Thursday, January 8, 2009

'CinemaBrasilis'

“Qualquer filme brasileiro é melhor que qualquer filme estrangeiro”

Thursday, January 19th, 2006

Texto retirado do Reduto do Comodoro, blog do diretor Carlos Reinchebach:

Nós sabemos que as lendas surgem naturalmente da tradição oral; que a história do mundo e os evangelhos sofrem a ação sistemática da interpretação de seus narradores e tradutores.
Atribui-se ao saudoso mestre, intelectual, escritor e crítico Paulo Emílio Salles Gomes, a frase: “Qualquer filme brasileiro é melhor que qualquer filme estrangeiro”. A frase, inclusive, foi estampada numa das belas camisetas do canal Brasil.
Na verdade esta frase nunca foi dita; pelo menos, não desta maneira. Ela foi “esboçada” (ou “traduzida”) indiretamente do fanzine CINEGRAFIA, número um (e único), que era editado por Eder Mazini, Inácio Araújo e Carlos Reichenbach; com as colaborações de Jairo Ferreira, José Mario Ortiz Ramos, Renato Petri, Ivan Maglio e Ozualdo Candeias.
Em Cinegrafia, Paulo Emílio Salles Gomes, numa polêmica entrevista de capa, a respeito de sua notória militância a favor do cinema brasileiro, disse exatamente o seguinte:
“Nós tentamos seguir de perto toda a produção brasileira atual, sem nenhuma exceção. Eu compreendo que isto é uma coisa laboriosa, difícil, frequentemente ingrata mas que em última análise é culturalmente muito mais satisfatória. A gente encontra tanto de nós num mau filme (brasileiro) - que pode ser revelador em tanta coisa da nossa problemática, da nossa cultura, do nosso subdesenvolvimento, da nossa boçalidade - inseparável da nossa humanidade, que em última análise é muito mais estimulante para o espírito e para a cultura cuidar dessas coisas ruins do que ficar consumindo no maior conforto intelectual e e na maior satisfação estática o produto estrangeiro.”

O jardineiro fiel

Tuesday, December 13th, 2005

Fui assistir o filme do Fernando na Sessão Especial ABCine, com direito a debate com o fotógrafo do filme César Charlone depois da sessão.

Confesso que não gosto de Ralph Fiennes. Não sei bem explicar a razão. Acho a interpretação dele leguminosa. Ao mesmo tempo, adoro Rachel Weisz. Ela é charmosa, bonita sem parecer uma deusa onírica como as que Hollywood normalmente produz artificialmente. Rachel é uma mulher de carne e osso e isso dá veracidade ao personagem. Soube, inclusive, que o Fernando declinou a leguminosa Nicole Kidman para o papel, mais um ponto para ele, de quem já sou muito fã.

Mas essas minhas preferências são irrelevantes. O importante é o tratamento visual escolhido para o filme, o importante é a direção.

Eu sei, o filme é inglês, com co-produção alemã. Mas o olhar é completamente brasileiro.

Alto-contraste, colorido forte, texturas nas imagens. Panorâmicas aéreas longas, cheias de poesia visual, com pássaros voando em formação contrastando com o escuro dos lagos, planos abertos de uma imensa favela africana de telhados amarelados, close-ups das pessoas, roupas coloridas de azul, tons de vermelho e os tons de terra e pontos verde da paisagem queniana.

Os diálogos acontecem, mas com pausas pensadas. Nada de linguajar de novela, a pior praga do cinema brasileiro.

Charlone diz que trabalhou pensando na finalização. Não ficou tão preocupado com a luz no ambiente de filmagem, porque sabia que teria finalização. Iniciou a concepção fotográfica do filme pelo colorista. Devo confessar que saber disso me deu uma satisfação pessoal muito grande.

Explico.

Originalmente a fotografia sempre dependeu 100% do suporte. Tudo sempre girou em torno da emulsão, a latitude, cálculo da luz, adição de iluminação artificial para compensar uma falta de luminosidade no local, etc. Isso tanto para a fotografia de still quanto para a cinematografia. Não é à toa que os melhores fotógrafos de still do mundo possuem estúdios e equipamentos sofisticados para total controle ambiental e os fotógrafos capazes de tirar um instantâneo perfeito em luz natural sempre foram os mais valorizados.

