Thursday, January 8, 2009

'Cinema'

Cinema experimental

Saturday, August 19th, 2006

Surrealismo e poesia visual por Joanna Woodward. Seus trabalhos cinematográficos são na maioria animações surreais com clima gótico-expressionista. A conta do Youtube é dela mesma.

O Youtube me fascina pelas pérolas que eu consigo encontrar por lá.
Uma curiosidade: Joanna Woodward foi namorada do cantor da banda gótica-punk da década de 80, Bauhaus, que aparece cantando a música “Bela Lugosi is Dead” no início do filme cultFome de Viver“.

Don’t Submit To A Moments Passion With A Stranger

The Brooch Pin And The Sinful Clasp

Sawdust For Brains And The Key of Wisdom

Mais filmes de Joanna Woodward.

O Arco

Friday, August 18th, 2006

O Arco

Hoje, um amigo meu que normalmente é metódico e cumpridor de agendas, me telefonou no meio da tarde e me “arrastou” para assistir o filme coreano “O Arco”, de Kim Ki-duk. Foram duas agradáveis surpresas, meu amigo ter tido uma ação tão espontânea e o filme, lindo. Apesar da minha paixão por filmes asiáticos, eu ainda não tinha assistido a nenhum dos filmes desse diretor. Fiquei com muita vontade de assitir mais filmes dele - “O Arco” é o 12º filme de Kim Ki-duk.
Como eu fiquei com dúvidas se tinha compreendido ou não o filme (meu amigo compreendeu mil vezes melhor que eu) eu fui atrás de alguma análise elucidativa. Encontrei no Omelete.
É curioso perceber o quanto é árido e complicado para os ocidentais compreenderem filmes orientais, o quanto a percepção, a simbologia e o raciocínio orientais são completamente diferentes do ocidental.

Batman Dead End e Troops

Sunday, August 13th, 2006

Fanfilm sobre Batman exibido na Comicon em 2003. Leia a história completa sobre a produção desse filme e uma entrevista com o diretor, Sandy Collora, aqui, via Omelete.

Link da produtora de Sandy Collora: Collora Studios

Esse aqui eu não encontrei no Youtube, mas está disponível para download. Basicamente é uma excelente paródia de Star Wars feita no estilo de um “reality show” americano chamado “Cops”. Divertidíssimo e inteligente:

Forcenet: Troops (download)
Ficha no IMDB: Troops (1998)

House of Sand and Fog

Monday, June 19th, 2006

Ontem, enquanto as pessoas torciam pelo jogo da copa, eu assistia por duas vezes seguidas “House of Sand and Fog“.
É o primeiro filme dirigido pelo ucraniano Vadim Perelman, com a bela e magnífica atriz Jennifer Connelly e o veterano Ben Kingsley. Baseado em um livro de mesmo nome, é a história de uma moça que, em meio a uma profunda depressão pelo final de seu casamento, fechada há oito meses na casa que herdou do pai, perde a casa por um erro do município, que a considera devedora de impostos. A casa vai a leilão e é arrematada pelo iraniano Behrani (Ben Kingsley) que pretende reformá-la e vendê-la pelo quádruplo do que pagou e assim, recuperar sua situação financeira para dar melhores condições à sua família.

As virtudes: bela cinematografia, bela direção de atores, pausas contemplativas mostrando a névoa do título e a costa oceânica, um pouco de poesia. O livro deve ser muito bom, com a crítica ao sistema capitalista e à prepotência do sistema governamental americano, que causa a tragédia dos personagens por um erro administrativo e depois não consegue mais consertar, com o conflito cultural entre os americanos e os iranianos, um tema especialmente atual, a indiferença da família da protagonista, que não se dispõe a correr em seu auxílio, a forma como o vício por bebida e cigarro é colocado na história, o modo como Kathy vai sendo paulatinamente derrotada.

Os problemas: os iranianos não foram construídos com precisão, durante a primeira parte do filme eu confundi o perfil desenhado para os personagens com paquistanses, porque vários detalhes me pareceram fora de lugar. Uma das críticas do filme que eu li diz que eles são persas e falam persa. Não sou especialista em cultura árabe nem em muçulmanos, mas me pareceu que vários detalhes visuais estavam destoando, mesmo para persas. A senhora Behrani parecia muito mais uma esposa hindu do que uma muçulmana persa.
A profundidade dos personagens “não chega lá”, com exceção da personagem de Jennifer Connelly. Isso me deixou preocupada. Filmes focados em pessoas são raros, eu vou rodar um filme focado em pessoas, eu me preocupo com a “dose certa” na direção e no texto, que deixa ou não claro para o espectador o que é que os personagens estão pensando e por que eles agem como agem.
Elementos importantes no filme não estão claros ou são contraditórios, como o policial Lester, que se apaixona por Kathy e larga a família por ela e depois vai preso pela confusão causada com Behrani; algumas de suas escolhas são claras, mas não todas. Não dá pra entender a motivação dele, o personagem é confuso e isso é ruim para o filme.

