Thursday, December 4, 2008

'Abismo'

Segredo

Sunday, December 3rd, 2006

Aconteceu uma coisa muito, muito boa mas eu não posso contar pra ninguém, está relacionado ao filme que estamos rodando, o Abismo.
Saibam apenas que aconteceu uma coisa tão boa, mas tão boa que me deu vontade de dançar na rua, sob a chuva.

Eu tenho tanta sorte, eu tenho tantos amigos maravilhosos, eu nunca vou conseguir agradecer o suficiente à todas as pessoas.

Memento

Wednesday, November 22nd, 2006

eu tenho 5 anos de idade
Às vezes eu tenho 5 anos de idade.

greeneyes

Fotos: Mario Surcan
Finalização: Daniela Castilho

“Sharpness is a bourgeois concept.”
- Henry Cartier-Bresson to Helmut Newton

“I have always enjoyed reverse technology. People tend to always think the better the camera, the better the picture. I believe the better the concept, the better the picture.”
- Mark Sink

A beleza nos olhos de quem vê

Tuesday, November 21st, 2006

Equipe

“And this is how it all begins.”

Fotos: Mario Surcan

Intensidade

Monday, November 20th, 2006

Não, eu ainda não dormi. Eu já deveria ter dormido, porque o dia foi cansativo. Imagino que a maior parte da equipe já esteja sonhando nesse momento.

Não consegui. Todas as vezes que eu fecho os olhos, vejo toda aquela altura, aquela vertigem. Não é apenas uma vertigem real de quem sobe em um local muito alto, é uma vertigem interior, uma queda de Alice na toca do coelho, um mergulho numa escuridão interior de tudo aquilo que está muito bem escondido e trancado dentro de você, um abismo nietzschiano.

Hoje eu confirmei que sim, o Abismo é nietszchiano. Mas o filme não é. É antítese.

Everything is blue in this world.

Imaginem enfrentar o dia mais intenso da sua vida. Oito pessoas, uma câmera HDV, o vigésimo segundo andar de um edifício, um roteiro complexo que teve que ser desmembrado, reescrito diversas vezes e decupado não apenas em planos de cinema, mas em pedaços de opiniões, olhares diferentes, significados simbólicos, decisões sobre o passeio do olho da câmera, como serão os recortes e zilhões de outros detalhes técnicos.

O que é importante ser visto? O que não é importante ser visto? Que história é essa que estamos contando?

O lado racional pensa “temos grades que isolam todos da beirada, temos piso firme, não há muito vento, temos nuvens filtrando a luz. Tudo foi planejado, temos um story-board, tudo está cronometrado e organizado.”. O lado emocional olha aquela cidade que se exibe em todos os lados sob um céu cinza de um dia que amanheceu com chuva e pensa “o que é isso? O que estamos fazendo aqui? Vamos morrer.”.

Dicotomias.

Certas mortes são não-físicas. Somos criaturas mortais, que um dia passarão pela morte física - e vivemos em negação toda a nossa existência. Negamos a morte diariamente. Acreditamos que os velhos nascem velhos e que nós seremos a eternidade.

Não. Um dia chega a vez. Pode estar distante, mas vai chegar.

Nas últimas três semanas, durante o trabalho de preparação do filme, eu recolhi diversos fragmentos de memória que estavam espalhados. Reli velhos textos que eu mesma escrevi, procurei backups de outros textos mais velhos ainda, revirei fotografias. Hoje de manhã eu tinha nas minhas mãos fotos de 20 anos, 30 anos, 50 anos de idade. O tempo congelado em imagens nas minhas mãos. Memórias fragmentadas eternizadas.

Tive que fazer uma revisão imensa e intensa de mais de vinte anos da minha própria história em poucas semanas - e resolver as pendências e pontas soltas em menos de 72 horas, porque existia uma urgência de tempo, de preparação para filmar. Dirigir um filme é muita, muita responsabilidade.

Um dos textos que fui buscar em algum lugar perdido do passado foi um texto longo onde eu fazia reflexões sobre atropelamentos. Não sei se todos vão lembrar desse texto, foi servido aqui no chá em 23 de julho de 2004. Harry vai lembrar, tenho certeza.