O problema do filme versus luz sempre foi tão contundente e sério para o cinema que, durante a década de 50, quando imperava a Technicolor, o cinema confinou-se em estúdio, escravo da gigantesca câmera que rodava os 4 filmes simultâneos necessários para a geração da matriz colorida usada pela tecnologia proprietária da Technicolor e da necessidade do controle ambiental. A linguagem fixou-se em uma teatralidade imposta pela tecnologia.

A técnica evoluiu, as câmeras diminuíram de tamanho, os cineastas ganharam mais liberdade de movimento com câmeras menores. Algumas décadas depois os computadores surgiram na finalização mas, durante muito tempo, a tecnologia vem sendo usada muito mais para adicionar elementos visuais que não estão ali - ou seja, complementar a direção de arte - do que para auxiliar o fotógrafo em seu trabalho. E assim temos filmes como a saga de Lucas, que não existiria sem efeitos especiais ou a Saga do Anel ou qualquer outro “filme de efeitos especiais” da imensa lista produzida nas últimas décadas, filmes que do ponto de vista fotográfico utilizam uma receita especialmente preparada em prol dos efeitos especiais. A tecnologia vem para completar um cenário, completar uma cena, não como parceira efetiva da fotografia. A fotografia então é feita para proporcionar melhores imagens para o retoque eletrônico e não para obter melhores efeitos fotográficos.

Voltando ao filme de Fernando.

Charlone nos diz que concebeu a fotografia pensando na finalização. Que a primeira pessoa que quis conhecer foi o colorista que trabalharia no filme (para referência e melhor compreensão dessa questão, sugiro que dêem uma lida nesse resumo da Kodak, Sistema de Cinema Digital Kodak).

Essa forma de trabalhar onde o retoque eletrônico se transforma em ferramenta do fotógrafo modifica a concepção da fotografia completamente. Uma coisa é trabalhar com a expectativa de ter que acertar a luz e a cor na filmagem e outra coisa é trabalhar com a expectativa de poder trabalhar a luz e a cor no processo de finalização. São duas fotografias completamente diferentes e não estamos falando de um filme de efeitos especiais nem de um filme de ficção científica.

Essa mudança de perspectiva modifica completamente a concepção fotográfica do filme. O que se vê em O Jardineiro Fiel é câmera ágil, câmera na mão, ar de documentário. Em pontos importantes do filme, fala mais alto a narrativa da imagem.

Imagino a surpresa dos hollywoodianos e dos europeus ao assistir um filme tão ágil, montado com uma narrativa cheia de indas e vindas onde a África, principal cenário do filme, é mostrada de forma colorida e luminosa e os personagens ingleses são mostrados como imperialistas crus, vestidos em seus ternos mesmo sob calor africano.

Não sei se a história de John Le Carré é boa ou não. Não sei se é verossímil ou pura ficção. A câmera de Charlone dirigida por Fernando mostra a história de forma crua e realista, como se estivesse fazendo um documentário. A impressão que se tem é que estamos assistindo uma história que está acontecendo de verdade. E esse ingrediente diferente do que se produz massivamente em Hollywood é que dá ao Jardineiro Fiel a tônica especial que possui.

Filme de Meirelles é premiado em Londres

Friday, December 2nd, 2005

O longa “O Jardineiro Fiel”, produção inglesa dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, recebeu os prêmios de melhor filme, melhor ator (Ralph Fiennes) e melhor atriz (Rachel Weisz) no British Independent Film Awards. Baseado no romance homônimo de John Le Carré, o filme de Meirelles está em cartaz no Brasil há sete semanas, onde acumula 429 mil espectadores. Rodado na África e falado em inglês, o título é apontado como provável indicado em categorias do Oscar 2006.
- via lista de socios ABCine, enviado por Monsieur Ebert

Naquela mencionada entrevista que dei à TV, a mocinha jornalista entrevistadora me perguntou o que penso do Oscar. A pergunta me provocou, porque sempre considerei que o Oscar é um prêmio superestimado. Que nos importa o Oscar? É um prêmio criado pelos estadunidenses para premiar estadunidenses e promover filmes estadunidenses em terras estadunidenses. Não faz a menor diferença para nós. Melhores são os prêmios de crítica e de cinema independente.