Escolhas estéticas: o poster mostra um vidro quebrado. É um elemento solto, não está relacionado a nada do filme. A areia do título é focada apenas como um dos elementos do oceano. Se a areia está no título, deve existir uma razão, mas isso não foi aproveitado estéticamente. A névoa aparece belíssima, mostrada flutuando e correndo acima do litoral. A casa deixou a desejar - e isso me deu arrepios, porque temos uma casa no Syndrome também, que é importante para a trama.
Gostei de alguns usos de cores, mas não de todos. Gostei muito da maneira que a protagonista é mostrada. Jennifer Connelly, além de grande atriz, é linda, os cineastas geralmente tiram partido disso.
Não entendi a escolha das fotos da divulgação do filme. É o segundo filme que assisto nos últimos meses no qual percebo que as fotos escolhidas não mostram a beleza e a intensidade do filme.

Saldo final: Gostei do filme mas fiquei preocupada.

House of Sand and Fog

Um filme

Tuesday, May 30th, 2006

Helm's Deep
Helm's Deep
Helm's Deep
Helm's Deep

Okay, é pra citar só UM filme? Só UM? Está aqui. Tansformaram as ilustrações do livro em filme; essa armadura élfica é o máximo do máximo. O filme é emocionante. Essa é a função do cinema: emocionar e transformar. LOTR é cinema da melhor qualidade com uma magnífica direção de arte. Cinemão.

E essa é a minha seqüência favorita entre todas. Eu sei, os fãs do livro DETESTAM essa seqüência porque não existe no livro. Então, kids, isso é cinema!

E só pra não dizer que eu não critiquei detalhes - preciso justificar minha fama de detalhista, certo? - eu não concordo com uma única coisa: um general não iria para a batalha com seu exército sem elmo. Haldir deveria usar elmo nessa seqüência. Poderia tirar o elmo e cumprimentar os companheiros sem elmo, mas deveria aparecer alinhado na muralha com elmo. Acredito que escolheram mostrar Haldir sem elmo para destacá-lo visualmente - é mais fácil vê-lo sem elmo e iluminado do alto, como está, com essa “aura” luminosa - mas eu considero fora de contexto.

Three Rings for the Elven-kings under the sky,
Seven for the Dwarf-lords in their halls of stone,
Nine for Mortal Men doomed to die,
One for the Dark Lord on his dark throne
In the Land of Mordor where the Shadows lie.
One Ring to rule them all, One Ring to find them,
One Ring to bring them all and in the darkness bind them
In the Land of Mordor where the Shadows lie.

Listening: The Hornburg - Howard Shore - Lord of the Rings: The Two Towers Soundtrack - 2002

A Vila

Tuesday, May 16th, 2006

É cedo, está frio, tomei chá de madrugada. Estou com uma gripe horrorosa desde sexta-feira à noite. Detesto essas gripes traiçoeiras que me atacam durante a noite, eu tenho febre sozinha no escuro da madrugada, dá uma sensação de completa solidão. Acordei pela gripe às quatro da manhã. Fiz um chá, dei uma volta pelo prédio - esse prédio que eu ainda moro e está cheio de fantasmas desde então - e terminei a madrugada assistindo a Vila na tv a cabo.

Tem muita gente que não gosta do M. Night Shyamalan. Acusam-no de pieguismo, de sentimentalismo, de obviedade. Quando o Sexto Sentido foi lançado, me recordo de várias pessoas que declararam com bastante empáfia “eu adivinhei o final” como se isso fosse o mais importante do filme, adivinhar o segredo da história. Essas pessoas, obviamente, não perceberam a delicadeza da narrativa ou a sensibilidade do tratamento da história. Como poderiam? Estavam preocupados em adivinhar o final.

A cultura indiana tem e sempre teve narradores que contavam suas histórias acompanhados de música, dança, teatro de marionetes. Shyamalan é um contador de histórias indiano que mostra em filmes como enxerga a cultura ocidental comandada pelo dinheiro, consumo e violência com seu olhar fortemente influenciado pela sua origem indiana. Seus filmes tem a lentidão e a poesia, típicas das narrativas populares hindus, fala das pessoas através de histórias pessoais, fala da sociedade através das histórias das pessoas. São fábulas modernas.