“Algum de vocês já foi atropelado? Eu já. Um atropelamento é uma coisa curiosa. Você está atravessando a rua, você acabou de olhar pra verificar se vem vindo algum carro, se pode atravessar e de repente, do nada, tem um carro em cima de você. Eu fui atropelada de forma absolutamente espetacular há quase cinco anos. Foi em 1999 ou 2000, eu não me lembro bem. Era inverno, eu vestia uma calça comprida, botas e um sobretudo lindo de lã marrom que ainda tenho. Fui atravessar a avenida principal do bairro, a rua estava vazia, eu atravessei com toda a calma. Um carro virou uma esquina, de repente, bem em cima de mim. Esses eventos acontecem em frações de segundos que parecem uma eternidade. Em slow motion. De repente, do nada, tinha um carro em cima de mim. Eu me lembro de ter entendido que tinha um carro batendo em mim e relaxei o corpo todo, deixei o carro vencer. Era um carro, metal, motor, vidro. Eu sou apenas uma pessoa, músculos, ossos. Relaxei. O carro esbarrou em mim quase delicadamente, eu caí sobre o capô, o carro parou, eu deslizei sobre o capô até o chão. Esperei alguns segundos. Nada.O carro estava parado, o motorista conseguiu frear a tempo. Eu me levantei devagar, o motorista estava fora do carro, parado ao meu lado, pálido. Eu olhei pra ele e disse sorrindo “Tome mais cuidado, você pode matar alguém.” Podia. Mas não ia ser eu, não ali, naquele momento. Eu não tive um arranhão.”

O Abismo não foi escrito em 1999 ou 2000. Foi escrito em 2003, após um desastre de amor. Se alguém me perguntar o que penso sobre desastres, eu responderei com calma e doçura que um desastre de amor mata mais que um desastre de automóvel, mais lentamente, com mais sofrimento, com tempo infinito de duração. Eu sei, porque aconteceu comigo.

“O Amor te faz tão vulnerável. (…) O Amor faz reféns. Ele penetra nas suas entranhas. Ele lhe devora e lhe deixa chorando na escuridão, e então uma simples frase no estilo ‘talvez a gente devesse ser só amigos’ ou ‘que bom que você percebeu’ se transforma em um cortador de vidro trabalhando direto rumo ao coração. Ele faz doer. Não apenas na imaginação. Não apenas na mente. É um ferimento-alma, é um ferimento-corpo, é um ferimento-entra-em-você-e-despedaça-você. Nada deveria ser capaz de fazer isso. Quanto mais o Amor.”
- Neil Gaiman em Sandman

Então, se alguém quiser uma definição precisa, sim, esse é um filme de amor.

“…and in a dream I’m a different me with a perfect you”

Mas não é só isso.

Existe um segundo filme sendo rodado nesse momento, que infelizmente, não sei se terei como exibir. É um filme feito dos momentos do não-filme, momentos onde pensamentos, olhares e idéias foram trocados. É um filme que eu não sei bem quem foi que assistiu. É um filme lindamente composto como uma sinfonia de muitos instrumentos musicais. Eu assisti, eu não perdi nem um segundo desse segundo filme.

Existe uma fragmentação de grande importância no Abismo - e quem me deu a chave para compreender essa fragmentação foi primeiramente a Marly, nossa documentarista, entre os vários cafés que tomamos em vários dias e as conversas de horas; e o Tim, diretor de arte responsável por alguns dos designs, com uma simples e linda sugestão de design para o poster.

O que somos cada um de nós senão uma série de fragmentos que insistimos em reunir e aglomerar, tentando compor algum tipo de amálgama? O fragmento, presente no próprio roteiro, é a chave do filme.

A fragmentação é tão forte, tão poderosa, que diferentes pessoas da equipe já expressaram essa fragmentação em palavras, mas acredito que tenha sido o ator quem melhor e mais poeticamente resumiu o que estamos fazendo, o que é esse filme, enquanto tomávamos café depois do almoço, na pausa de filmagem. Ele disse que o trabalho de cinema é como um organismo vivo, uma pessoa é o cérebro, outra é o coração, outra é o pulmão, outra os olhos. Disse isso com olhos já cansados, acordado desde as seis da manhã, depois de quatro horas de filmagem no alto de um prédio.

Nossa.

Hoje tivemos uma traquitana mágica trazida pelo CameraMan, Wagner, que girava com a câmera e o ator em cima dela. Não vi exatamente o que os olhos do Wagner viram através do olhar da câmera, mas vi o que poderia ser essa cena belíssima um pouco antes, quando eu experimentei a traquitana junto com o ator, sendo movida pelo Mario (diretor de arte). Girávamos lentamente e eu tinha medo, muito medo - eu tenho horror de altura, não é uma dicotomia linda e paradoxal que eu tenha escrito exatamente um filme com um abismo na história? O ator segurava a minha mão, eu tremia de medo, ele sorria. Giramos um longo tempo. O giro era lindo. Delicioso. Assustador. Vertiginoso. Depois filmamos/rodamos a cena. Magnífica. O abismo está ali.

