Não, eu ainda não dormi. Eu já deveria ter dormido, porque o dia foi cansativo. Imagino que a maior parte da equipe já esteja sonhando nesse momento.
Não consegui. Todas as vezes que eu fecho os olhos, vejo toda aquela altura, aquela vertigem. Não é apenas uma vertigem real de quem sobe em um local muito alto, é uma vertigem interior, uma queda de Alice na toca do coelho, um mergulho numa escuridão interior de tudo aquilo que está muito bem escondido e trancado dentro de você, um abismo nietzschiano.
Hoje eu confirmei que sim, o Abismo é nietszchiano. Mas o filme não é. É antítese.
Everything is blue in this world.
Imaginem enfrentar o dia mais intenso da sua vida. Oito pessoas, uma câmera HDV, o vigésimo segundo andar de um edifício, um roteiro complexo que teve que ser desmembrado, reescrito diversas vezes e decupado não apenas em planos de cinema, mas em pedaços de opiniões, olhares diferentes, significados simbólicos, decisões sobre o passeio do olho da câmera, como serão os recortes e zilhões de outros detalhes técnicos.
O que é importante ser visto? O que não é importante ser visto? Que história é essa que estamos contando?
O lado racional pensa “temos grades que isolam todos da beirada, temos piso firme, não há muito vento, temos nuvens filtrando a luz. Tudo foi planejado, temos um story-board, tudo está cronometrado e organizado.”. O lado emocional olha aquela cidade que se exibe em todos os lados sob um céu cinza de um dia que amanheceu com chuva e pensa “o que é isso? O que estamos fazendo aqui? Vamos morrer.”.
Dicotomias.
Certas mortes são não-físicas. Somos criaturas mortais, que um dia passarão pela morte física - e vivemos em negação toda a nossa existência. Negamos a morte diariamente. Acreditamos que os velhos nascem velhos e que nós seremos a eternidade.
Não. Um dia chega a vez. Pode estar distante, mas vai chegar.
Nas últimas três semanas, durante o trabalho de preparação do filme, eu recolhi diversos fragmentos de memória que estavam espalhados. Reli velhos textos que eu mesma escrevi, procurei backups de outros textos mais velhos ainda, revirei fotografias. Hoje de manhã eu tinha nas minhas mãos fotos de 20 anos, 30 anos, 50 anos de idade. O tempo congelado em imagens nas minhas mãos. Memórias fragmentadas eternizadas.
Tive que fazer uma revisão imensa e intensa de mais de vinte anos da minha própria história em poucas semanas - e resolver as pendências e pontas soltas em menos de 72 horas, porque existia uma urgência de tempo, de preparação para filmar. Dirigir um filme é muita, muita responsabilidade.
Um dos textos que fui buscar em algum lugar perdido do passado foi um texto longo onde eu fazia reflexões sobre atropelamentos. Não sei se todos vão lembrar desse texto, foi servido aqui no chá em 23 de julho de 2004. Harry vai lembrar, tenho certeza.
“Algum de vocês já foi atropelado? Eu já. Um atropelamento é uma coisa curiosa. Você está atravessando a rua, você acabou de olhar pra verificar se vem vindo algum carro, se pode atravessar e de repente, do nada, tem um carro em cima de você. Eu fui atropelada de forma absolutamente espetacular há quase cinco anos. Foi em 1999 ou 2000, eu não me lembro bem. Era inverno, eu vestia uma calça comprida, botas e um sobretudo lindo de lã marrom que ainda tenho. Fui atravessar a avenida principal do bairro, a rua estava vazia, eu atravessei com toda a calma. Um carro virou uma esquina, de repente, bem em cima de mim. Esses eventos acontecem em frações de segundos que parecem uma eternidade. Em slow motion. De repente, do nada, tinha um carro em cima de mim. Eu me lembro de ter entendido que tinha um carro batendo em mim e relaxei o corpo todo, deixei o carro vencer. Era um carro, metal, motor, vidro. Eu sou apenas uma pessoa, músculos, ossos. Relaxei. O carro esbarrou em mim quase delicadamente, eu caí sobre o capô, o carro parou, eu deslizei sobre o capô até o chão. Esperei alguns segundos. Nada.O carro estava parado, o motorista conseguiu frear a tempo. Eu me levantei devagar, o motorista estava fora do carro, parado ao meu lado, pálido. Eu olhei pra ele e disse sorrindo “Tome mais cuidado, você pode matar alguém.” Podia. Mas não ia ser eu, não ali, naquele momento. Eu não tive um arranhão.”
O Abismo não foi escrito em 1999 ou 2000. Foi escrito em 2003, após um desastre de amor. Se alguém me perguntar o que penso sobre desastres, eu responderei com calma e doçura que um desastre de amor mata mais que um desastre de automóvel, mais lentamente, com mais sofrimento, com tempo infinito de duração. Eu sei, porque aconteceu comigo.