Algumas pessoas não entendem os contadores de histórias. O maior prazer do contador de histórias é a história em si, como contá-la e as reações de seus ouvintes. A necessidade de contar e ouvir histórias fez com que os primeiros homens pré-históricos pintassem cavernas, fez com que os gregos escrevessem peças teatrais, nos trouxe grandes autores como Shakespeare. Como diz Pierre Lévy, nós somos texto. Contar histórias é uma arte e existem bem poucos no cinema que se tornaram exímios nessa arte, como por exemplo, Frank Capra, ou Akira Kurosawa.

Shyamalan é um contador de histórias indiano em profundo contato com o ocidente.

A Vila é isso, uma linda fábula de um contador de histórias, um conto de fadas.

Quando o filme foi lançado, a propaganda era acompanhada pelo pedido de que as pessoas não revelassem o final do filme. Vi nos fóruns do IMDB muitas reclamações sobre as “reviravoltas” dos filmes de Shyamalan. Muitas pessoas parecem inconformadas com sua característica de “fumaças e espelhos”, das coisas não serem o que parecem ser. Considerando-se que Shyamalan segue a tradição dos contadores de histórias, é de se esperar esse tipo de reviravolta. Faz parte do gênero, da surpresa necessária para causar reflexão em quem acabou de ouvir a narrativa. Contos de fadas, mitos, fábulas, todos eles têm reviravoltas e finais que fazem a platéia refletir sobre o que acabaram de ouvir/assistir.

A Vila tem os elementos das fábulas e contos de fadas. É uma história de amor e tristezas, com missões que precisam ser realizadas pelos protagonistas, criaturas assustadoras e medos que precisam ser enfrentados, ritos de passagem como funerais e casamentos.

Assisti a Vila até quase seis da manhã (é a terceira vez que assisto) e fui dormir novamente. Tive sonhos adoráveis, recheados de memórias agradáveis mesclando lembranças de infância com lembranças dos meus gatos - efeito colateral provável do conto de fadas. Acordei bem melhor da minha gripe.

A arte, a memória, o cinema e o onze de setembro

Tuesday, May 2nd, 2006

Onze de Setembro

O Onze de Setembro marcou a memória dos norte-americanos. Foi um ataque terrorista inesperado, destruiu um de seus maiores símbolos, matou milhares de pessoas, demonstrando a fragilidade de uma nação que orgulhosamente se considerava invencível e soberana.

A história do filme Vôo 93 (United 93) é uma dramatização baseada em fatos reais que tenta adivinhar o que teria acontecido dentro do vôo 93 da decolagem do aeroporto Internacional de Newark até a queda em um local deserto da Pensilvânia que matou todos os passageiros e os terroristas a bordo. Os terroristas que o tomaram não conseguiram usá-lo contra um dos alvos porque o vôo saiu atrasado, quando estava no ar já circulavam as notícias dos outros dois aviões que tinham acertado o World Trade Center e o país todo se encontrava em estado de alerta.

É compreensível que Hollywood continue a produzir filmes dramatizados ou não, sobre o evento. A cultura americana possui essa característica do memorial, do inesquecível, do imperdoável. Vemos isso nos vários filmes sobre Pearl Harbor, sobre o holocausto da Segunda Guerra Mundial, sobre o Vietnã, sobre a Guerra do Golfo. A questão não é o memento em si, um elemento cultural presente em todas as civilizações. A questão é como esse memento é retratado. A estréia mundial de Vôo 93 no Festival de Tribeca e as variadas reações do público, que incluíram inúmeras manifestações de protesto, trazem um questionamento importante sobre como e por que histórias são contadas, especialmente no cinema, que consegue materializar a narrativa de tal forma que, passado o tempo, as imagens do filme permanecem mais reais e presentes na memória das pessoas do que os próprios fatos.

No filme Memento (Christopher Nolan, 2000) o personagem principal da trama está em busca do assassino de sua esposa. Ele tem um problema causado pelo trauma da perda: não consegue fixar a memória recente, suas lembranças terminam no momento do assassinato. Investigando o assassinato, o personagem escreve frases soltas em seu corpo, tira fotos polaroid de pessoas e coloca notações para guiar a si mesmo assim que sua memória recente for novamente perdida - o que irá acontecer, inevitavelmente. Durante o filme somos questionados sobre quem está manipulando quem, qual é a verdade escondida por trás da falta de memória, o que realmente teria acontecido no dia da morte da mulher. O memento é disfuncional, o personagem não consegue deixar o acontecimento no passado e seguir sua vida e também não consegue lembrar dos fatos para resolver o assassinato e apaziguar suas emoções.

