, como ele mesmo se confessa, é um esteta. Não poderia deixar de ser, com sua origem nas artes. Essa preocupação e gosto pela estética transpiram pelo filme.
Pereio é sempre o bom Pereio, voz profunda, gestos contidos, interpretação na medida. Que falta faz ao cinema nacional mais atores que saibam interpretar personagens para o olho da câmera. Pereio não tem nenhum daqueles cacoetes insuportáveis dos atores televisivos das novas gerações nem dos atores que somente pisaram em tablado, Pereio sabe atuar com uma câmera recortando o olhar. Nesse ponto, o momento mais gostoso do filme é a cena onde ele contracena com Cecil Thiré, numa conversa entre amigos. São dois atores habituados ao cinema, em um diálogo que flui, numa cena bonita.
Tenho certeza absoluta que “Harmada” deve soar dissonante para quem conhece pouco da história do cinema brasileiro ou, pior, para as gerações mais jovens que foram privadas de um contexto cultural brasileiro, que desconhecem o que seria essa identidade cultural nacional, de onde vem essa identidade, do que é composta e que elementos possui. Os mais jovens foram criados alimentados com ritmos e elementos culturais totalment importados via mídia e derivados de culturas estrangeiras massificadas. Perdem o que é o significado das cores contrastadas, dos tecidos escolhidos para os figurinos, da luz dura tropical.
“Harmada” acaba sendo um filme complexo de entender a quem não possui contexto cultural. Acaba sendo um filme de águas estranhas, quando deveria surgir aos nossos olhos como sendo um universo familiar. E daí vem sua maior importância, o resgate de uma origem cinematográfica brasileira.
“Harmada” possui longos planos seqüência onde o objetivo é criar um tempo para permitir ao espectador desfrutar melhor das imagens que está assistindo. Tem a beleza da paisagem colonial de Paraty de pano de fundo para crises humanas profundas, com texto longo e rebuscado, sim, flertando com o teatro. Mario comentou que na sua opinião de cineasta teria colocado menos texto - Mario, além de fotógrafo e cinematógrafo é também cineasta de formação antiga, da era pré-especialização, possui uma riqueza cultural que está hoje se tornando rara, com formação de artista plástico e arquitetura e vivência profissional de artista plástico, arquiteto, fotógrafo, cineasta. O texto do filme, entretanto, não incomoda, é um texto bonito e dito de forma adequada. Quando é teatro é teatro, quando é cinema é cinema.
Ontem tivemos uma aula viva de cinema como poucas que se pode assitir por aí.
E quem ainda não assistiu “Harmada”, assista.
Leiam também:
- O Desafio da Luz Tropical - por Carlos Ebert, ABC
- Harmada e a representação invisível - Chico Faganello
- A polêmica saudação de Glauber a Di - Maria Eugênia de Menezes
- O experimental no cinema brasileiro por João Carlos Rodrigues

October 19th, 2005 em 2:21 pm
Fiquei curiosa para assistir Harmada. Onde encontro uma boa sinopse?
October 19th, 2005 em 4:38 pm
A sinopse mais interessante que eu achei é essa aqui:
“Harmada aborda um tema universal: a luta de um homem que busca sobreviver e superar-se através da arte de representar e contar histórias. O roteiro, baseado na obra de João Gilberto Noll, um dos mais consagrados escritores brasileiros, segue a trajetória, ao mesmo tempo lúcida e alucinada de um artista, um cidadão sem nome, que se apresenta como Ator, flagrado num determinado instante da sua vida completamente derrotado, mas que encontra forças para se reafirmar e através de uma jovem, que pode ser a sua filha, formular um projeto que vai mudar o seu destino.”
A maioria dos sites não traz mais informações que isso.