Eu já fui atropelada na minha vida, mas não sofri nem um arranhão.

Cumprimos uma diária correta, 12 horas, desmontamos, fomos embora. Não consegui dormir. Estou ouvindo o amor-da-minha-vida cantando aqui no meu computador, ele mesmo mergulhado em suas próprias vertigens e abismos.

“all fuzzy, spilling out of my head”

Temos alguns problemas de logística para resolver essa semana. Stay tuned. Eu conto mais assim que eu tiver mais coisas para contar.

Now Listening:
The Downward Spiral (The Bottom) - Nine Inch Nails

And All That Could Have Been - Nine Inch Nails

Breeze still carries the sound Maybe I’ll disappear
Tracks will fade in the snow You won’t find me here
Ice is starting to form Ending what had begun
I am locked in my head With what I’ve done
I know you tried to rescue me Didn’t let anyone get in
Left with a trace of all that was And all that could have been

Please Take this And run far away Far away from me
I am Tainted The two of us Were never meant to be
All these Pieces And promises and left behinds If only I could see
In my Nothing You meant everything Everything to me
Gone fading everything And all that could have been

Please Take this And run far away Far as you can see
I am Tainted And happiness and peace of mind Were never meant for me
All these Pieces And promises and left behinds If only I could see
In my Nothing You meant everything Everything to me

“The Day The World Went Away” - Nine Inch Nails

I’d listen to the words he’d say but in his voice I heard decay
the plastic face forced to portray all the insides left cold and gray
there is a place that still remains it eats the fear it eats the pain
the sweetest price he’ll have to pay the day the whole world went away…”

Abismo

Saturday, November 18th, 2006

Amanhã, dia 01 de filmagem.
… e eu tenho a melhor equipe de cinema do mundo.

“And this is how it all begins.”

Gonçalo
Gonçalo, Assistente de Direção

Juliana
Juliana, Assistente de Direção

Mario
Mario, Diretor de Arte e Assistente de Direção

Tim
Tim, Diretor de Arte: Design Gráfico, poster e impressos

Ricardo
Ricardo, Diretor de Fotografia

Wagner
Wagner, Câmera

Alois
Alois, Animação

Felipe
Felipe, Animação

Marly
Marly, Documentarista, “o olhar estrangeiro”, Making Of

Eu
… e eu.

Faltam aqui as fotos do Japa (Montagem e finalização) e de Mathias Capovilla (Trilha).

Marly e Eu

Domingo, café

Thursday, November 16th, 2006

Domingo, café
Domingo, café

Escutem essa canção

Sunday, November 5th, 2006

música
A música do mundo.

Entropia

Sunday, November 5th, 2006

we were accidents waiting to happen

A entropia (do grego εντροπία, entropía) é uma grandeza termodinâmica associada ao grau de desordem de um sistema macroscópico. Equivalentemente, mede a parte da energia que não pode ser transformada em trabalho. É uma função de estado cujo valor cresce durante um processo natural em um sistema fechado.

A teoria da informação diz que quanto menos informaçoes sobre o sistema, maior será sua entropia. Isso remete ao fato de as equações matemáticas para a entropia usarem métodos probabilísticos para serem deduzidas, sendo assim quanto maior o número de arranjos possíveis, maior será a entropia.

Fonte: Wikipedia

***

Recentemente, foi publicado na Europa a tradução atualizada do clássico Enthropy de Jeremy Rifkin, que apresenta a tendência universal de todos os sistemas - incluídos os econômicos, sociais e ambientais - a passar de uma situação de ordem à crescente desordem.

“a lei da entropia mina a idéia da história como progresso. A lei da entropia destrói a idéia de que a ciência e a tecnologia criam um mundo mais ordenado”.

Originalmente, “entropia” (troca interior) surgiu como uma palavra cunhada do grego de em (en - em, sobre, perto de…) e sqopg (tropêe - mudança, o voltar-se, alternativa, troca, evolução…).

“a energia total do universo é constante e a entropia (a desordem) total está em contínuo aumento”.