O grande perigo dos mementos é esse: os fatos narrados não são exatamente a verdade mas uma interpretação emocional da realidade do ponto de vista do realizador. Um memento não pode ter pretensões documentais porque terminará deixando a audiência como o personagem do filme de Nolan, confusa, misturando suas emoções com os próprios fatos.

No filme “Eleven Minutes, Nine Seconds, One Image: September 11” (11′09”01, 2002) temos onze episódios de diretores de diferentes nacionalidades, narrando histórias que ocorreram na data de 11 de setembro em locais e culturas diferentes. Suas histórias narram eventos igualmente trágicos e dolorosos - alguns ficcionais - mas não apenas o episódio americano. O episódio americano, belo e emocionante, dirigido por Sean Penn não foca o ato terrorista diretamente: mostra um viúvo de idade que lamenta a perda da esposa, faz um memento diário sobre ela, colocando uma de suas roupas sobre a cama e, no instante em que as torres gêmeas desabam, tem uma epifania de redenção e superação. O filme foi considerado antiamericano por alguns porque mostra que o foco mundial não está voltado para os Estados Unidos da América e que existem tragédias em todos os lugares, algumas delas causadas pelos próprios americanos.

Não sei se irei assistir “Vôo 93″ justamente por causa do que li sobre as manifestações das pessoas em reação ao filme. Apesar de lamentar o ato terrorista do Onze de Setembro, como muitas outras pessoas de diferentes nações, não considero os Estados Unidos o foco do mundo. Como uma pessoa que trabalha com arte e cinema, tenho alergia a dramatizações que alteram os fatos em prol de uma narrativa cinematográfica mais bem amarrada, em prol de levar a platéia a uma reação emocional, num estilo mais hollywoodiano. Não gosto de filmes que ficam no meio-termo, que não são documentários mas também não adotam completamente a tarja de ficção. Fico com a impressão de uma tentativa de manipulação, de oportunismo, de falta de ética - o filme vai faturar muito às custas da desgraça. Eu me pego sempre imaginando o que aconteceria se um filme desses fosse colocado numa cápsula do tempo desenterrada daqui a mil anos e como as pessoas do futuro iriam interpretar o que estão assistindo. Será que acreditariam estar assistindo a um documentário do passado? É muito melhor assistir 11′09”01, um filme que deixa claro quando está sendo documental e quando está sendo ficcional, com um tratamento belíssimo e emocionante para todas as tragédias que retrata, um memento muito mais confiável e digno.

Estrela Solitária: o título é terrível mas o filme é um Wim Wenders

Monday, April 24th, 2006

Win Wenders

Parece que só Cannes e eu gostamos do novo filme de Wim Wenders, pelo menos foi essa a minha impressão diante do grande volume de críticas negativas que eu li.

Eu posso entender por que no Brasil deram ao novo filme de Wim Wenders o nome de Estrela Solitária, a referência remete à expressão Lone Star, muito usada nos Estados Unidos para designar o cowboy, o ranger, o herói solitário em sua jornada contra malfeitores pelo velho oeste norte-americano. Infelizmente o nome é uma escolha ruim de doer para o filme de Wenders.

A confusão começou no Brasil quando o personagem de um famoso programa de rádio americano, chamado O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger) foi chamado de Zorro por aqui, apesar de obviamente não ser o mesmo personagem. É por isso que muita gente acredita que Zorro tem um amigo índio chamado Tonto ou um cavalo chamado Silver mas os dois pertencem ao ranger John Reid, o Cavaleiro Solitário. A distribuidora deve ter pensado que chamar o filme de Wenders de Estrela Solitária poderia evocar os velhos filmes de cowboy - mas só se for para quem já tem mais de sessenta anos, as novas gerações não conhecem a referência. Para completar a confusão, Estrela Solitária é o subtítulo do filme brasileiro sobre Garrincha.

Problemas com o título à parte, Don’t Come Knocking (literalmente, não chegue batendo, numa alusão à personalidade do protagonista e a forma como ele sai abordando as pessoas) de Wim Wenders é um filme magnífico. Faz parte daquela coleção que normalmente eu chamo de filmes que deveriam ser indicados para QI mínimo de 120: não é para a platéia normal, que vai odiar o filme, achar lento, chato, arrastado e não vai entender nada. O filme requer contemplação (as imagens são belíssimas), requer atenção (a trama é complexa), requer reflexão (a cada cena uma questão existencialista espinhosa é proposta).