E então, Fernando ganhou o British Independent Film Awards. Sensacional. Somos bons de cinema, eu sempre disse isso, mesmo àqueles que torcem seus narizes elitistas achando que cinema bom é o europeu. Cinema bom é o nosso.

Confesso que acompanho as aventuras de Fernando e Waltinho em terras estrangeiras com um certo sentimento de torcedora. É bonito ver dois cineastas que, na minha opinião, representam muito bem o nosso cinema, se aventurando em águas internacionais e se dando muito, muito bem.

Não importa que o filme que Fernando dirigiu seja inglês. A mão que dirige o filme é brasileira. O pensamento, o modo de ver o mundo, a cultura que formou aquela cabeça de diretor, são brasileiros. Já li em algum lugar que é justamente por ter sido dirigido por um diretor brasileiro que o Jardineiro Fiel tem o tom e a sensibilidade que se vê no filme. Acredito nisso. Cultura é alguma coisa imensa e intrínseca como o ar que respiramos, é invisível e estamos imersos nela (essa frase não é minha, não sei quem a cunhou).

Quando o filme de Fernando conquista algum prêmio, reforça a idéia de que temos competência cinematográfica, sim, cinema bom é o nosso. “Cidade de Deus” concorreu a 4 oscars. Perdeu todos para o também fantástico Senhor dos Anéis. Se Fernando concorrer novamente, e mais ainda, se ganhar, terá sido mais um prêmio merecido. Se não concorrer ou se concorrer e não ganhar, não fará a menor diferença: o público e a crítica já reconheceram seu talento. É o que basta.

O Cinema pelos olhos da estética

Tuesday, October 18th, 2005

“O cinema prá mim tem uma origem estranha. Porque quando eu tinha uns oito anos e minha irmã uns dez anos, nós ganhamos um aparelho de 9,5 mm, com vários filminhos. Era de um tio avô meu, tio Júlio Barbosa. E nesse conjunto de filminhos tinha desde Chaplin até o ‘Gordo e o Magro’. Eram filminhos de 5 a 3 minutos, e nós ficamos encantados com esse brinquedo. Aquilo era um brinquedo, mas a rua inteira ficou ligada naquele cineminha. Minha irmã e eu até pensamos em ganhar um dinheirinho cobrando ingresso pelo cineminha. Mas minha mãe gritava lá de dentro: ‘Isso não é prá ganhar dinheiro…’ Acho que até hoje fiquei marcado por essa frase terrível: ‘Não é prá ganhar dinheiro’. ‘Está bom, então vamos brincar de cineminha’.”
- Entrevista com Mario Carneiro - por Lauro Escorel

“A literatura, às vezes, é uma voz embriagada que canta.”
- João Gilberto Noll (autor de “Harmada”)


Quem participou da sessão ABCine ontem, teve a oportunidade de ouvir de Mario Carneiro um pedaço da história viva do cinema no Brasil. Mario Carneiro contou ontem várias histórias, incluindo-se o “causo” de como Glauber e ele filmaram o premiado curta-metragem documental sobre o funeral de Di Cavalcanti.

A importância de assistir “Harmada” de Maurice Capovilla é que o filme nos traz pistas de como compreender a nossa atual falta de memória e cultura. “Harmada” é baseado no livro de mesmo nome de João Gilberto Noll. Não vou resumir o livro porque é irresumível, é necessário lê-lo para poder apreender o que o livro é exatamente. Lendo o livro, compreende-se mais profundamente as escolhas da filmagem feitas por Maurice Capovilla e Mario Carneiro em “Harmada”.

O filme, entretanto, não depende do livro: ele fala por si mesmo. Maurice tem uma trajetória de documentarista - o que traz naturalidade e fluência ao filme. Maurice filma mais relaxado e despreocupado do que aqueles que se educaram como profissionais no cinema publicitário, que possui sempre verba. Maurice faz um filme que possui a medida exata de preocupação de produção, sem escravizar-se a um orçamento existente ou não-existente, o que é muito saudável ao processo de filmagem, uma vez que o Brasil sofre de problema financeiro crônico no cinema nacional. A visão documentarista de Maurice simplifica o processo produtivo do filme, sem sacrificar a linguagem ou estética.

