Finalmente estou medicada e as coisas parecem que irão melhorar. Digo que “parecem” porque, para ser bem sincera, eu perdi todas as esperanças que realmente melhorem.
Estou presa num universo onde o telefone não funciona, o computador funciona mal, eu tenho um trabalho que não gera renda suficiente para eu viver e eu passo a semana toda em looping tentando resolver os mesmos problemas - o telefone, o computador e o trabalho que funciona mal.
Já são quase três anos nesse looping. Eu nunca mais vou recuperar esse tempo.
É interessante notar que as pessoas me elogiam pela clareza e consciência que eu tenho de possuir uma disfunção, a disfunção bipolar. Elogiam mas não me ajudam de verdade. Eu preciso de muito mais ajuda do que parece que eu preciso. Claro, existem algumas exceções. A Andrea é uma delas, ela tem cuidado muito de mim nas últimas duas semanas. Apoiamos uma à outra, as duas com disfunção bipolar, mas de tipos diferentes (ela é tipo 01, com crises de euforia, eu sou do tipo 02, com 90% do tempo deprimida num nível insuportável).
Minha mãe me ligou essa semana. Sinto muita mas muita falta dela. O maior erro que eu cometi nesses últimos anos foi ter saído da casa dela, eu já estava seriamente doente com a disfunção e sem tratamento adequado. Ela lamentou muito isso no telefone comigo mas eu tentei dourar um pouco a situação para ela, falando que ainda bem que agora eu estou em tratamento. O tratamento veio em cima da último segundo. Eu já tinha planejado meticulosamente como é que eu ia “cair fora desse mundo de merda”, dessa vida de merda que eu vivo. No outro domingo de eleição, fui falar com minha tia e minha mãe, minha tia tem muita experiência com o assunto e ambas foram unânimes: eu nãoi melhorei nada nos últimos dois anos que moror sozinha, eu piorei a olhos vistos. Elas salvaram a minha vida, porque eu saí de lá com a firme convicção que eu precisava me internar. Só não fiz isso porque um amigo meu se comprometeu a encontrar um bom psiquiatra para mim e assumiu as despesas.
Ele não sabe o quão perto eu estive de sair fora. Não aguento mais, eu sei que poucos entendem isso. É insuportável.
Quem não é bipolar não tem idéia do pesadelo 24 horas por dia que é. Pensamentos confusos, incapacidade de raciocinar, de constuir frases coerentes, um sentimento de medo e de pesadelo o tempo todo. Você passa o dia todo fingindo ser uma pessoa cordata e racional e o medo uivando lá dentro. Usei uma imagem interessante falando com minha psiquiatra: o meu eu real está preso numa gaiola e tem um louco no controle.
Contagem exata? São CINCO anos disso.
Minha mãe lamentou não ter trocado de médico em 2004, quando ela percebeu que o tratamento com antidepressivos não estava funcionando. Antidepressivos não funcionam com bipolares do tipo 02, causam delírios. Em 2004 eu passei seis meses presa dentro de uma cabeça que tinha pesadelos dormindo e acordada. Ouvia vozes. Mas eu tentei animá-la, eu sei que não é fácil diagnosticar o distúrbio, mesmo quando o perturbado (que no caso sou eu) está afirmando a plenos pulmões o que tem.
Eu sempre falei que era bipolar. Curioso, as pessoas em volta de mim que eu precisava que acreditassem não acreditaram.
Me dá uma certa sensação de impotência. Vocês não tem idéia do quanto a minha vida está destruída. Está muito pior do que na época em que eu me divorciei.
Pelo menos agora eu durmo. OI remédio é maravilhoso. Me dá muita sonolência e confusão mas me deica calma e me faz dormir sem pesadelos. O alívio, desde o primeiro dia de medicação, foi icomensurável.
A médica me pediu para ter paciência. É difícil, meu computador ainda está com um problema e eu não tenho cérebro suficiente pra resolver. Minhas contas estão estouradas e eu não etnho previsão de quando vou ter dinheiro pra resolver isso também. A minha dívida é alta.
Mas pelo menos eu durmo. E gosto da minha gata, a melhor companhia que eu tenho. E eu tennho a Andrea me ajudando e alguns amigos que saem comigo de vez em quando e me fazem companhia. Ontem que msalvou meu dia foi o Rogério (obrigada, eui também amo você).
Ontem aliás eu só fui tomar remédio à noite, uma experiência interessante. Eu não tinha me medicado na sexta poorque eu quis ir numa festa e aproveitar a festa. Faz tanto tempo que eu não saio e não vejo pessoas, eu queria muito ir naquela festa.
Nas ontem à tarde eu estava sentindo o efeito de não estar medicada. Já estava deprimida outra vez. Já queria novamente me esconder em casa e não sair mais. Tudo bemm, tomeiu o remédio e dormi.
Voiu conseguir ir votar hoje. Voiu deixar meu computador disfuncionalr pra resolver quando eu voltar. Ou não. Estou tendo paciência comigo mesma, são apenas 15 dias de tratamento. A médica pediu um mês.
Eu ainda odeio a minha vida e ainda acho que não deveria mesmo ter saído da casa da minha mãe. Foi um erro que quase me custou a minha vida. Me custou tudo que eu tinha, com certeza. Vamos ver se agora que estou medicada eu vou conseguir escrever a minha monografia. Quero muito terminar a pós graduação. é uima coisa que eu desejo para mim há mais de dez anos. A pós é uma das coisas mais importantes para mim.
E meus amigos mais próximos (que trabalham comigo) têm alguns planos para nos ajudar com o trabalho , vamos ver se eu saio desse buraco.
Por favor, se alguém que vocês conhecem tem sintomas de bipolar, levem a um médico. O seu amigo está morando no inferno e às vezes nem sabe. Eu estou doente a pelo menos cinco anos, senão seis. Você pode ajudar a salvar uma pessoa desse inferno.
“Uma hora estou bem. Faço tudo que tenho que fazer. Estou distraído, trabalhando. De repente, do nada, acho que a vida é chata. Não tem graça nenhuma. Me dá uma preguiça danada. Fico pensando que eu não vou durar muito. Que eu vou morrer logo. Que eu vou morrer moço. Daqui a pouco. Que nada vale a pena. Que tudo é inútil. A sensação que eu vou morrer logo é tão forte que dá vontade de deitar e morrer de uma vez para tudo acabar. Mas eu sei que é a depressão falando. Essa depressão é um saco. Eu sei que é tudo da minha cabeça e é tudo invenção e não é real. Eu sei que já estou tomando meus remédios e eu tenho que esperar ela passar. Mas é um saco mesmo. Eu tenho que fingir que eu não estou pensando que eu estou morrendo.” - depoimento sobre a depressão, postado no site Transtorno Afetivo Bipolar.
Alguns links bons:
Doença Bipolar - como evolui?
CRISE DE IDENTIDADE
Transtorno bipolar do humor - José Alberto Del Porto
As bases neurobiológicas do transtorno bipolar