Sam Shepard, que escreveu o roteiro, interpreta Howard, um ator decadente de filmes de faroeste. O filme começa no set de filmagens de mais um faroeste que Howard estava fazendo, de onde ele fugiu. Tim Roth vai sair atrás de Howard por metade do país, com seu jeitão sou um agente da Matrix discreto, para levar o ator de volta ao set e fazê-lo cumprir seu contrato. Howard decidiu abandonar a filmagem devido a uma crise pessoal, viaja até sua cidade de origem onde sua mãe irá lhe contar que ele tem um filho.

O filme propõe uma reflexão sobre a decadência: a decadência dos antigos modelos americanos de herói, a decadência do ator de filmes de velho oeste, a decadência do cinema americano, a decadência da própria cultura americana como um todo. Na cidade da mãe, Howard vai até um cassino e termina preso pela polícia: um dos policiais o chama de cowboy de forma sarcástica.

O filme também faz contraponto entre realidade e ficção: a mãe de Howard acredita em tudo que lê sobre o filho nas revistas de fofoca de cinema, Howard se confunde com seu eterno personagem de cowboy, a mística e o dinheiro de Hollywood são questionados o tempo todo. As personagens de Jessica Lange e Sarah Polley dialogam sobre o contraste entre o universo do cinema com a realidade: Jessica diz que um dia vieram fazer um filme na cidade mas depois que todos foram embora, a cidade voltou ao que era antes, nada mudou; Sarah diz que adoraria poder viver em um filme porque nos filmes tudo é sempre mais bonito.

O principal foco de Don’t Come Knocking, entretanto, são os relacionamentos humanos, especialmente os familiares. Wim Wenders é um eterno apaixonado pelo ser humano e sua relação com o mundo - e com outros seres humanos. Há confrontos de todos os lados, mostrando uma incapacidade generalizada dos personagens de se relacionarem entre si: Howard é tratado pela mãe como se fosse criança, Howard não se casou, seu filho recém-descoberto não o aceita. A chamada família disfuncional que era considerada uma exceção dentro do universo perfeito do american way of life transformou-se em regra; raro hoje é encontrar a típica família americana.

Eu confesso que não sou uma grande fã de Wenders, ainda prefiro o amigo dele Jim Jarmusch, mas ainda assim, vale a pena assistir Don’t Come Knocking, é um excelente filme que merece ser visto mais de uma vez.

Links:
Site Oficial do Filme
O Cavaleiro Solitário que não era o Zorro

A idéia é boa mas a realização…

Friday, April 21st, 2006

Eu pensei que eu já tivesse visto de tudo na vida. Pensei que nada no mundo iria superar algumas das coisas trash que eu já assisti. Pois bem, eu estava enganada.

Primeiro algumas explicações. Como todas as pessoas do mundo, eu tenho um lado negro, o meu lado negro chama-se “cinema trash”. Vejam bem, kids, eu AMO cinema trash.

Já assistiram The Raven (1963) com Vincent Price? E que tal The Abominable Dr. Phibes (1971)? Não? Não sabem o que estão perdendo. Imagino que já ouviram falar de Ed Wood, ao menos do filme de Tim Burton. Pois precisam assistir Glen or Glenda (1953). Conhecem John Waters? O meu favorito é Serial Mom (1994). Eu adoro Wes Craven. Sou fã de Johnny Depp há décadas porque eu o vi pela primeira vez em A Nightmare On Elm Street (1984), série que eu tive o prazer de assistir completa e da qual meu filme favorito é Freddy’s Dead: The Final Nightmare (1991) por causa da seqüência de pesadelo onde a “vítima da vez” está numa casa maluca conversando com o personagem de Johnny Depp, que aparece na TV.

Eu sou fã de John Carpenter, meu favorito é Vampires (1998). Para mim, Fright Night (1985) é um clássico do horror trash anos 80 que fica ainda mais trash em Fright Night Part 2 (1988) com a dança vampiresca cafonérrima da vampira Régine (Julie Carmen).

Sentiram o drama?