Mario Carneiro me pareceu estar gozando das delícias de finalmente ter se transformado em um mito vivo. Sorria, ao dar a sua entrevista-palestra falando sobre o filme, sua carreira e sobre si mesmo. É um dos muitos resgates que temos que fazer entre as pessoas que já produziram muita arte e cinema no Brasil mas que recebem pouco destaque, por não serem “criaturas comerciais da mídia televisiva”. Ainda mais que Mario, como ele mesmo comentou, já passou para a categoria “é um velho” e o Brasil, como país superpopuloso e colonizado que é, desvaloriza pessoas que deixaram a juventude para trás. Infelizmente, fomos engolidos pela cultura do eterno jovem, das superfícies vazias e do imediatismo. Absorvemos a MTV completamente, ainda que seja apenas forma e zero de conteúdo, sem nenhuma reflexão.

A fotografia de “Harmada” é impecável. É um exercício de virtuosismo. O enquadramento, os planos-seqüência, a montagem final, são clássicos, limpos. Mario, como ele mesmo se confessa, é um esteta. Não poderia deixar de ser, com sua origem nas artes. Essa preocupação e gosto pela estética transpiram pelo filme.

Pereio é sempre o bom Pereio, voz profunda, gestos contidos, interpretação na medida. Que falta faz ao cinema nacional mais atores que saibam interpretar personagens para o olho da câmera. Pereio não tem nenhum daqueles cacoetes insuportáveis dos atores televisivos das novas gerações nem dos atores que somente pisaram em tablado, Pereio sabe atuar com uma câmera recortando o olhar. Nesse ponto, o momento mais gostoso do filme é a cena onde ele contracena com Cecil Thiré, numa conversa entre amigos. São dois atores habituados ao cinema, em um diálogo que flui, numa cena bonita.

Tenho certeza absoluta que “Harmada” deve soar dissonante para quem conhece pouco da história do cinema brasileiro ou, pior, para as gerações mais jovens que foram privadas de um contexto cultural brasileiro, que desconhecem o que seria essa identidade cultural nacional, de onde vem essa identidade, do que é composta e que elementos possui. Os mais jovens foram criados alimentados com ritmos e elementos culturais totalment importados via mídia e derivados de culturas estrangeiras massificadas. Perdem o que é o significado das cores contrastadas, dos tecidos escolhidos para os figurinos, da luz dura tropical.

“Harmada” acaba sendo um filme complexo de entender a quem não possui contexto cultural. Acaba sendo um filme de águas estranhas, quando deveria surgir aos nossos olhos como sendo um universo familiar. E daí vem sua maior importância, o resgate de uma origem cinematográfica brasileira.

“Harmada” possui longos planos seqüência onde o objetivo é criar um tempo para permitir ao espectador desfrutar melhor das imagens que está assistindo. Tem a beleza da paisagem colonial de Paraty de pano de fundo para crises humanas profundas, com texto longo e rebuscado, sim, flertando com o teatro. Mario comentou que na sua opinião de cineasta teria colocado menos texto - Mario, além de fotógrafo e cinematógrafo é também cineasta de formação antiga, da era pré-especialização, possui uma riqueza cultural que está hoje se tornando rara, com formação de artista plástico e arquitetura e vivência profissional de artista plástico, arquiteto, fotógrafo, cineasta. O texto do filme, entretanto, não incomoda, é um texto bonito e dito de forma adequada. Quando é teatro é teatro, quando é cinema é cinema.

Ontem tivemos uma aula viva de cinema como poucas que se pode assitir por aí.
E quem ainda não assistiu “Harmada”, assista.

Leiam também:

- O Desafio da Luz Tropical - por Carlos Ebert, ABC
- Harmada e a representação invisível - Chico Faganello
- A polêmica saudação de Glauber a Di - Maria Eugênia de Menezes
- O experimental no cinema brasileiro por João Carlos Rodrigues

Noitão no HSBC Belas Artes, the day after

Saturday, October 15th, 2005

Pré-estréia do Corpse Bride do Tim Burton. Foi o único que eu consegui assistir, na sessão das cinco da manhã, a terceira sessão. Ouvi dizer que passaram Dogma 3. Ouvi dizer também que tinha um filme francês, mas nem desconfio qual era. Em uma outra sala, parece que exibiram o Jardineiro Fiel, do Fernando.