A entropia é a inversão do tempo, ou seja, esse aspecto do tempo pelo qual quanto mais se regride no tempo, mais “intenso” é o tempo. E quanto mais se progride mais “diluído” é o tempo. É o tempo em seu aspecto negativo: nós estamos acostumados a pensar no devir do cosmos como um progressivo vir-a-ser, mas, na verdade, trata-se de um regressivo deixar-de-ser sem aniquilar-se: acumula-se um “entulho de ser”. Como mostram muito bem os físicos Bernhard e Karl Philbert, não só o espaço é função do tempo, mas o próprio tempo é função do tempo. Não podemos pensar num tempo uniforme e linear e separado das coisas, mas num tempo entrópico, que se degrada com o tempo, tendendo assintoticamente ao fim do próprio tempo; ou, como se poderia dizer satiricamente: “o tempo vai morrer com o tempo” (ou na visão joanina: “Não haverá mais tempo” Ap 10, 6).

Fonte: Entropia: “Progresso” para a Destruição!

O ritmo da tristeza

Friday, October 27th, 2006

Eu nunca publiquei esse texto. Eu escrevi há tanto tempo que não tenho certeza quando foi. É pedaço de um texto muito maior, eu ainda não sei o que farei com ele. Mas esse pedaço aqui, eu resolvi compartilhar com vocês.

Precisei tanta coragem para publicar isso, vocês nem imaginam. E eu nem sei direito quem é que vai ler isso aqui. Será que vou me arrepender de compartilhar um pedacinho tão secreto que eu tenho? Será que vocês vão falar alguma coisa? Será que vão ficar aí quietinhos? Eu queria muito saber. Mas é tão difícil saber as coisas.

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O ritmo da tristeza

Sei que essa descrição é estúpida. Descrições são sempre estúpidas.
Ele não tem muitos amigos, mas gosta de cães. Mora sozinho numa casa antiga reformada. Pelo que sei, não gosta muito de gente.
Eu entendo. Meus gatos foram a maior felicidade que eu já possuí na vida. E se foram.
O amor da minha vida é músico, compositor. É um amante de barulhos – como eu – e sabe escutar música nos mínimos ruídos, tic-tacs de relógios, o som do vento nas árvores. Sabe que vários sons aparentemente desconexos, quando combinados, formam música. Ao longo desses anos todos em que não nos conhecemos, tenho a impressão de que ele tem uma sinfonia única dentro de sua cabeça e que cada música que ele compartilha com as pessoas é um pedaço dessa sinfonia maior. Eu só o vi em pessoa uma vez na vida até hoje. Eu nunca vou esquecer essa única vez, porque naquela noite em que eu o vi e ouvi ao vivo, foi a noite mais feliz da minha vida.
Ele não sabe que eu existo, mas apesar disso, é o amor da minha vida – e eu sei disso - há quase vinte anos. Nesse tempo, suas músicas sempre foram a trilha sonora da minha vida – quantas pessoas podem dizer isso, que o amor da vida delas escreveu a trilha sonora da vida
delas?
Às vezes me pego imaginando que eu gostaria que ele visse a minha arte. Que eu gostaria de conhecê-lo em pessoa. Que eu diria à ele que a minha arte é a música dele em imagens. Que eu vejo isso, sei isso. Fico imaginando se isso diminuiria a solidão dele, que ele declara tantas e tantas vezes, ou o faria se sentir menos infeliz – ele vive contando sobre sua infelicidade. Mas nunca quis ir atrás desse encontro, porque tenho receio de não existir comunicação real. Porque não quero perder esse amor. É o amor da minha vida e isso é muito precioso para mim. Um dos maiores responsáveis por eu ainda estar aqui é ele.
Ainda que ele nem saiba que eu existo.

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Eu estou no pós-morte. Sei que você ficou imaginando o que é isso, esse pós-morte. O pós-morte é um lugar estranho. É como se você estivesse vivo, mas você não está. Todos te tratam como se você estivesse vivo. Ainda se usa dinheiro, se compram coisas e se fazem dívidas. Também se trabalha e estuda. Parece que nada mudou, parece que você ainda está vivo – mas você não está. Você ainda tem todas aquelas coisas aborrecidas da vida, como necessidade de comer, de tomar banho, de morar em algum lugar, de dormir e quando dorme, ainda tem sonhos e pesadelos. Essa é uma das coisas mais difíceis do pós-morte: os sonhos. Todos os sonhos do pós-morte são com as coisas que você fazia e conhecia quando estava vivo, só que nenhuma delas, nem uma, está mais ali com você.