Existe qualidade nesses exemplos que eu dei. São filmes que possuem beleza estética, roteiros interessantes, é cinema bem executado, tanto que vários deles foram sucessos de público. A luz noir e o expressionismo dos filmes de horror PB de Vincent Price são magníficos. A série Fright Night é um resumo do que acontecia na década de 80, com as cores, os cabelos, as roupas, as personagens da década de 80. Nada mais adequado na era em que a AIDS surgiu no mundo do que um surto de filmes vampirescos ambientados em danceterias. Wes Craven realizou o que eu considero uma série de filmes surrealistas onde o tema onírico recebe um tratamento de primeira linha, especialmente depois do sucesso da série de Freddie, recheado de efeitos especiais para compor esse universo de pesadelos com mais eficiência. John Carpenter transforma os filmes de vampiros em faroestes filmados à luz dos finais de tarde. John Waters é provavelmente um dos mais sarcásticos críticos da cultura kitsch norte-americana tendo o travesti Divine como seu principal personagem. Só que todos eles são trash, incrivelmente trash, sem orçamento, sem apoio inicial dos estúdios, sem distribuição. Wes Craven só conquistou crédito depois da bilheteria do primeiro Freddie. John Waters permaneceu independente, mesmo com o sucesso de Serial Mom. Se ficaram convencidos e quiserem mais, recomendo esse site: Cool Cinema Trash.

Hoje fez um lindo dia de feriado com cara de sábado, eu tenho alguns trabalhos para terminar mas fiz uma pausa à tarde e resolvi ver um pouco de TV a cabo. Esbarrei com uma bizarrice sem fim chamada It’s Pat. O filme já estava começado, atraiu a minha curiosidade. Assisti inteiro.

“It’s Pat” é um skit de Saturday Night Life que foi transformado em longa metragem. O filme é de 1994. Tem Dave Foley, que eu adoro, não perdia um episódio de NewsRadio por causa dele. Tem a chatíssima Kathy Griffin, a ruiva que enlouquecia a eterna boazinha Brooke Shields em Suddenly Susan. Tem Kathy Najimy, uma comediante de excelente timing. Tem uma rápida ponta de Harvey Keitel fazendo um padre, no final do filme. Tem até Camille Paglia dando uma entrevista e falando sobre androginia. E consta na trivia do filme - pasmem! - que Quentin Tarantino ajudou a escrever o roteiro!!

Meudeus, como esse filme é ruim. É um lixo atômico de tão ruim. É tão ruim que foi indicado a 5 Framboesas de Ouro (pior filme, pior atriz, pior nova celebridade, pior casal romântico e pior roteiro) e não ganhou nenhum. Teve um concorrente de peso, é verdade, Showgirls (1995) de Paul Verhoeven, que ganhou pior atriz, pior roteiro, pior filme, pior diretor e vários outras categorias. Verhoeven foi receber o prêmio pessoalmente, sendo o primeiro diretor vencedor em toda a história do prêmio a comparecer na cerimônia.

Chris and Pat

O adorável casal em um momento romântico

O plot é simples: tem esse “cara” chamado Pat, que parece ser do gênero masculino mas não dá pra dizer com certeza e é interpretado pela atriz Julia Sweeney coberta de próteses de borracha para fisicamente parecer “um cara gordo”, com peruca, sobrancelhas postiças e óculos. Tem uma “garota” chamada Chris, interpretada ótimamente por Dave Foley de peruca loira e batom vestindo um figurino largo sempre cobrindo o corpo todo. Tem um vizinho, Kyle, que fica cismado com aquela bizarrice. A cisma de Kyle se transforma lentamente numa obsessão em descobrir a verdade por trás daquela criatura estranha. Pat mantém um diário trancado com senha em um laptop que parece um computador de brinquedo. Pat e Chris estão para ficar noivos. Kyle faz de tudo pra descobrir o que é que está rolando.

O problema é que “Pat” é um personagem que foi criado para um skit e não para um filme. No skit, a piada toda girava em torno do fato de que ninguém sabe dizer se Pat é um cara gordo que parece uma mulher feia ou uma mulher feia se passando por um cara gordo. “Pat” pretende fazer piada com aquela androginia que foi característica dos anos 80 mas foi produzido com uma década de atraso e não desenvolve o tema, não desenvolve a piada.

Vamos esquecer por um minuto que “Pat” é uma bobagem. Agora vamos imaginar que esse fosse um filme dirigido por outra pessoa. John Waters, por exemplo, ou David Lynch.