“O Amor te faz tão vulnerável. (…) O Amor faz reféns. Ele penetra nas suas entranhas. Ele lhe devora e lhe deixa chorando na escuridão, e então uma simples frase no estilo ‘talvez a gente devesse ser só amigos’ ou ‘que bom que você percebeu’ se transforma em um cortador de vidro trabalhando direto rumo ao coração. Ele faz doer. Não apenas na imaginação. Não apenas na mente. É um ferimento-alma, é um ferimento-corpo, é um ferimento-entra-em-você-e-despedaça-você. Nada deveria ser capaz de fazer isso. Quanto mais o Amor.”
- Neil Gaiman em Sandman
Então, se alguém quiser uma definição precisa, sim, esse é um filme de amor.
“…and in a dream I’m a different me with a perfect you”
Mas não é só isso.
Existe um segundo filme sendo rodado nesse momento, que infelizmente, não sei se terei como exibir. É um filme feito dos momentos do não-filme, momentos onde pensamentos, olhares e idéias foram trocados. É um filme que eu não sei bem quem foi que assistiu. É um filme lindamente composto como uma sinfonia de muitos instrumentos musicais. Eu assisti, eu não perdi nem um segundo desse segundo filme.
Existe uma fragmentação de grande importância no Abismo - e quem me deu a chave para compreender essa fragmentação foi primeiramente a Marly, nossa documentarista, entre os vários cafés que tomamos em vários dias e as conversas de horas; e o Tim, diretor de arte responsável por alguns dos designs, com uma simples e linda sugestão de design para o poster.
O que somos cada um de nós senão uma série de fragmentos que insistimos em reunir e aglomerar, tentando compor algum tipo de amálgama? O fragmento, presente no próprio roteiro, é a chave do filme.
A fragmentação é tão forte, tão poderosa, que diferentes pessoas da equipe já expressaram essa fragmentação em palavras, mas acredito que tenha sido o ator quem melhor e mais poeticamente resumiu o que estamos fazendo, o que é esse filme, enquanto tomávamos café depois do almoço, na pausa de filmagem. Ele disse que o trabalho de cinema é como um organismo vivo, uma pessoa é o cérebro, outra é o coração, outra é o pulmão, outra os olhos. Disse isso com olhos já cansados, acordado desde as seis da manhã, depois de quatro horas de filmagem no alto de um prédio.
Nossa.
Hoje tivemos uma traquitana mágica trazida pelo CameraMan, Wagner, que girava com a câmera e o ator em cima dela. Não vi exatamente o que os olhos do Wagner viram através do olhar da câmera, mas vi o que poderia ser essa cena belíssima um pouco antes, quando eu experimentei a traquitana junto com o ator, sendo movida pelo Mario (diretor de arte). Girávamos lentamente e eu tinha medo, muito medo - eu tenho horror de altura, não é uma dicotomia linda e paradoxal que eu tenha escrito exatamente um filme com um abismo na história? O ator segurava a minha mão, eu tremia de medo, ele sorria. Giramos um longo tempo. O giro era lindo. Delicioso. Assustador. Vertiginoso. Depois filmamos/rodamos a cena. Magnífica. O abismo está ali.
Eu já fui atropelada na minha vida, mas não sofri nem um arranhão.
Cumprimos uma diária correta, 12 horas, desmontamos, fomos embora. Não consegui dormir. Estou ouvindo o amor-da-minha-vida cantando aqui no meu computador, ele mesmo mergulhado em suas próprias vertigens e abismos.
“all fuzzy, spilling out of my head”
Temos alguns problemas de logística para resolver essa semana. Stay tuned. Eu conto mais assim que eu tiver mais coisas para contar.
Now Listening:
The Downward Spiral (The Bottom) - Nine Inch Nails
And All That Could Have Been - Nine Inch Nails
Breeze still carries the sound Maybe I’ll disappear
Tracks will fade in the snow You won’t find me here
Ice is starting to form Ending what had begun
I am locked in my head With what I’ve done
I know you tried to rescue me Didn’t let anyone get in
Left with a trace of all that was And all that could have been
Please Take this And run far away Far away from me
I am Tainted The two of us Were never meant to be
All these Pieces And promises and left behinds If only I could see
In my Nothing You meant everything Everything to me
Gone fading everything And all that could have been
Please Take this And run far away Far as you can see
I am Tainted And happiness and peace of mind Were never meant for me
All these Pieces And promises and left behinds If only I could see
In my Nothing You meant everything Everything to me
“The Day The World Went Away” - Nine Inch Nails
I’d listen to the words he’d say but in his voice I heard decay
the plastic face forced to portray all the insides left cold and gray
there is a place that still remains it eats the fear it eats the pain
the sweetest price he’ll have to pay the day the whole world went away…”