O Léo da Pandora disse que ontem foram 1012 pessoas no Noitão. Foi uma noite récorde. A maior lotação do Noitão tinha sido 3 salas. Ontem lotaram as 6 salas do Belas Artes.

Eu trabalhei muito, muito. Tive a sorte de poder contar com a ajuda de pessoas inestimáveis no trabalho ontem. Nossa missão era divulgar a Educine, através de flyers e com sorteio de CDs. No meu time precioso, o Rogério, a Ângela, o Wagner, um amigo deles que eu esqueci o nome - eu o conheci ontem, sorry! - o Alexandre, a Thâmara (sempre com seu pique 220 volts), a Pat e a Ana (que prepararam todo o material). Eu consegui coordenar de forma razoavelmente organizada o trabalho - mas cá entre nós, são pessoas extraordinárias, criativas, nesse ponto meu trabalho foi pouco - e fiquei numa das catracas de uma das salas. Yes, eu me diverti muito, nunca tinha ficado na catraca de um cinema.

Vários amigos e alguns ex-alunos do meu curso de Direção de Arte apareceram, revi pessoas que não via há muito tempo.

Viramos a noite. Tomamos café da manhã às seis da manhã e ainda assistimos a palestra do Walter Webb, no Seminário de Direção Audiovisual da Educine. Uma palestra fantástica, todos os alunos adoraram.

Fiquei 31 horas acordada direto, trabalhando. Não sei dizer se isso foi algum récorde pessoal. Mas foi uma noite maravilhosa, especial. Eu aviso quando tivermos outra, ok?

Nota: Esqueci de comentar: o Inagaki estava lá e me encontrou bem no momento em que eu estava trabalhando na catraca de entrada da sala Oscar Niemeyer. Genial, divertidíssimo.

Noitão no HSBC Belas Artes

Monday, October 10th, 2005

É sexta-feira agora, dia 14.
Programação:
Pré-Estréia: Corpse Bride de Tim Burton

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“There’s been a grave misunderstanding.”

Tem mais dois filmes programados, sendo um deles surpresa. A noite começa à meia-noite, segue pela madrugada e inclui café da manhã para os sobreviventes, na manhã de sábado. Teremos sorteio de DVDs, CDs e ingressos para cinema.
O ingresso custa R$ 15,00 para os 3 filmes, com café da manhã incluso.
Eu vou com meus asseclas.
Alguém mais?

Cinema como linguagem

Tuesday, August 16th, 2005

Depois da sessão ABCine de ontem fiquei pensando na problemática do cinema como linguagem. O cinema é muito discutido no Brasil, fala-se muito (e sempre) da dificuldade financeira, do problema do apoio governamental, da necessidade de política, de legislação. Discute-se muito sobre o suporte (35 mm, 16, digital, etc, etc) e sobre tecnologia (ou a falta dela). A discussão é ainda maior e mais acalorada quando o assunto é cinema de autor e estilo.

Em abril eu tinha escrito um texto sobre o problema do paternalismo na cultura brasileira. Quero reescrever esse texto. É um conceito muito importante, o mecanismo principal para entender por que as coisas são como são no Brasil. Esse texto merece ser avaliado novamente e reescrito. O momento histórico de hoje é reflexo desse paternalismo crônico. Os governantes ainda se consideram pais-estado e agem como se o dinheiro do estado fosse deles. A população ainda raciocina como filhos-que-precisam-do-pai-estado, que não tem direito de cidadão e sim, vivem mendigando direitos como se ainda vivêssemos na escravidão. O país teve como origem um forte colonialismo de exploração e não um colonialismo de desenvolvimento. O problema é cultural, ainda mais do que social ou econômico. Basta olhar as cifras do atual mar de lama que afoga o governo para perceber que o problema não é falta de dinheiro no país e sim para onde esse dinheiro vai.