Era uma vez uma pessoa chamada Pat. Não sabemos o gênero dessa pessoa, mas parece uma mulher feia e gorda muito masculinizada ou um cara gordo desprovido de hormônios masculinos. Então temos Chris, que parece uma mulher muito sem sal, ou um cara vestido com as roupas da tia. Eles moram sozinhos, cada um em um apartamento cubículo. Chris assiste novelas da tarde e chora, emocionada. Pat trabalha numa loja de conveniência e faz piadas sem graça para os clientes. Os dois se conhecem no pátio do prédio, em frente à piscina rodeada de flamingos rosa. Começam um relacionamento. Ambos têm essa bizarrice em comum. As pessoas que convivem com eles ficam intrigadas e desejando saber quem é o quê. E a trama se complica.

Se fosse um filme de John Waters, depois de uma meia hora de filme, ele nos contaria que se trata de uma farsa, que Pat é uma garota travestida de cara e Chris é um cara travestido de garota. Provavelmente Waters adicionaria pais neuróticos para Pat, trabalhadores de classe baixa que moram em uma casinha de subúrbio e uma mãe possessiva para Chris que vive vestida de tailleurs rosa (podia ser a Debbie Reynolds, ficaria ótimo). Pat e Chris não querem contar um para o outro quem realmente são, com medo de perder o amor da sua cara-metade. Só que o romance vai ficando sério. Finalmente decidem contar e descobrem que são feitos um para o outro. As famílias enlouquecem com o anúncio do casamento. Ficam se tratando de forma constrangida porque não sabem se a outra família sabe do “segredo” do filho/filha nem se os próprios filhos sabem do “segredo” um do outro. Seria uma comédia de rolar de rir.

Agora imaginemos o filme na mão de David Lynch. Kyle MacLachlan (que, por sinal, ganhou um Framboesa de Ouro de pior ator por ShowGirls) seria o vizinho que decide investigar o casal bizarro. Pat seria um anão gordo com um bigode falso, Chris seria uma magricela gigante de peruca. Teríamos várias cenas de sugestão de perversões de ambas as partes. O síndico do prédio seria um sujeito que só veste terno preto e cospe tabaco pelos cantos. A mãe de Chris teria problemas com bebida (de novo, Debbie Reynolds me parece uma excelente opção para esse papel). O pai de Pat seria um ex-policial gay enrustido. Alguém morreria na piscina do condomínio lá pela metade do filme e voltaria em sonhos para conversar com Kyle MacLachlan. Faltando uns 20 minutos para acabar o filme, Kyle MacLachlan descobriria toda a verdade falando com o fantasma da piscina, Pat e Chris o matariam com uma pá, enterrariam no bosque próximo, fugiriam durante a noite, casariam em uma capela de Las Vegas e abririam uma funerária.

É uma pena. Até Adam Sandler teria feito de “It’s Pat” um filme melhor. Que desperdício.

V de Vingança

Saturday, April 8th, 2006

Ainda bem que não fui só eu que odiou. Os Wachovski brothers parecem só saber fazer The Matrix, mesmo. Decepcionante.

Agora meus dois centavos sobre a obra de Alan Moore. Em geral, eu gosto de Alan Moore. Gosto da esquisitice dele, invejo o fato dele ser amigo do Neil Gaiman - embora eu prefira mil vezes ler Neil Gaiman e seu parceiro de insanidades, Terry Pratchet, do que as obras de Moore.

As obras do estilo “here I come to save the day”, não me cativam, não importa o autor ou a seriedade da obra. São obras que ficariam muito melhores SEM o super-herói mascarado. Não consigo pensar em adjetivo mais superlativo que simplesmente “legal” quando se trata de qualquer obra que tenha sujeitos vestidos de uniformes colantes com as cuecas por fora da roupa e capas - ou qualquer outro modelo de uniforme. Só existem duas obras-prima nesse estilo: Os Incríveis, justamente por ser saborosamente irônico e colocar o mundo dos super-heróis onde ele pertence, no público infantil, e Batman de Tim Burton, justamente por ridicularizar o pretensioso “herói” milionário mimado prepotente Bruce Wayne.

Toda a adoração por Batman e seus amigos justiceiros não faz o menor sentido para mim. Parece coisa de pessoas que se recusam a crescer e encarar o mundo adulto - e o mundo real - e que ainda acreditam que precisam de um salvador, alguém para resolver os problemas do mundo - que não seja nenhum de nós, porque salvar o mundo cansa muito e dá muito trabalho.

Se a admiração pelas histórias de heróis mascarados se der pela apreciação do mundo da fantasia, posso citar pelo menos vinte outras coisas mais interessantes em termos de fantasia do que super-heróis sem nem precisar pensar duas vezes - com ou sem superpoderes, de origem humana, subhumana ou superhumana, tanto faz.