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Eu devo confessar que as pessoas vivas me divertem, porque me tratam como se eu ainda estivesse viva. É muito fácil esconder das pessoas que você está morto. É tão fácil quanto esconder que você está louco – é impressionante como as pessoas não percebem a diferença entre sãos e loucos ou entre vivos e mortos. Se você anda, fala, respira, come, você está vivo, certo? Errado.

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Meu segundo grande amor me conhece e eu à ele. Estamos eternamente unidos e separados. O tempo para nós não existe. Somos duas criaturas silenciosas isoladas em uma montanha. Essa montanha nós escolhemos após um segredo. Eu não posso contar esse segredo, infelizmente, envolve uma coisa que aconteceu conosco, um esquilo, uma casa na montanha e dois poetas.
O primeiro poeta é baiano e me é muito querido, é um grande amigo.
O segundo poeta é anônimo e desconhecido. Nós roubamos a casa da montanha do segundo poeta, embora o primeiro poeta também ame casas na montanha.
A nossa casa da montanha é imaginária – o que, considerando-se que estou no pós-morte, é indiferente. É uma linda e pequena casa, isolada das pessoas, cercada de nuvens e árvores. Faz algum tempo que eu não vou lá, o pós-morte me ocupa muito, mas de vez em quando eu converso com meu segundo amor. Ele é um Príncipe, crescido agora, não é mais o Menino pequeno e assustado que eu conheci há alguns anos atrás. Já é quase um Homem. É o único homem que eu deixo me chamar de “meu amor” - e me derreto toda quando ele faz isso. Não sei que tipo de homem ele vai ser, mas isso não é importante. O importante é que nós nos conhecemos, somos nós e esse amor é eterno. Mesmo no pós-morte.

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Eu acho curioso que ninguém tenha percebido que eu estava louca quando eu estava louca. Não que eu não esteja mais louca agora – ou menos louca. Mas é curioso, ninguém percebia. E eu dizia com todas as letras: como você sabe, eu estou louca. Ainda assim, ninguém percebia. Imagino que estivessem todos muito ocupados ou em estado de negação, não sei.

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Já a ex-pessoa-oficial-com-todos-os-papéis, aquele-de-quem-fui-refém, bradava com ira sanguínea que eu estava louca. Claro, esse é o cara para quem eu telefonei uma tarde e disse:
- Minha avó morreu.
E ele respondeu:
- Aqui também está morrendo todo mundo.
Mas a louca era eu, não ele.

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A minha vida é totalmente estúpida. A maior parte das vidas das pessoas é estúpida, eu sei disso. É um vai e vem em ônibus, carro, metrô para ir a um lugar que você não quer ir, passar o dia inteiro nesse lugar falando com pessoas de quem você não gosta, terminar o dia ainda nesse mesmo lugar para pegar novamente o ônibus, o carro ou o metrô e ir para casa espremido entre um monte de outras pessoas que você não conhece, chegar em casa, comer uma comida mais ou menos, assistir alguma coisa idiota na TV e ir dormir.
A vida é estúpida.
Mas as pessoas passam a vida sonhando, essa é que é a verdade. Sonhando com lugares melhores, mais bonitos, pessoas mais bonitas, felizes e inteligentes, com uma vida que não é aquela. Menos no pós-morte porque como eu já disse, no pós-morte você só sonha com a vida que viveu.

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O tempo em que durou a minha pena foi o período onde meu amor-músico foi mais importante para mim. O erro foi cometido pela outra pessoa mas eu tive que pagar a pena junto. Parecia que jamais terminaria, parecia uma sentença eterna. Eu só tinha duas alegrias na vida: meus gatos e meu amor-músico. Só estou aqui por causa dele. Eu não estava só, eu tinha toda aquela música. E hoje, quando moro sozinha sem meus queridos preciosos gatos, toda essa música ainda me mantém um pouco viva. Mesmo no pós-morte.
Ainda estou aqui, apenas, por causa de toda aquela música.

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Tá, eu sei por que eu decidi publicar isso. Por causa do meu amor-músico que me acompanhou a semana toda e porque eu finalmente dei o roteiro do “Abismo” para uma pessoa ler, um ator.

Dar o Abismo na versão final para alguém ler mexeu comigo, sem dúvida. O Abismo estava dentro de mim e eu olhava para ele, sem me mover. Não sabia o que fazer com ele. O Abismo é todos-os-meus-amores, os que foram, os que não foram e os que poderiam ser. É todo o desentendimento do mundo.

Ainda bem que eu ainda tenho toda aquela música.

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