A cultura brasileira é complicada e sem identidade homogênea. Somos uma nação de fragmentos, um intricado quebra-cabeça composto por indígenas, europeus de variadas origens, nações africanas, povos asiáticos. Não temos identidade cultural única e essa é uma das chaves para compreender por que alguns se identificam com narrativas lentas, emocionais e européias, outros preferem narrativas também lentas, mas cheias de símbolos, silêncios contemplativos e cores asiáticas, outros preferem narrativas dinâmicas típicas da cultura de massas e outros ainda com narrativas de novelas latinas, recheadas de diálogos e mais diálogos. Não há unanimidade porque cada região do país teve influências diferentes, desevolvimentos diferentes e acessos em graus diferentes à atual cultura globalizada que nos chega via mídia, internet, tv.

É muito complicado estabelecer qual é a “cultura brasileira” e assim tentar definir qual é a “linguagem audiovisual brasileira”. A grande verdade é que nem a mesma língua nós falamos no país todo, cada região tem o seu próprio vocabulário de língua falada e seu próprio universo de imagens. Trabalhar com tantas variáveis termina em um processo onde várias traduções são necessárias, as pessoas se entendem muito pouco, a nossa comunicação é cheia de ruídos culturais.

Talvez essa seja uma das chaves de compreensão sobre os diálogos tão díspares que surgem quando se discute cinema brasileiro. Talvez o que precisemos em toda a indústria cultural seja de menos tentativa de unanimidade e mais compreensão e tolerância com as diferenças culturais.

Casa de Areia

Tuesday, August 16th, 2005

Finalmente consegui assistir Casa de Areia, do Andrucha, na sessão especial da ABCine, seguida de um debate com parte da equipe do filme - estavam presentes Tulé Peake (direção de arte), Ricardo Della Rosa (Fotografia), Mirian Biderman (som), José Augusto de Blassis (Casa Mega) e Gigio Pelosi (colorista).

Primeiro, um comentário para quem ainda não assistiu o filme, para quem (como eu) tinha lido (ou escutado) muitas críticas ácidas sobre o filme e especialmente, para quem tem pouca fé no cinema brasileiro: vá ver. Vá, logo, hoje. Se depois de assistir você chegar à mesma conclusão de uma pessoa que comentou em um dos sites de cinema que eu leio de que o filme é apenas propaganda dos lençóis maranhenses, ou que é lento, arrastado, cheio de obviedades ou qualquer outra análise superficial dessas extremamente mau-humoradas, pré-concebidas para detestar o filme (eu li - e ouvi - várias críticas dessas, acreditem) então eu sugiro que volte a assistir enlatados made-in-usa e nunca mais vá ao cinema ver um filme brasileiro.

Casa de Areia é maravilhoso. Simplesmente maravilhoso.

Imaginem o que é filmar em um lugar onde cada grão de areia, literalmente, reflete a luz solar da altura do equador em todo seu esplendor. Imagine ter que fotografar esse filme calculando redução de luz e superexposição o tempo todo. Imagine filmar em um lugar onde o cenário se move, o vento vai levando a areia, que escorre e modifica a paisagem a cada minuto. Imagine ainda você ter que transportar a equipe de cinema para esse local, com equipamento, gerador, figurino, mobiliário, peças de cenário, câmeras, etc. Ao chegar, você tem que construir o cenário (várias casas que serão ao longo da história a mesma casa em diferentes fases), a cada dia de filmagem preparar o set inteiro para filmar e em poucos segundos, ter que mudar completamente de idéia e filmar outra cena porque o tempo fechou (e a raridade desse fato não pode ser desperdiçada) ou porque a areia engoliu parte do maquinário em minutos ou ainda porque um detalhe importante passou desapercebido: a equipe deixa pegadas na areia onde passa e isso atrapalha completamente a fotografia do filme. Imagine fazer tudo isso com câmeras de cinema que se estragam em poucos dias nem tanto pela areia que entra nelas, mas porque durante o dia faz 50 graus à sombra e de noite a temperatura cai para temperaturas próximas de zero. Detalhe: o local das filmagens é um parque nacional protegido pelo IBAMA cheio de restrições de uso. Apesar disso tudo, o orçamento final de Casa de Areia foi de apenas R$ 8,6 milhões, incluindo-se a finalização, com efeitos especiais e correções de cor. A fotografia é magnífica, a direção de arte é primorosa, o som é espetacular, a narrativa é peculiar.