Na minha opinião a onda de super-heróis é algo tipicamente fruto da cultura estadunidense por uma necessidade egomaníaca e fetichista que alguns estadunidenses parecem ter por pessoas vestidas com as cores de sua bandeira empenhados em defender o “american way of life” do resto do mundo.

A obra-prima de Alan Moore ainda é o gótico e soturno Monstro do Pântano, que infelizmente nunca foi filmado, e Watchmen, que está em produção - espero que não perca a pesada crítica que faz aos estadunidenses, seu “american way of life” e seus “heróis”, a melhor coisa da história - e eu espero que funcione melhor na tela do que “From Hell” - tudo bem, o original de From Hell não ajudava muito mesmo - ou “V de Vingança” - cujo original é “legal”, mas já envelheceu.

A Arma Perdida

Tuesday, March 28th, 2006

Sábado assisti a um filme chinês extremamente interessante: “A Arma Perdida” (2002) de Chuan Lu.

A “Arma Perdida” é o segundo filme de Chuan Lu. É um filme chinês continental, falado em mandarim, filmado em uma vila e primeiro filme a ser projetado digitalmente na China apesar de ter sido produzido em 35mm. É um filme de baixo orçamento. É uma pequena obra-prima do cinema.

A crítica não entendeu o filme, com raras excessões. Infelizmente não encontrei informações que indiquem se o filme foi bem ou foi mal na própria China. Os ocidentais claramente não entenderam o filme por se tratar, talvez, de um filme muito, muito chinês.

A história é extremamente simples: um oficial de polícia perde sua arma na festa de casamento de sua irmã e precisa encontrá-la. Além das razões óbvias para a busca, existe um questionamento interessante a respeito da arma perdida que serve de compasso para o filme: não existem armas na aldeia, a arma tem 3 balas e as pessoas tem receio de que seja usada, pois partem do pressuposto que quem roubou a arma pretende usá-la. Esse detalhe permite uma reflexão interessante sobre a presença da violência no mundo atual. Para aquela aldeia uma única arma com apenas 3 balas é um problema de grandes dimensões. A perda da arma torna-se uma questão de honra para o oficial chinês, que começa a buscá-la de forma quase obsessiva. Os aspectos culturais e sociais envolvendo a questão - bem como a posição política da China comunista - são apresentados e discutidos de forma leve, não panfletária.

Fazendo uma busca por imagens do filme, não encontrei nenhuma das cenas do filme que gostaria de ter encontrado. Talvez o filme não tenha se tornado popular justamente por falta de fotos de still melhores. As que eu encontrei não fazem jus ao filme. O cinema chinês tem produzido filmes de impressionante beleza, talvez esse filme modesto e despretensioso - mas lindo e cheio de significados - não tenha impressionado os críticos ou a platéia por falta de divulgação apropriada. Estéticamente, é um filme lindo, cheio de significados, com um tratamento de imagem de alta qualidade e enquadramentos cuidadosos. Todos os pontos de luz são indicados, as fontes de luz participam da composição da cena. Apesar do baixo orçamento, há uma grande preocupação estética cheia de significados: a aldeia é cinzenta, triste, as ambições pessoais do oficial de polícia são sempre pontuadas pelas cores e pela luz. A modernidade que avança sobre a China é pontuada pelo uso de cores, destacando-as do cenário cinzento da antiga China não desenvolvida.

Talvez o filme não tenha se tornado popular justamente por falta de fotos de still melhores. As que eu encontrei não fazem jus ao filme. O cinema chinês tem produzido filmes de impressionante beleza, talvez esse filme modesto e despretensioso - mas lindo e cheio de significados - não tenha impressionado os críticos ou a platéia por falta de divulgação apropriada.

O final do filme lembra alguns dos melhores samurai-westerns de Kurosawa. Chuan Lu é um diretor muito interessante. Vou aguardar com interesse seus próximos filmes.

Nota: Vi o filme no canal Cinemax.

Cellular

Tuesday, March 21st, 2006

Não, eu não vou analisar esse filme. É ruim de doer, mas muito, muito ruim mesmo. Eu só assisti porque era um sábado à noite que eu não tinha nada melhor para fazer. Eu diria que a filmografia do diretor explica muito sobre por que o filme é tão ruim. Como diretor, ele é um excelente doublé de ação. Mas não, eu não vou analisar esse filme. Não vale o tempo que eu vou ficar digitando aqui.
…eu vou é pedir ao Paulo que assita e analise esse filme!