Além das dificuldades técnicas e logísticas de filmagem ainda existia mais um desafio complicado: narrar o filme em um local tão magnífico e escapar do cliché fácil, do cartão postal turístico, transmitir com aquelas imagens espetaculares de areia a aridez da história, o local inóspito e difícil de se viver e não o local paradisíaco para férias de verão.

O filme consegue isso. As pessoas no debate após a exibição falavam o tempo todo em “deserto” e não em “praia” apesar das dunas estarem próximas do litoral e das imagens no filme não serem totalmente desérticas - vemos lagoas em várias passagens e até mesmo o oceano. Mais do que um deserto imagético é um conceito abstrato de deserto que é transmitido com competência pelo filme.

Agora pense em Fernanda Mãe e Fernanda Filha, duas grandes atrizes, que nunca tinham feito um filme juntas. Você tem duas personagens, mãe e filha. Você tem duas atrizes magníficas para interpretar mãe e filha que são mãe e filha na vida real. O local onde essas duas mulheres vivem tem areia, areia, areia e ainda assim o filme mostra com precisão - afinal, toda obra audiovisual tem sua narrativa baseada em imagens e sons - como a passagem do tempo acontece. O filme ultrapassa o fato de ser um filme passado em outra época, no início do século XX e conta um drama existencial universal, que poderia ser vivido por qualquer pessoa em qualquer tempo. A direção de arte, novamente, é preciosa. Nos pequenos detalhes da passagem do tempo, a condição de vida das duas mulheres, a dificuldade da luta com a areia, as memórias que vão ficando cada vez mais melancólicas são mostradas sutilmente, com delicadeza, através de um copo de vidro, uma vasilha de louça, um castiçal de vela, uma toalha de renda, uma e outra fotografias em um álbum ou coladas em uma parede.

Ainda mais duas outras coisas me chamaram a atenção: narrativa e tempo. A narrativa muito precisa muitas vezes parece que enlouqueceu: apesar do tempo passar, o tempo não passa! Tudo é apenas areia! Onde está a real passagem do tempo? A certa altura estamos confusos - aquela é a mãe, a filha ou a neta na pele de Fernanda Torres? Aquela é a avó, a mãe ou a filha na pele de Fernanda Montenegro? Esse caos temporal rapidamente é desfeito com elementos acessórios da narrativa: personagens, situações ou pequenos objetos que aparecem em cena para nos ajudar a nos situar.

Eu tinha lido críticas muito ácidas a Casa de Areia. Talvez a acidez dessas críticas venha do fato do Andrucha ser amigo do Waltinho, também amigo do Fernando, e todos eles fazem cinema porque querem fazer, independente de terem trabalhado com publicidade, independente do que os intelectuais brasileiros pensam que o cinema nacional deva ser ou não deva ser, do que é que as pessoas pensam do cinema hollywoodiano, independente das eternas reclamações de falta de dinheiro, de falta de política do audio-visual, das dificuldades, etc.

Casa de Areia tem selo do Ancine. Teve apoio de lei do audiovisual. Foi finalizado em 2K na Mega e na Casablanca. Foi patrocinado por várias instituições. Demorou para ser aprovado por leis de incentivo, para ser montado e finalizado. Apesar disso tudo, das dificuldades crônicas do cinema brasileiro, está aí para ser assistido. Custou 8,6 milhões. Seria considerado low budget em Hollywood.

Cinema é mais que apenas retratar miséria, pobreza, cactus, corrupção ou mar de lama. Cinema não pode ser encarado apenas como uma forma de fazer denúncia social ou mostrar problemas urbanos. Cinema é arte e como arte, transcende o pessoal para o universal, retornando ao pessoal na experiência íntima de cada pessoa que assiste um filme. Cinema é uma arte industrial, produzida em equipe, dependendo de cada pessoa empenhada na produção para ficar pronto, com qualidade.

Eu adoro “Cidade de Deus”. Gostei muito de “Quanto Vale ou é Por Quilo”. Amei “Cabra Cega”. Adorei o “Invasor”. Mas ainda bem que o Andrucha fez Casa de Areia. Casa de Areia é um filme de arte. Ainda bem. O cinema brasileiro precisa muito de diversidade para crescer e realmente se transformar em uma indústria cinematográfica de verdade.

Leia também:
A crítica de Djalma Limongi Batista ao filme, publicada no site Cinema com Rubens.

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